O debate sobre o fim da jornada 6×1 no Brasil precisa ser feito sem a ingenuidade do fácil discurso de “demonização” do empresariado. Na prática econômica, quando o assunto é custo de produção, empresário não perde, ele ajusta. Ele demite, retira benefícios ou repassa o custo ao preço final. Simples assim – ele pode até vender menos com a alta de preços, mas quem perde mais com tudo isso não aparece na conta.
Enquanto a discussão se limitar ao “trabalhar um dia a mais ou a menos”, o projeto parecerá sedutor. Mas basta avançar um centímetro para dentro da proposta – hoje, improvisada e carente de estudos de impacto – para enxergar o risco real para trabalhadores e consumidores (quiçá, eleitores).
O que liga o 7×1 da Alemanha na Copa do Mundo de 2014 ao atual movimento pela PEC da jornada 6×1?
Além do risco de uma amarga e nova goleada, é um replay da incapacidade brasileira de aprender com o passado. O Brasil tenta modificar a sua estrutura trabalhista em um cenário de transformações profundas ocorridas entre 2016 e 2026. Vivemos o desemprego absurdo da era Dilma, o choque da covid-19, o advento do trabalho híbrido, a “uberização” (ou subtrabalho autônomo), a Reforma Trabalhista e a necessária, porém truncada, a atualização da NR1 para adicionar os riscos à saúde mental dos trabalhadores.
Sabe o que esse tsunami de mudanças, vendidas com promessas magníficas, melhorou nas condições de vida do trabalhador? Mudou muito e, de ganho real, mudou nada. O trabalhador brasileiro continua recebendo um dos mais baixos salários em comparação global e entrega uma produtividade bisonha, que não gera inveja a ninguém. Ocupamos a 94ª posição entre 184 países no ranking da OIT – ganhamos só de países que tem pouco ou nada de empresa tradicional. Com uma produtividade por hora de apenas US$ 22, o País não enfrentou seus desafios estruturais: a informalidade e a falta de qualificação.
Mesmo com um crescimento anual de 2 a 3% nos últimos anos, o Brasil vive uma crise histórica de mão de obra que só não é mais agressiva porque a economia enxuga gelo – cresce sem ninguém ganhar. Com juros aviltantes e carga tributária expropriativa, o lucro desse crescimento fica retido em bancos e governos. Enquanto as receitas públicas e bancárias batem recordes, a população bate recordes de inadimplência e precarização do trabalho. O brasileiro é cada vez mais o “rei do bico”.
É neste cenário que o Congresso tenta forçar uma redução de jornada sem estudos técnicos profundos, visando apenas o panfleto eleitoral. Não se altera a estrutura de empresas e famílias para elevar popularidade de ocasião na véspera de eleição. A pressa atual lembra a Reforma Tributária: um salto no escuro feito “para dizer que fizemos”. É como tomar, de uma só vez, um comprimido de cada um dos remédios daquela caixa de sorvete reciclada, que as famílias chamam de farmacinha, para ver qual vai curar a dor de cabeça. Pode até curar, mas o risco de overdose é ignorado por quem busca o selo “Made in Meu Mandato”.
Extinguir a jornada 6×1 às vésperas de campanha é a cara do Brasil: prioriza-se a superfície e ignora-se a raiz. Sem ganho de eficiência, a medíocre produtividade vai tombar. O resultado? Demissões para reduzir impacto, recontratações de menor qualificação para tampar buraco, excesso de trabalho para quem ficar, precarização de benefícios não obrigatórios (adeus VR, VA, planos de saúde e afins) e um garantido repasse inflacionário.
Mão de obra é custo. Se o custo sobe sem contrapartida de entrega, o preço sobe na gôndola. É quando o gol de placa prometido pode virar mais um vexame histórico contra o próprio trabalhador. Vai pagar ingresso caro e bater palmas para a Alemanha.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














