Ano 10 – 1965 – Cooperativismo: o quartel assume o comando
A intervenção militar no País, em 1964, chega ao cooperativismo no ano seguinte. Caderno dos 70 anos da OCB/GO mostra como foi este novo ciclo do setor em Goiás
Leandro Resende
O ano de 1965 começou sob o peso do que havia sido decidido em Brasília. O regime militar, instalado em abril do ano anterior, avançava sobre as entidades de classe com método. Em Goiás, o cooperativismo sentiria esse movimento de forma direta e constrangedora. A União das Cooperativas do Estado de Goiás (UCEG), fundada em outubro de 1956 por 14 pioneiros, numa sala de 12 metros quadrados, teve sua primeira diretoria eleita deposta por decreto. A UCEG é a entidade que deu origem ao Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado de Goiás (OCB/GO).
Na noite de 16 de março de 1965, no salão da Sociedade Goiana de Pecuária, na Avenida Goiás, Centro de Goiânia, realizou-se a primeira reunião da UCEG sob o novo regime. O presidente fundador da UCEG, José de Assis Moraes, foi deposto. Economista, ex-prefeito de Rio Verde, ex-deputado, o homem que havia aceitado o convite para liderar a entidade sem pestanejar, e conduzido a UCEG desde o primeiro dia entregava o comando da entidade aos generais do Exército.

Ezequiel Fernandes Dantas foi nomeado interventor na UCEG pelo governo militar. A interferência aconteceu sob o olhar do coronel Rufino de Souza Sobrinho, representante do governador Emílio Rodrigues Ribas Júnior, que foi nomeado pelo regime para substituir Mauro Borges Teixeira, em novembro de 1964.
Sem a presença de José de Assis, presidente deposto, e dos demais integrantes da antiga diretoria, Rufino comandou a mesa e fez as honras da casa.
No mesmo período, o ex-governador Mauro Borges e o seu pai, Pedro Ludovico Teixeira – dois dos maiores apoiadores institucionais do cooperativismo goiano nas décadas anteriores –, foram enquadrados por crimes de espionagem e supostos desmandos contra a segurança nacional.

O projeto que havia dado à UCEG o seu ambiente mais fértil estava encerrado. O interventor Ezequiel acertou com o major João Gilberto que, no prazo de 30 dias, seria eleita uma nova diretoria.

Na noite de 22 de abril, ele iniciou a assembleia no mesmo salão da Sociedade Goiana de Pecuária. Não conseguiu quórum. Sem postulantes, o encontro foi encerrado após as três convocações habituais. A convocação havia sido publicada nos principais jornais goianos – Folha de Goyaz e O Popular – por três dias consecutivos em março. Não bastou.
Uma nova assembleia foi marcada para 27 de abril. Dessa vez, com quórum obtido, e por voto secreto, Antônio de Pádua Freitas, presidente da Cooperativa Agrícola Mista de Brasília, foi eleito presidente, tendo como vice Públio de Souza, da Cooperativa de Laticínios de Goiás. Nenhum dos fundadores da UCEG esteve presente.
No âmbito nacional, 1965 trouxe a Lei 4.829, que institucionalizou o crédito rural com novas restrições às cooperativas do setor. Somada à reforma bancária do ano anterior, a legislação completou o cerco regulatório sobre o cooperativismo de crédito – transferido ao Banco Central, submetido a tabelamento de juros e impedido de captar recursos em condições competitivas.
A UCEG sobreviveu à intervenção, como veremos nos próximos capítulos. Mas saiu dela sem seus fundadores, sem seu governador aliado e com uma nova liderança, que precisaria aprender a operar num ambiente que não tolerava autonomia. Se a década inicial foi de prosperidade e expansão, a seguinte foi de sobrevivência e estagnação.














