Redação
Goiás passou a ocupar, nos últimos anos, uma posição de destaque em um dos setores mais estratégicos da economia global. A criação do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (Ceia-UFG) colocou o Estado no mapa da formação de profissionais altamente qualificados em inteligência artificial. Como em um clube que revela jogadores promissores, Goiás tem formado talentos cada vez mais cedo e em alto nível. A diferença é que, nesse cenário, atuar fora do Estado não é exceção. É parte do jogo.
Criado em 2019, o Ceia-UFG rapidamente se consolidou como um dos principais polos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em inteligência artificial no Brasil. Hoje, reúne mais de mil pesquisadores vinculados, com cerca de 950 atuando diretamente em projetos ativos, desenvolvidos em parceria com mais de 160 empresas.
A estrutura, construída ao longo dos últimos anos, inclui mais de cem projetos contratados e investimentos superiores a R$ 40 milhões em infraestrutura. O centro também ganhou reconhecimento internacional ao ser citado, recentemente, como referência brasileira em investimento em infraestrutura para inteligência artificial durante o Brazil Silicon Valley, evento realizado na Califórnia.
Se a estrutura chama atenção, é o modelo de formação que explica o impacto. No Ceia, o estudante não espera o fim do curso para entrar no mercado. Ele começa a atuar ainda nos primeiros períodos da graduação, inserido em projetos reais. “A gente trabalha com esses alunos desde o começo. Todo projeto já prevê diferentes níveis de competência”, explica a diretora-executiva do centro, Telma Soares.
Os estudantes passam a integrar equipes com diferentes níveis de experiência, assumindo responsabilidades e participando da entrega de soluções para empresas e órgãos públicos.
“Como somos uma instituição de pesquisa, ao negociar a parceria, nós pesquisamos e ensinamos. O aluno já tem contato com o que é um problema real e aprende a aplicar o conhecimento da sala de aula”, afirma.

Bolsas elevadas ainda na graduação
A inserção precoce no mercado também se reflete diretamente na remuneração dos estudantes. Na Universidade Federal de Goiás, alunos de Inteligência Artificial vinculados ao Ceia começam a atuar em projetos com bolsas entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil nos primeiros semestres.

Com o avanço na formação, os valores aumentam. Estudantes em nível intermediário recebem entre R$ 3 mil e R$ 4 mil, enquanto os mais avançados chegam a valores entre R$ 6 mil e R$ 7 mil. Em alguns casos, os rendimentos podem alcançar R$ 10 mil ou até R$ 12 mil.
Há ainda alunos que participam de mais de um projeto simultaneamente, ampliando tanto a experiência quanto a renda. Na prática, isso faz com que o estudante deixe de ser apenas um aluno em formação e passe a atuar como um profissional em desenvolvimento ainda dentro da universidade.
Fora do ambiente acadêmico, o mercado também está de olho nesses profissionais. Empresas de médio porte têm contratado recém-formados, via CNPJ ou CLT, com salários iniciais que giram em torno de R$ 4 mil. Com o acúmulo de experiência, essa remuneração pode dobrar ou até triplicar: profissionais plenos recebem em média R$ 8 mil, enquanto os seniores chegam a ganhar entre R$ 12 mil e R$ 20 mil.
Em São Paulo, o salário para profissionais pode ser ainda maior. Um exemplo recente é um processo seletivo aberto pela Tractian, empresa que atua com IA aplicada ao setor industrial, para especialistas em inteligência artificial e sistemas embarcados, com remuneração de R$ 25 mil.
Para Heinz Felipe Rahming, formado na primeira turma do curso de Inteligência Artificial da UFG, o contato com o mercado ocorreu ainda no início da graduação — e ajudou a moldar toda a sua trajetória profissional.
“No primeiro período já começaram a surgir oportunidades. Na terceira semana, eu já estava dentro de uma”, relata.

Ao longo do curso, ele acumulou experiências que ultrapassam o mercado local. Trabalhou remotamente para uma empresa no Canadá, desenvolveu projetos para uma companhia holandesa e chegou a passar um período em Amsterdã. Mesmo com essas oportunidades, optou por permanecer em Goiás.
Hoje, Heinz atua como pesquisador e gerente na área de startups dentro do próprio Ceia, trabalhando diretamente na atração e desenvolvimento de novos negócios em inteligência artificial no Estado.
A decisão de permanecer, segundo ele, não está ligada apenas à remuneração, mas ao tipo de atuação profissional que encontrou no ambiente local.
“Não é só salário. Tem a ver com o que eu estou construindo aqui. Ainda tem muita coisa para fazer”, afirma.
Ele destaca que, no campo específico da inteligência artificial, o mercado brasileiro já apresenta maior equilíbrio em relação a outros segmentos de tecnologia.
“No Brasil, as oportunidades estão bem competitivas. Mas, quando você olha para fora do País, existe uma diferença maior”, observa.

Sair também faz parte da trajetória
Se para alguns a permanência faz sentido, para outros, a saída é uma escolha natural dentro da desenvolvimento da carreira. Um ex-aluno do curso, que prefere não se identificar, afirma que encontrou fora do Estado um ambiente mais estruturado para atuar na área.
Segundo ele, o mercado local ainda não acompanha o ritmo da formação de profissionais em inteligência artificial. “Goiás ainda não entende totalmente o que é inteligência artificial. Muitas vezes, confunde com outras áreas de tecnologia”, afirma.
A percepção, analisa, reflete-se diretamente nas oportunidades. “Em São Paulo, encontrei salários melhores, projetos mais estruturados e equipes já preparadas para trabalhar com IA. Foi uma escolha de carreira”, diz.
Outro ex-aluno, atualmente atuando em Minas Gerais, relata experiência semelhante, mas chama atenção para um ponto específico: a maturidade das empresas.
“Em Goiás, muitas ainda estão começando a entender como aplicar inteligência artificial no negócio. Em outros estados, você já encontra empresas que sabem exatamente o que querem, já têm times estruturados e projetos mais avançados”, afirma.
Segundo ele, essa diferença impacta não apenas os salários, mas também o tipo de desafio profissional. “Não é só ganhar mais. É trabalhar em projetos mais complexos, com mais dados, mais escala e mais impacto.”
O movimento é percebido também pelo próprio Ceia. De acordo com o centro, empresas que contratam projetos frequentemente acabam recrutando estudantes para as suas equipes, processo que tem se intensificado com o crescimento da instituição e a maior visibilidade dos profissionais formados.
Para a diretora do Ceia, essa movimentação está inserida em uma dinâmica mais ampla do mercado de tecnologia. “O objetivo não é só trazer benefícios para Goiás. O centro tem um papel nacional e atende empresas do País todo”, afirma Telma Soares.
Ela reconhece que a Região Sudeste, especialmente São Paulo, ainda concentra maior volume de oportunidades, mas destaca que o cenário local vem evoluindo.“Já temos startups sendo criadas e empresas começando a absorver esses profissionais aqui em Goiás”, diz.

Quando o ecossistema faz a diferença
Enquanto Goiás estrutura a sua base de formação e começa a consolidar o seu ambiente de inovação, São Paulo opera em um estágio mais avançado de integração entre universidade e mercado.
Na Universidade de São Paulo (USP), o ecossistema reúne pesquisa, empreendedorismo e inovação dentro do próprio ambiente acadêmico. Um dos principais exemplos é o Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia, responsável por uma das maiores incubadoras de empresas de base tecnológica da América Latina.
Nesse modelo, projetos desenvolvidos por estudantes passam por etapas de validação, mentoria e aceleração, com acesso a investidores e redes de negócios. O resultado é um ambiente em que o talento não precisa sair para encontrar oportunidades. Elas já estão conectadas ao processo de formação.

Do talento à oportunidade, o papel do ecossistema
Se o Ceia representa o ponto de partida na formação e no desenvolvimento tecnológico, o avanço do setor em Goiás passa também pela consolidação do ambiente de inovação. É nesse contexto que se insere o Hub Goiás, iniciativa do Governo do Estado em parceria com o Porto Digital, voltada ao fortalecimento do ecossistema e ao apoio direto a startups e empreendedores.
Os dados mostram um ambiente em expansão. O Hub já lançou nove editais, recebeu 726 inscrições em seus programas e alcançou um público de mais de 38 mil pessoas em suas ações. Além disso, contabiliza mais de 11,6 mil utilizações de espaços de coworking e a realização de 627 eventos voltados à inovação, capacitação e conexão com o mercado.
Na prática, o Hub atua em uma etapa diferente da cadeia. Enquanto o Ceia forma profissionais e os insere em projetos de inteligência artificial desde o início da graduação, o Hub trabalha na criação de oportunidades para que esses talentos possam empreender ou se conectar com empresas e investidores.
Entre as iniciativas, estão programas de aceleração e incubação, capacitação profissional, eventos de networking e conexão com investidores, além da oferta de espaços de trabalho colaborativo. Projetos como o Epicentro da Inteligência Artificial, o GovTech e o programa e-Goiás indicam uma tentativa de estruturar, de forma mais ampla, o uso da tecnologia tanto no setor privado quanto no público.
Essa diferença de função ajuda a explicar o momento atual. Goiás já apresenta uma base sólida de formação em inteligência artificial, mas ainda está em processo de amadurecimento do seu ecossistema de negócios.
É justamente nesse intervalo que ocorre a circulação dos profissionais. Formados em um ambiente de alto nível técnico, muitos encontram, fora do Estado, mercados mais consolidados para aplicar esse conhecimento. Ao mesmo tempo, a ampliação de iniciativas como o Hub Goiás aponta para um movimento de tentativa de retenção desses talentos no médio prazo.













