Por Rafael Vaz
Durante décadas, a cana-de-açúcar foi associada quase exclusivamente à produção de açúcar e etanol. Hoje, a realidade é bem diferente. A mesma matéria-prima movimenta uma indústria capaz de gerar energia elétrica, produzir biocombustíveis, desenvolver novos insumos para a indústria química e abrir caminhos para combustíveis voltados ao transporte marítimo e à aviação.
Nesse cenário de transformação, Goiás vive um momento emblemático. Ao reassumir a segunda posição no ranking nacional de produção de cana-de-açúcar, o Estado confirma não apenas a sua força no campo, mas também o amadurecimento de uma cadeia produtiva cada vez mais diversificada e estratégica para a economia de baixo carbono.
Segundo o quarto levantamento da safra 2025/2026 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Goiás deve colher 80,1 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, registrando a maior safra dos últimos dez anos. O resultado reflete a expansão da área cultivada, os ganhos de produtividade e os investimentos realizados pelo setor, mas também evidencia um movimento que vai além dos números: a consolidação de uma indústria capaz de agregar valor à matéria-prima e ampliar a participação do Estado nos mercados de energia renovável.
Para o presidente-executivo do Sifaeg/Sifaçúcar, André Rocha, a relevância de Goiás não pode ser medida apenas pelo volume de cana produzido. “Mesmo quando tínhamos perdido a segunda posição na produção de cana, nós sempre fomos o segundo Estado na produção total de produtos”, afirma.
Segundo ele, essa característica diferencia Goiás de outros grandes produtores nacionais. “Minas é o segundo na produção de açúcar. Ele tem um viés muito açucareiro. Goiás tem um viés para a produção de etanol, e não de açúcar. Essa diferença é em função da distância. Quanto mais distante do porto, o açúcar se torna menos competitivo.”
Além da produção de etanol a partir da cana, Goiás ampliou a sua participação na fabricação de etanol de milho, fortalecendo ainda mais a sua posição nacional. “Quando nós somamos a produção de etanol de cana, a produção de etanol de grãos, e a produção de açúcar, nós somos o segundo maior produtor”, explica.

Desenvolvimento que começa no interior
O avanço da cana-de-açúcar também mudou a realidade de diversos municípios goianos. Diferentemente de outros segmentos industriais, as usinas acompanham a produção agrícola e se instalam no interior, o que gera empregos, renda e dinamizando economias locais.
Para André Rocha, esse é um dos principais impactos da cadeia sucroenergética. “As usinas estão localizadas no interior do Estado. Via de regra, as nossas usinas são os maiores empregadores dos municípios onde elas estão instaladas”, acredita.
Segundo ele, cidades como Edéia, Porteirão, Perolândia, Caçu, Goianésia, Goiatuba e Mineiros tiveram as suas dinâmicas econômicas transformadas pela presença da indústria. Quirinópolis também é um dos exemplos citados pelo dirigente. “Quando as duas usinas chegaram lá, era o município número 50 em competitividade. Não tinha nenhuma concessionária de trator, nenhuma concessionária de veículos. Apareceram concessionárias, aumentaram os leitos hoteleiros, aumentaram os leitos hospitalares”, destaca.
Mais do que gerar empregos, a cadeia impulsiona diferentes setores da economia. “Você interfere na agricultura, interfere no comércio e nos serviços. Com isso, você interioriza o desenvolvimento”, pontua.
Esse movimento também se reflete na qualidade de vida dos municípios. “A partir do momento em que são instaladas, as indústrias fazem com que os municípios onde elas estão tenham maior crescimento de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)”, analisa.

Uma cadeia que vai muito além do açúcar
Embora o açúcar continue sendo um dos principais produtos do setor, a cana passou a abastecer uma indústria muito mais ampla. Hoje, praticamente toda a biomassa é aproveitada para geração de energia e novos produtos. “Nós produzimos alimentos, que é o caso do açúcar; produzimos um biocombustível, que é o caso do etanol; produzimos bioenergia, com a biomassa”, afirma André Rocha.
Segundo ele, o setor também produz leveduras, álcool para diferentes aplicações industriais e sanitárias e avança em uma nova frente: o biometano. “Agora estamos começando a incrementar a produção, que vai substituir o diesel das frotas das usinas, dos tratores e dos caminhões que transportam a cana, mas também é um produto para ser vendido, por exemplo, para os ônibus do transporte coletivo.”

O etanol ganha novos mercados
Se a produção recorde fortalece Goiás no cenário nacional, é o etanol que concentra parte das expectativas para o futuro do setor. Para o diretor financeiro e de relações com investidores da Jalles Machado, Rodrigo Penna, a consolidação do Estado como um dos principais polos sucroenergéticos brasileiros foi resultado de um conjunto de fatores, entre eles políticas de incentivo, empreendedorismo e desenvolvimento tecnológico.
Segundo ele, o melhoramento genético foi decisivo para adaptar a cultura às condições do Cerrado. “Foi muito importante descobrir a variedade de cana que se adaptasse a esse ambiente de produção. Nem sempre a variedade que vai bem lá vai bem cá e vice-versa.”
Na avaliação do executivo, o etanol ganha importância porque reúne vantagens ambientais em relação aos combustíveis fósseis. “Quando você olha o ciclo completo, o etanol é uma ótima alternativa para a transição energética.”
Embora o Brasil ainda tenha espaço para ampliar o consumo interno, Rodrigo Penna acredita que novas oportunidades devem surgir no mercado internacional. “Hoje, um pouco mais de 80% da frota brasileira é flex. Desses 80%, ano passado, só 27% usaram etanol como abastecimento.”
Da estrada para o mar e para o céu
Uma das apostas do setor está na utilização do etanol como combustível marítimo. Segundo Rodrigo Penna, esse movimento já começou. “Já tem várias empresas de navio transformando esses motores para poder rodar com etanol”, relata.
O potencial desse mercado é expressivo. “O setor marítimo consome mais de 300 bilhões de litros por ano. O Brasil produz aproximadamente 35 bilhões de litros de etanol, e o mundo inteiro produz cerca de 120 bilhões de litros.”
Outra frente em desenvolvimento é o Combustível Sustentável de Aviação (SAF), produzido a partir do etanol. Embora o custo ainda seja elevado, o executivo acredita que esse mercado tende a crescer à medida que as exigências ambientais avancem.
Além disso, a alcooquímica desponta como uma nova oportunidade para utilização do etanol na fabricação de bioplásticos e outros produtos industriais.
Se a inovação amplia mercados, ela também transforma a rotina das empresas. Na Jalles Machado, tecnologia, automação e integração operacional já fazem parte do dia a dia. “Hoje, nossa colheita é toda interligada. Todos os equipamentos se comunicam com o motor de controle”, destaca.
Segundo Rodrigo Penna, o próximo passo será ampliar o uso de operações autônomas no campo. Já André Rocha destaca que a pesquisa vem impulsionando novas possibilidades para toda a cadeia. “Atualmente, há uminvestimento forte em pesquisa, em desenvolvimento, em tecnologia”, completa.
“Nós temos para o futuro algumas possibilidades: o uso do etanol como combustível marítimo, o uso do etanol como bioplástico.”

Governo destaca ambiente favorável ao crescimento do setor
O avanço de Goiás para a segunda posição nacional na produção de cana-de-açúcar é resultado da combinação entre investimentos privados e um ambiente favorável ao desenvolvimento da cadeia sucroenergética. Em entrevista à Leitura Estratégica, o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ademar Leal, atribuiu o desempenho à capacidade técnica das usinas e aos investimentos realizados pelo setor.
Segundo o secretário, o Estado reúne condições favoráveis para o cultivo da cana, enquanto as empresas têm apostado continuamente em tecnologia, mecanização e inovação para ampliar a produtividade. “Goiás é um estado que tem uma condição muito favorável ao plantio da cana, e eles investiram muito em tecnologia, equipamentos, máquinas e fertilizantes. Todo o pacote tecnológico de altíssimo nível fez com que a gente pudesse recuperar essa posição”, afirmou.
Ademar Leal também destacou que o avanço da cadeia vai além da produção agrícola. Para ele, o crescimento da geração de bioenergia, do biometano e da produção de etanol reforça o papel estratégico do setor para o desenvolvimento econômico e para a transição energética. “Toda essa cadeia de produção é muito incentivada pelo Governo, que não mede esforços para fazer acontecer”, disse.
Para manter a competitividade, o secretário ressaltou que o foco está na melhoria da infraestrutura, da rede de transmissão de energia e na redução de entraves para novos investimentos. “O Governo de Goiás vem trabalhando de forma estrutural nas melhorias da infraestrutura rodoviária, da transmissão de energia elétrica e nas autorizações ligadas a questões ambientais”, explicou.
Na avaliação de Ademar Leal, o objetivo é oferecer segurança e condições para que o setor continue expandindo sua capacidade produtiva. “O Estado vem trabalhando para que os empresários e empreendedores possam ter o terreno mais fértil para fazer acontecer”, concluiu.














