O Brasil está mentalmente adoecido. Não há dúvida disso.
As disputas eleitorais, que deveriam representar o exercício democrático das diferenças, invadiram as mesas de jantar, romperam amizades e transformaram divergências em ofensas. As famílias já não conversam sobre política, e as pessoas não conversam sobre si mesmas.
Passadas as eleições e o Setembro Amarelo, tenho ficado reflexivo sobre o mal-estar civilizatório e a relação disso com o suicídio no Brasil. É evidente que não se pode atribuir a causa de suicídios a uma eleição, mas a brutalidade das relações revela uma sociedade que desaprendeu a escutar e que causa o desencantamento pela vida para muitas pessoas.
Pois bem. A palavra suicídio vem do latim sui, “de si mesmo”, e -cídio, ligado a caedere, “matar”. A etimologia descreve o ato, mas não alcança a dimensão do sofrimento que deve precedê-lo. Por trás de uma morte assim, não existe uma explicação única, muito menos espaço para julgamentos morais. Existem, sim, histórias, vulnerabilidades e pedidos de ajuda que, às vezes, não foram reconhecidos.
Em “O mal-estar na civilização”, Sigmund Freud examina a tensão entre os desejos humanos e as exigências da vida coletiva. Da obra, infere-se que a civilização protege o indivíduo, mas também impõe a ele renúncias duras e produz conflitos existenciais. Funciona mais ou menos assim: alguém só é socialmente validado se votou no candidato “X”. Caso não o tenha feito, pode ser descartado socialmente para um não lugar.
Não bastasse isso, o sistema competitivo e individualista no qual vivemos produz uma civilização autossuficiente sem qualquer empatia. Byung-Chul Han, em “Sociedade do cansaço”, descreve um sujeito que já não precisa de um líder, pois cobra de si mesmo a produtividade, o sucesso e a felicidade sem descanso. Em “Psicopolítica”, o filósofo aprofunda a crítica ao poder que transforma a aparência de liberdade em instrumento de controle. Nesse tipo de vida, até o descanso se torna obrigação; até a intimidade, uma vitrine.
Nesse cenário, as redes sociais ampliam comparações, premiam a hostilidade e confundem visibilidade com reconhecimento. A política, reduzida à lógica de torcidas, acrescenta inimigos imaginários a uma rotina de esgotamento real. Quem pensa diferente deixa de ser interlocutor para se tornar adversário a ser eliminado do convívio. O resultado não é apenas a pobreza do debate, mas o enfraquecimento dos vínculos que podem proteger pessoas em sofrimento.
Machado de Assis nos ensina, em “O alienista”, sobre o perigo de uma sociedade adoecida, convencida de que, supostamente, saberia distinguir a razão da loucura. Simão Bacamarte, personagem principal, interna tantos habitantes da cidade que a própria fronteira entre normalidade e desrazão se torna suspeita. A verdade é que o Brasil está cheio de Simões Bacamartes.
Talvez devêssemos desconfiar de muita gente pretensamente superior e da suposta sanidade dessas pessoas que humilham e que condenam os outros por serem o que realmente são.
Afinal, deveríamos nos perguntar: quem são os verdadeiros loucos? São aqueles que sentem a dor da alma por não se encaixarem em uma sociedade belicosa ou os que constroem uma sociedade em que tantas pessoas perdem a esperança de viver?
Talvez o Brasil tenha enlouquecido e precise urgentemente de psiquiatria coletiva para evitar que os seus tirem a vida por não suportarem este mal-estar de viver no país de pessoas sem alma.

Carlos André Pereira Nunes, linguista, assessor jurídico, professor, advogado especializado em redação de atos normativos, conselheiro da OAB, diretor da Acieg e presidente do Instituto Carlos A














