Rafael Vaz
Durante anos, o agronegócio brasileiro foi o principal motor da economia nacional. Recordes sucessivos de produção, exportações em alta e investimentos robustos consolidaram o setor como responsável por cerca de um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) do País. Nos últimos semestres, porém, esse cenário de prosperidade deu lugar a uma realidade marcada pelo aumento da inadimplência, crescimento das recuperações judiciais, restrição ao crédito e redução da rentabilidade no campo.
Os números evidenciam a gravidade do momento. Levantamento da NEOT Tecnologia e Informação aponta que o agronegócio registrou 517 pedidos de recuperação judicial apenas no primeiro trimestre de 2026, alta de 33% em relação ao mesmo período do ano passado. Considerando também as recuperações extrajudiciais, foram 524 processos, envolvendo um passivo estimado em R$ 38 bilhões.
A inadimplência também voltou a crescer. Segundo a Serasa Experian, 8,8% dos produtores rurais brasileiros encerraram o primeiro trimestre deste ano com algum tipo de dívida em atraso, reflexo das dificuldades enfrentadas para manter o fluxo de caixa e honrar financiamentos contratados nos últimos anos.
Embora os indicadores tenham se agravado recentemente, especialistas afirmam que a crise começou a ser construída ainda durante a pandemia da covid-19, quando o mercado internacional viveu um período de forte valorização das commodities agrícolas.
Para o sócio-diretor da Pátria Agronegócios, Cristiano Palavro, o ciclo atual é consequência de uma sequência de acontecimentos econômicos que alteraram profundamente a dinâmica do setor.
“Nós tivemos uma elevação significativa nos preços das commodities com a chegada da pandemia. Tivemos uma elevação na demanda por diversos produtos, e isso fez com que praticamente tudo subisse de preço. Esse cenário gerou margens significativamente mais altas para o setor”, afirma.
Segundo ele, a valorização das commodities foi interpretada pelo mercado como um sinal para ampliar a produção. Produtores investiram em novas áreas, adquiriram máquinas, aumentaram a produtividade e expandiram os negócios, impulsionados por um ambiente de elevada rentabilidade. A resposta do campo foi rápida. Em pouco tempo, a produção cresceu em ritmo superior ao avanço da demanda mundial. “O mercado favorável puxou a oferta. O produtor investiu e a oferta cresceu muito rapidamente. A partir de 2023, essa oferta passou a crescer mais rápido do que a demanda. Com estoques maiores, os preços começaram a cair”, ressalta.
O problema, explica Palavro, é que a queda das commodities não foi acompanhada por uma redução proporcional dos custos de produção. “Os custos dobraram entre 2019 e 2023 e não caíram. A guerra entre Rússia e Ucrânia, mudanças no cenário geopolítico e questões envolvendo fertilizantes fizeram com que eles permanecessem altos. Se eu tenho custos altos e preço de venda baixo, a margem do setor derreteu”, diz.
Essa combinação de preços menores e custos elevados atingiu diretamente a capacidade financeira dos produtores, principalmente daqueles que ampliaram investimentos durante o período de maior rentabilidade. “Os investimentos que o produtor fez ficaram muito onerosos, porque, com preços mais altos, ele gastava menos sacas para quitar aquelas parcelas e aquelas dívidas. Depois veio um cenário ruim, que trouxe dificuldade para sustentar esses investimentos”, explica.
Na avaliação do especialista, o aumento das recuperações judiciais não decorre, necessariamente, de perdas de produção provocadas pelo clima, embora eventos extremos também tenham agravado a situação em algumas regiões.
“Não necessariamente foi uma crise causada por quebra de produção. Houve perdas pontuais em algumas culturas, mas esse não foi o ponto principal. Foi um problema econômico. O investimento foi alto, os custos permaneceram elevados e a margem apertou”, diz.
Os reflexos aparecem nos indicadores de inadimplência. Palavro lembra que, poucos anos atrás, os índices eram significativamente menores. “Segundo o Banco Central, nós tínhamos uma inadimplência menor que 3%. Hoje já chega a 13%. Pela Serasa, está próxima de 9%. Foi um cenário bom que estimulou investimentos e, depois, um cenário ruim que trouxe dificuldade para sustentar esses investimentos”, garante.
Na avaliação do consultor, o crescimento das recuperações judiciais está ligado principalmente aos grupos de médio e grande porte, que realizaram investimentos expressivos nos últimos anos.

Crédito mais restrito amplia os efeitos da crise
Se o aperto nas margens ajuda a explicar o aumento do endividamento no campo, a consequência mais imediata aparece no mercado de crédito. Com a inadimplência em alta e um volume crescente de renegociações, bancos e cooperativas passaram a adotar uma postura mais conservadora na concessão de financiamentos, justamente em um momento em que os produtores mais precisam de recursos para custear as próximas safras.
Na tentativa de amenizar esse cenário, o Governo Federal publicou a Medida Provisória nº 1.376/2026, que cria mecanismos para renegociação de dívidas rurais de produtores e cooperativas afetados por perdas climáticas e dificuldades de mercado entre 2019 e 2025. A proposta prevê a ampliação dos prazos de pagamento, juros subsidiados e a criação de um fundo garantidor para facilitar as operações de crédito.
Para o presidente do Sicoob UniCentro BR, Diogo Mafia, entretanto, a medida representa apenas um alívio parcial. “Ela ficou muito aquém do esperado pelo setor do agronegócio. Os tipos de dívidas que podem ser colocados para ser renegociados vão trazer pouco alívio para o produtor, porque o pessoal vem enfrentando esse cenário há três ou quatro anos, renegociando operações, e muitas vezes saiu das linhas que são rurais”, avalia.
Segundo ele, a principal limitação da medida é restringir a renegociação as operações que ainda permanecem classificadas como crédito rural. “A medida provisória veio permitindo renegociar apenas as dívidas que estão exatamente marcadas como crédito rural. Tem uma emenda proposta, a Emenda 13, que aumenta esse leque, mas isso ainda depende da votação. No momento, ajuda um pouco, mas muito aquém do que se necessitava. Ainda é insuficiente para resolver o problema”, explica.
Na avaliação do dirigente, o cenário também mudou profundamente a forma como as instituições financeiras analisam o risco das operações. “O crédito rural necessariamente precisa ser barato. O produtor não tem condição de tomar um crédito caro. Como ele é barato, a instituição financeira também tem um ganho menor sobre essas operações. À medida que você começa a ter inadimplência, torna a operação inviável”, reflete.
Os números ajudam a explicar essa mudança de comportamento. Enquanto, há poucos anos, a inadimplência girava em torno de 1%, atualmente, algumas instituições convivem com índices superiores a 7%, além de um volume expressivo de contratos renegociados.
Na prática, isso significa que produtores encontram mais dificuldades para acessar recursos, especialmente aqueles ligados à produção de grãos, segmento que concentra boa parte das preocupações do mercado financeiro.

Faeg defende crédito de longo prazo e alerta para cenário crítico no campo
O aumento do endividamento dos produtores rurais e o crescimento das recuperações judiciais no agronegócio são resultado de uma sucessão de fatores econômicos e climáticos que, em um curto espaço de tempo, comprometeram a capacidade financeira do setor. A avaliação é do presidente interino do Sistema Faeg/Senar, Eduardo Veras, que defende a adoção de medidas estruturantes para garantir previsibilidade, fortalecer o crédito rural e preservar a competitividade da agropecuária brasileira.
Segundo Veras, a crise não pode ser atribuída a um único fator. Para ele, a pandemia da covid-19 provocou uma forte desorganização das cadeias globais de suprimentos, elevando os custos logísticos e o preço de insumos essenciais, como fertilizantes, defensivos agrícolas, combustíveis e máquinas. Na sequência, os conflitos entre Rússia e Ucrânia e, posteriormente, no Oriente Médio ampliaram a volatilidade dos mercados internacionais, pressionando ainda mais os custos de produção, especialmente dos fertilizantes, dos quais o Brasil é fortemente dependente.
Outro fator determinante, segundo o dirigente, foi a redução dos preços das principais commodities agrícolas após um período de forte valorização. Muitos produtores adquiriram insumos quando os preços estavam em patamares historicamente elevados, apostando na manutenção das cotações. Com a queda dos preços da soja, do milho e de outras culturas, as margens de rentabilidade foram reduzidas, dificultando o cumprimento dos compromissos financeiros assumidos.
Além das dificuldades econômicas, Veras destaca que a estiagem registrada em diversas regiões produtoras, inclusive em Goiás, agravou o cenário ao comprometer a produtividade da segunda safra de milho e reduzir a geração de receita justamente em um momento em que muitos produtores precisam honrar financiamentos e renegociar dívidas.
“O aumento das recuperações judiciais não deve ser interpretado, na maioria dos casos, como consequência de má gestão ou excesso de alavancagem isoladamente. Em grande parte, reflete uma sucessão de choques externos – pandemia, conflitos internacionais, inflação dos custos de produção, queda das margens agrícolas e adversidades climáticas – que reduziram significativamente a capacidade de pagamento de produtores rurais e empresas do agronegócio.”

Crédito e seguro rural
Na avaliação do presidente interino da Faeg, as políticas de crédito rural continuam sendo fundamentais para a sustentação da agropecuária, mas ainda não são suficientes para atender às necessidades do setor diante do atual cenário.
“Infelizmente não, tanto é segura esta resposta, pois, se fosse suficiente, não estaríamos vendo este quadro desesperador em vários Estados brasileiros, onde, em casos mais extremos, tem produtores perdendo a própria vida. Nada é mais valioso que a vida humana.”
Para Eduardo Veras, uma das medidas mais urgentes é o alongamento das dívidas dos produtores rurais, com prazos compatíveis com a capacidade de geração de caixa da atividade agropecuária. Ele também defende linhas de renegociação com juros menores e sustentáveis, capazes de preservar a atividade produtiva sem apenas transferir as dificuldades financeiras para os anos seguintes.
Outro ponto considerado estratégico é o fortalecimento do seguro rural. Segundo o dirigente, a agricultura convive diariamente com riscos climáticos, sanitários e de mercado que escapam ao controle do produtor, tornando essencial a existência de um programa permanente de seguro agrícola para reduzir a vulnerabilidade do setor, ampliar a segurança das operações financeiras e proteger a renda de quem produz alimentos.
Veras também defende a construção de uma política de Estado para o crédito rural, com planejamento de longo prazo que ofereça previsibilidade quanto ao volume de recursos disponíveis, às condições de financiamento e às taxas de juros. Na avaliação dele, o produtor rural toma decisões de investimento de longo prazo e necessita de estabilidade para investir em tecnologia, aumentar a produtividade e manter sua competitividade.
Perspectivas
Ao analisar as perspectivas para os próximos meses, Eduardo Veras afirma que o cenário ainda inspira preocupação. Segundo ele, a combinação entre elevado custo da dívida, restrição ao crédito, exigência crescente de garantias e a possibilidade de influência de um forte El Niño tornam a próxima safra uma das mais desafiadoras para o setor. “Esta próxima safra, inclusive a segunda safra de 2027, será a mais desafiadora dos últimos 75 anos da Federação da Agricultura do Estado de Goiás.”
O dirigente defende que o setor produtivo e a sociedade civil mantenham diálogo permanente para enfrentar esse período e alerta que a perda de um número significativo de produtores poderá comprometer não apenas a produção agropecuária, mas também a segurança alimentar do País.
“O campo e a sociedade civil organizada precisarão estar em constante diálogo para podermos atravessar este período. Poderemos colocar em risco a segurança alimentar da sociedade brasileira”, conclui.
ANÁLISE SETORIAL
As renegociações do agro
Maicon Farina, Sócio-Diretor da Lure Capital, Vice-presidente da Câmara Setorial de Governança Corporativa da ACIEG e Conselheiro Fiscal do Sicoob Unicidades. Administrador pela PUC-GO, Executivo Financeiro pela FGV-SP, Estratégia pela FDC-MG e de Conselheiro de Administração pelo IBGC. Especialista em operações estruturadas de crédito e professor de Matemática Financeira.
Oprodutor rural brasileiro atravessa um dos períodos mais difíceis dos últimos anos. Entre juros elevados, quebras de safra provocadas pela estiagem e manutenção persistentemente baixa dos preços das commodities, a capacidade de honrar dívidas despencou – e Goiás, um dos motores do agronegócio nacional, sente o peso dessa equação com força.
O tamanho do problema, em poucos números
Levantamentos recentes da Serasa Experian e da Faeg convergem para o mesmo diagnóstico, ainda que com metodologias diferentes: a inadimplência rural no País bateu recorde histórico no início de 2026, com Goiás entre os estados de maior judicialização — o segundo em pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio em 2025, atrás só de Mato Grosso. Some-se a isso a retração do crédito oficial: as concessões de crédito rural a produtores pessoa física caíram 17% em 2025, e o Plano Safra liberou 25% menos recursos em Goiás na safra 2025/2026. Menos crédito novo, mais dívida vencida: o produtor fica espremido entre os dois lados do balanço.
MP 1.376
A principal aposta do Governo para destravar esse cenário é a Medida Provisória nº 1.376/2026, que autoriza uma linha para refinanciar até R$ 100 bilhões em dívidas rurais em prazos de até dez anos. Ela ainda não foi aprovada em definitivo pelo Legislativo, e é provável que o texto sofra mudanças durante a tramitação, inclusive por pressão de entidades do setor que consideram os limites atuais insuficientes. Na prática, isso significa que as condições hoje divulgadas — juros de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais produtores, com carência de até dois anos — podem ser ajustadas até novembro, quando se encerra o prazo para contratação.
O enquadramento exige: redução mínima de 30% da renda bruta esperada em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025, atestada por laudo de profissional habilitado, seja por evento climático extremo (com laudo técnico) ou queda no preço do produto financiado e extrato completo das operações em aberto — CPRs, custeio, investimento.
Mas a renegociação não é automática: depois de várias mudanças da redação original, a MP acabou deixando por liberalidade exclusiva do banco decidir se aceita ou não renegociar a dívida do produtor, ou seja, o banco faz sua própria análise de risco e pode negar a operação.
Além do banco: o que o mercado de capitais oferece
Quando a linha oficial não cobre a necessidade — e, historicamente, ela cobre só uma fração do setor —, existem instrumentos privados que ajudam tanto a alongar a dívida quanto a captar recursos novos. A Cédula de Produto Rural (CPR) permite antecipar receita vendendo a produção futura a indústrias, tradings ou investidores. Títulos como CRA, CDCA, Barter e LCA conectam o produtor diretamente ao investidor institucional, sem depender só do banco.
O CRA costuma ser mais indicado para prazos mais longos, como expansão de área ou compra de máquinas, enquanto o Fiagro funciona como fonte contínua de capital estruturado — e já é usado, inclusive, em reestruturação de dívidas, com garantias imobiliárias convertidas em cotas do fundo. As cooperativas de crédito rural completam o leque.

Maicon Farina, Sócio-Diretor da Lure Capital, Vice-presidente da Câmara Setorial de Governança Corporativa da ACIEG e Conselheiro Fiscal do Sicoob Unicidades. Administrador pela PUC-GO, Executivo Financeiro pela FGV-SP, Estratégia pela FDC-MG e de Conselheiro de Administração pelo IBGC. Especialista em operações estruturadas de crédito e professor de Matemática Financeira.













