Eu confesso que ainda consigo me surpreender com a tolice e com a falência comportamental humana neste início de século XXI. Aliás, a contemporaneidade é pródiga em nos apresentar estupidezes…
Nesta semana, vi imagens de competição de jovens farmando aura. Se você não sabe o que é isso, já explico: jovens com poses calculadas, gestos ensaiados, de forma bizarra e com “espontaneidade” fabricada, para “causar”, como se dizia na gíria da Geração Y.
Confesso que o que me inquietou estava atrás das câmeras… Pais que filmavam, riam e estimulavam a cena grotesca…
Incialmente, já lhe aviso que, do ponto de vista linguístico, “farmar aura” é empréstimo do verbo inglês to farm. Nos jogos eletrônicos, farmar significa repetir ações para acumular recursos ou pontos. Nas redes, “aura” tornou-se um saldo de prestígio.
O jovem faz algo “descolado” para aumentar seu capital de admiração. É o cultivo artificial da naturalidade.
Como especialista em educação, afirmo que isso, por si só, já é um problema, porque é terreno fértil do brain rot, o “cérebro podre”. Essa expressão, escolhida pela Oxford como Palavra do Ano de 2024, descreve a deterioração intelectual associada ao consumo de conteúdos triviais. Estímulos rápidos e recompensas instantâneas enfraquecem a atenção, a paciência e o gosto pela complexidade.
Pesquisas indicam que as gerações Z e Alfa apresentam cognição inferior à das gerações anteriores.
Mas… vamos à causa desse problema:
A maior parte dos pais da Geração Y não tem maturidade para a paternidade.
Preferiu tornar-se amiga, fã, cinegrafista e assessora dos filhos Z e Alfa. Criou as crianças do Minecraft e jogos de brain rot. Criou crianças que não podem ter frustrações.
Esses pais não suportam o desconforto de serem educadores. Como permanecem emocionalmente infantis, temem o conflito e transformam qualquer limite em culpa.
Dizem “sim” para não serem contrariados, compram silêncio com telas e confundem amor com ausência de exigência. Não formam autonomia, porque administram a satisfação imediata.
Incrivelmente, muitos deles têm a sem-cerimônia de criticar, sem qualquer conhecimento técnico, métodos pedagógicos de professoras e de exigir mudanças. Algo inacreditável…
Não tenho dúvida de que o resultado disso estará em pouco tempo no mercado do trabalho. Empresas receberão adultos que desejam reconhecimento antes de competência. Os futuros trabalhadores terão dificuldade para cumprir rotinas, para ouvir críticas e para perseverar sem aplausos.
A cobrança será sempre confundida com violência; o fracasso, com injustiça.
Aliás, você já vê isso aí em sua empresa?
As relações sociais também pagarão essa conta. Quem nunca ouviu “não” em casa dificilmente saberá conviver com o “não” do outro. Os vínculos serão frágeis: toda diferença parecerá ofensa e todo limite será interpretado como rejeição.
Em verdade, eu digo: pais não existem para impedir toda frustração, mas para ensinar os filhos a lidar com ela. Educar é oferecer amor, presença, exemplo e limite. A tarefa dos pais não é produzir personagens admirados por alguns segundos. É formar seres humanos capazes de sustentar a vida inteira.
Por isso, peço: pais, não farmem aura.

Carlos André Pereira Nunes,
linguista, assessor jurídico, professor, advogado especializado em redação de atos normativos, conselheiro da OAB, diretor da Acieg e Presidente do Instituto Carlos André.














