Ano 9 – 1964: Cooperativismo a um passo da intervenção militar
Por Leandro Resende
Na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, tropas militares saíram dos quartéis, e João Goulart deixou o Brasil sem resistência formal. O País mudou de regime em horas. Se a década de 60 começou bem para o cooperativismo brasileiro, este último dia de março de 1964 marcou especificamente uma virada. O País anoiteceu em uma democracia, mas amanheceria no regime militar, com vários movimentos e projetos associativistas entrando na mira dos fuzis e das listas de “inimigos da nação”.
O cooperativismo acumulava um protagonismo no projeto do governo estadual de Mauro Borges, o que já bastava para entrar na lista de intervenções. O que viria a seguir seria construído de forma lenta e metódica. Os planos para o setor eram outros e começavam a se desenhar.
O novo governo, sob o comando do marechal Humberto de Alencar Castello Branco, tratou todos os sindicatos e entidades de classe como alvos potenciais. A União das Cooperativas do Estado de Goiás (UCEG), entidade que deu origem ao Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado de Goiás (OCB/GO), estava na lista. O grupo já organizava e influenciava várias cooperativas filiadas, muitas criadas após a sua fundação (em 1956), o que exigia um monitoramento direto das Forças Armadas.

A lógica era simples e abrangente: desmobilizar qualquer forma de organização coletiva dos trabalhadores, independentemente do ramo, sejam empresários, políticos ou servidores públicos que se mostrassem resistentes.
O instrumento legislativo de intervenção (e esvaziamento) no cooperativismo brasileiro chegou ainda em 1964: a reforma bancária, pela Lei 4.595/64, que equiparou as cooperativas de crédito às demais instituições financeiras, transferindo a sua fiscalização do Ministério da Agricultura para o Banco Central do Brasil. Na prática, isso representou um aperto regulatório severo.
As cooperativas de crédito, que já haviam visto seu universo encolher de 1,2 mil entidades, no final da década de 1950, para 511, em 1961, perderam ainda mais competitividade. Novas regras marcaram o clima de tutela (e elas serão destrinchadas nos próximos capítulos). Por enquanto, 1964 fervia. Goiás era apontado como um Estado estratégico (abrigava o Distrito Federal) e visto como resistente ao golpe. Prisões, abordagens, militares nas ruas fazendo ronda e várias listas de comunistas, potenciais espiões e estudantes marcavam o tom dos primeiros dias do regime.

Mauro Borges Teixeira, o governador que havia inscrito o cooperativismo como política de Estado, que criara a Casego, a Caesgo, os Combinados Agro-Urbanos e a Efomago, foi deposto em novembro, após os militares assumirem o poder. No ano seguinte, ele e seu pai, Pedro Ludovico Teixeira, foram enquadrados por crimes de espionagem e supostos desmandos contra a segurança nacional.
O projeto que havia dado à UCEG seu ambiente mais fértil, entre outros, foi desmontado. A ordem era passar o trator e enterrar o modelo de gestão do governador goiano – identificado como comunista.
Os números não mentem. Segundo dados do IBGE, em janeiro de 1960, havia 4.353 cooperativas no Brasil. Uma década depois, a quantidade caiu para 2.847. Os anos de chumbo, como ficaram conhecido o período 1964-1985, deixaram marcas profundas no setor.
Em Goiás, os efeitos foram sentidos de forma direta já nos primeiros meses. O presidente da UCEG desde a sua fundação, José de Assis de Moraes, estava sob pressão, assim como todas as cooperativas do Estado. E a entidade cooperativista, que desde 1956 construíra sua representatividade tijolo a tijolo, estava prestes a enfrentar a sua primeira intervenção. Mas essa história será contada no próximo capítulo desta série especial.














