Rafael Mesquita
José Carlos Garrote de Souza, o “Zé Garrote”, construiu um império bilionário do agronegócio apostando tudo o que tinha por três vezes, transformando uma pequena granja familiar na São Salvador Alimentos (SSA), dona das marcas SuperFrango e Boua, que deve faturar R$ 4,5 bilhões neste ano.
Por trás dos números grandiosos de uma empresa que tem mais de 9 mil colaboradores, abate cerca de 540 mil aves por dia e exporta para 93 Países, pulsa a história de um homem movido à disciplina, à resiliência extrema e à rara capacidade de adiar o próprio conforto em nome de um legado.
A trajetória de Zé Garrote não começou na terra ou nos galpões de criação, mas, sim, atrás do balcão de uma farmácia em Itaberaí, interior de Goiás. Aos nove anos de idade, por determinação do pai, Manoel Martins de Souza (um farmacêutico prático que abominava a ociosidade), ele já limpava vidros, espanava os objetos e varria o chão.
Aquela infância moldada pelo trabalho duro é algo que ele levou para o resto da vida. “Esse momento com pequenos afazeres que parecem não ser importantes, foi fundamental para a minha vida no futuro. Comecei a ter uma noção de responsabilidade e senso de organização. Foi minha base de gestão e trabalho”, compartilha.
Esse período também impôs sacrifícios: aos 11 anos, passou um ano inteiro interno em um colégio de padres em São Paulo, enfrentando a solidão das férias longe de casa, porque a família não tinha recursos para custear a viagem de volta. Ao retornar a Goiás, a farmácia virou o seu lar literal. Por nove anos, Zé Garrote foi o plantonista oficial do negócio do pai. Ele dormia em uma humilde cama de campanha armada ali mesmo, entre os remédios, acordando de madrugada para atender os vizinhos doentes. Entregava medicamentos de bicicleta e cobrava de clientes em áreas rurais isoladas da região.
Aos 17 anos, decidido a se casar com Maria Flávia Perillo, comprou do pai a sua primeira farmácia. Aos 21, já era dono de duas drogarias na cidade, detinha metade do mercado local e possuía casa e carro próprios, 150 bois e 75 hectares de lavoura. O roteiro de uma vida estável e próspera parecia escrito.
Tudo mudou em 1981, depois que o cunhado de Garrote ficou tetraplégico em coma, após uma cirurgia. O seu sogro, Carlos Vieira, que mantinha uma granja modesta em Itaberaí desde a década de 1970, o convidou para assumir o negócio de aves e propôs uma sociedade. Zé não entendia nada de avicultura, mas enxergou ali uma oportunidade.
Chamou a esposa e juntos tomaram a primeira de uma série de decisões determinantes para o sucesso: o empresário vendeu 100% de seu patrimônio (farmácias, casa, carro, bois e lavoura) para investir na terra e nos frangos. “Antes, meu sonho era ser um distribuidor de medicamentos na região. Com aquela decisão, ali, eu recomecei do zero”, relata. Entre 1981 e 1989, o empresário chegou a limpar aviários, transportar de Komb, uma vez por semana, pintinhos de Uberlândia para abastecer a granja e carregar caixas com as próprias mãos. “Nesse período, assisti reuniões , troquei ideias com executivos sobre a expansão da avicultura no Brasil e aprendi muito”, recorda.
Essa coragem de arriscar tudo se repetiu outras duas vezes nessa trajetória. Em 1991, para deixar de ser apenas um criador e passar a incluir o abate de carnes nos negócios, ele liquidou novamente os seus bens, inclusive um apartamento em Goiânia que ainda não havia sido quitado. Na época, vizinhos e empresários da região o criticaram, desacreditando que Itaberaí pudesse abrigar uma estrutura daquele tamanho. “O abatedouro São Salvador foi inaugurado realizando o abate de 2.500 aves por dia, mas montei uma estrutura para até 24 mil. Por isso, o nosso crescimento foi rápido”, afirma.
Em 1997, para verticalizar a produção e garantir a qualidade do que as aves consumiam, desfez-se do patrimônio pessoal mais uma vez. Inaugurou uma unidade de rações. “Ainda foi necessário o empréstimo de um milhão de reais em aves do empresário Alfredo Resende, proprietário da granja Resende, para que a gente pudesse tocar a nossa criação de aves”, destaca.




Expansão e exportação
Naquele período, a empresa já abatia 24 mil aves por dia. Mas era preciso crescer. Em 1999, Garrote contratou um consultor que sugeriu aumentar a capacidade para 240 mil. Apesar do temor inicial, era possível acreditar que o plano daria certo. “Naquele período, já vivíamos um momento de mais estabilidade econômica trazida pelo Plano Real, o que veio em boa hora para a gente”, comemora.
No início dos anos 2000, foi a uma reunião sobre exportação na Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Goiás (Acieg). A maioria dos empresários que estavam presentes não exportava, inclusive Garrote. Tinha medo por causa da excessiva burocracia. Em 2004, foi convidado pelo Governo do Estado a participar de uma comitiva de 80 empresários goianos que visitaria a Ásia. Foi determinado a fazer negócio. “Queria entender como era aquilo e conseguimos vender um contêiner de 25 toneladas de pé de frango para uma empresa de Hong Kong”, recorda.
Hoje, a SuperFrango exporta entre 6.500 e 7.000 toneladas por mês de frango para 93 Países. “Cada lugar tem a sua especificidade, exigência de qualidade do produto e preço. Precisamos nos adaptar”, explica. O abatedouro, que foi inaugurado em 1991 abatendo 2.500 frangos por dia, atualmente chega a 540 mil aves diariamente. “Sempre fui muito focado e acredito muito no que faço, por isso hora nenhuma tive medo ou arrependimento, mesmo quando foi preciso recomeçar do zero”, afirma.
Em 2014, a São Salvador Alimentos ainda lançou a marca Boua, com produtos não derivados do frango, como linguiça, presunto e queijo. Atualmente, o grupo opera com duas grandes plantas industriais em Goiás (Itaberaí e Nova Veneza) e mantém centenas de produtores integrados. As suas marcas estampam as gôndolas de todo o Brasil e chegam a mercados exigentes como a Europa e a China.




Vida, família e sucessão
Em um mundo de aparências e ostentação rápida, a filosofia de vida de Zé Garrote se destaca pela disciplina. Ele costuma provocar reflexões ao contar que, após assumir o negócio em 1981, levou exatamente 19 anos para ter a sua primeira casa própria, no ano 2000.
Durante quase duas décadas de crescimento constante da empresa, todo o lucro gerado era religiosamente reinvestido na operação. Enquanto via pessoas ao seu redor comprando carros zero e esbanjando conquistas imediatas, ele morava de forma modesta. O primeiro “luxo” que se permitiu só veio quando a estrutura da São Salvador Alimentos estava sólida o suficiente para caminhar sozinha.
Casado há 47 anos com Maria Flávia Perillo, o casal tem três filhos, todos atuam no grupo. Ana Flávia é psicóloga e administradora e atua na gestão de pessoas da empresa. Ana Cláudia é advogada e trabalha na área de compliance. Já Hugo, é administrador de empresas e se tornou o gestor da São Salvador Alimentos.
Atualmente, Zé Garrote é o presidente do conselho de administração da SSA, tendo passado o cargo de CEO para seu filho, Hugo Perillo, após 30 anos no comando do grupo. O processo de sucessão familiar foi desenhado com governança profissional, auditorias e critérios rígidos de meritocracia.
O empresário é categórico ao afirmar que os seres humanos têm “prazo de validade” e que o verdadeiro papel de um líder é preparar a empresa para que ela continue gerando empregos e alimentando famílias muito além da existência de seu fundador. “Quando você constrói uma empresa e é o gestor, tem que enfrentar de tudo e ser o centroavante e o goleiro do time. Agora tenho responsabilidade estratégica, de direcionamento”, ressalta.
Garrote acredita que o próprio tempo se encarrega de promover as mudanças. “Comecei jovem e já estou com quase 70 anos. O cansaço físico e mental chega e é preciso sangue novo. O Hugo se preparou para esse momento, estudou, trabalhou fora. Tudo para conseguir conduzir os negócios de uma forma mais moderna”, conclui.
















