A taxa Selic está em 14% ao ano, e a inflação acumulada em doze meses gira em 4,4%. O juro real brasileiro, hoje, é de cerca de 9% ao ano, o mais alto entre os últimos três governos, justamente no período em que a inflação está mais próxima da meta e, o déficit primário, proporcionalmente, é menor do que nos dois mandatos anteriores. O enigma merece ser nomeado com precisão: se inflação e resultado fiscal corrente não explicam o tamanho do juro cobrado do Tesouro, o que explica?
A resposta não está nos boletins do Copom, mas na economia política da própria taxa de juros. Em 1943, Michał Kalecki já descrevia por que classes rentistas resistem ao pleno emprego e ao gasto social permanentes: não por razão técnica, mas porque um Estado que garante emprego e renda retira do capital financeiro o seu principal instrumento disciplinador, a insegurança. Belluzzo e Bresser-Pereira atualizaram o diagnóstico para o Brasil: falam de captura rentista da política monetária, em que a estabilidade patrimonial do detentor de título público pesa mais na função de reação do Banco Central do que o hiato do produto ou o custo social do desemprego.
Os números dos últimos três governos sustentam essa leitura. Sob Temer, o teto de gastos era regra nova e sem histórico, mas o mercado precificou credibilidade antes do resultado: juro real caiu para 2,3% ao ano, mesmo com déficits recorrentes. Sob Bolsonaro, o teto foi rompido, a dívida saltou para 90% do PIB, e o juro real ficou negativo até a inflação disparar em 2021. Já sob Lula 3, com fundamentos objetivamente melhores, o remédio é o mais amargo dos três: 9% de juro real para conter inflação já dentro da tolerância da meta.
Um dado recente torna esse argumento mais difícil de contestar. Entre dezembro de 2024 e meados de 2026, o risco-país medido pelo CDS (prêmio de risco do Brasil) de cinco anos caiu quase 50%, ao menor nível desde a pandemia: o mercado, pelo instrumento que efetivamente precifica risco de calote, diz confiar mais na solvência brasileira. Ainda assim, a taxa de juros sobre a própria dívida pública não recuou no período. Se fosse pura precificação de risco fiscal, os juros deveriam ter caído junto, e não caíram. O que sustenta o juro real elevado não é o risco medido pelo mercado, é a própria arquitetura da meta de inflação.
É tentador parar na acusação. Mas a tese fica mais forte, e mais útil, se for propositiva. Se o custo da dívida está desacoplado do risco de crédito, a resposta não pode ser só entregar superávit pontual. Exige rever a rigidez da meta de inflação cheia, sem o núcleo que exclui alimentos e energia, prática comum em bancos centrais que enfrentam os mesmos choques de oferta. E exige separar, com honestidade, o que é prêmio de risco contra este governo do que é custo estrutural de uma arquitetura monetária que favorece o capital financeiro sobre o produtivo, independentemente de quem governa.
A pergunta que fica, e que merece seguir sendo feita a cada ata do Copom, é simples: qual parcela desses 9% de juro real é inflação, qual é fiscal, qual é aversão estrutural ao Estado que gasta com o povo, e qual é apenas o preço de uma arquitetura monetária que nunca resolveu a própria taxa neutra? Sem essa separação, continuaremos chamando de “técnica” uma decisão que também é, em parte, política.

Marcos Freitas, empresário, economista, mestre e doutorando.














