Pensar dói. E a IA é um relaxante muscular para essa dor. Ao dar um passo rumo ao pensamento e à leitura, quem pensa produz mais; quem entrega sem essa ajuda está em pleno emprego do seu estado mental.
Não terceirize a mente antes de desenvolvê-la. As ferramentas de IA são aceleradores de produtividade vendidos como inteligência, mas essa camada – palavra da moda na IA, assim como os travessões – é apenas a superfície de um túnel profundo de utilidades que, infelizmente, a maioria usa e continuará usando como buscador para desentupir o vaso ou gerar uma imagem engraçada do primo.
O problema não está na ferramenta, mas no usuário, que, como vem há décadas diante de novas tecnologias, permanece usuário mediano ou medíocre. Em mais uma da série das minhas analogias tortas, estão usando o carro de luxo, caro e novo, que lhes foi entregue de presente, para dormir e ouvir música, não para percorrer o vasto campo da invenção e da produção.
Há uma ironia cruel neste instante de evolução mental e técnica. A mesma tecnologia capaz de comprimir horas de raciocínio em segundos é empregada para evitar o raciocínio por completo. O ganho de velocidade, em vez de liberar tempo para pensar mais fundo, vira desculpa para pensar menos.
Resolver pequenos textos e imagens não é o objetivo da IA – é o seu ou de quem assim o faz. Ou seja, quem é esse usuário na fila do pão? Ele foi sempre assim e assim quer continuar? Medo de ligar o carro e se perder no trânsito congestionado das ideias? Medo de ser testado e falhar?
Delega-se ao usuário a formulação das perguntas, o que se convencionou a chamar de prompt. E, permita-me um intervalo no pensamento: não duvide que, nestas andanças Brasil afora, vamos encontrar alguém como o nome de Prompt Rodrigues Alves – brasileiro é algo único e maravilhoso no mundo. Voltando à costura das ideias, o amigo prompt gera uma estrutura do argumento, uma “arquitetura” (outra palavra dada nas IAs) ante a escolha das palavras e o que retorna é aceito sem exame, o que diagnostica um padrão bonito e ordinário, além do necessário, que o autor assina sem ler.
É um tapa na cara cognitivo, que ofende a ferramenta que veio para ser um acessório de inteligência artificial ao usuário e não um acelerador de desinteligência orgânica. Uma espécie de acelerador da “atrofia voluntária” do cérebro causada por desuso.
É a guerra da falsa recompensa. A IA tende a ajudar quem menos precisa dela ao ampliar repertório de palavras para quem pode ler e tem preguiça, refinar argumentos para quem nasceu pensante e pode emburrecer gratuitamente por querer pensar pouco ou nada, além de acelerar a produção de quem já sabe produzir.
Ao usuário inteligente, a IA empresta alcance. Ao preguiçoso, ela dá uma aparente competência, um verniz sujo que vai descascar. Aquele ditado de que vaca não sobe em telhado; então, ela vai cair.
Em resumo: o medíocre com IA continua medíocre, só que mais rápido e mais confiante no próprio erro. A ferramenta não se recusa, mas é preciso inverter seu uso, pois ela não serve para pular a etapa do pensamento, mas para levar as ideias e invenções mais longe. Não se compra um carro para atravessar a rua quando se pode atravessar cidades e Países.
Entenda seu uso e transforme sua vida profissional com a IA, não o contrário. Não se ajoelhe nem se reduza. Questione e encontre sentido em existir ao lado dela. Você não pode ser um pet da IA. A maior diferença está entre quem se serve da ferramenta e quem é servido por ela. Qual é o seu caso?
Lutar contra a preguiça mental é um gesto de resistência com enorme recompensa no fim do túnel. Anote o que estou falando e, daqui três anos, falamos. Um abraço e boa leitura estratégica no fim de semana.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














