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Início Cooperativismo

Goiás Cooperativo: 70 anos da OCB/GO

A maior crise financeira mundial desde 1929 afeta os negócios no Brasil. Caderno 70 anos da OCB/GO mostra como o cooperativismo reagiu

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
outubro 10, 2026
em Cooperativismo
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Goiás Cooperativo: 70 anos da OCB/GO
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Leandro Resende 

ANO 53 – 2008 – Crise mundial de 2008 testa o cooperativismo

Até agosto, 2008 parecia o melhor ano do século para o campo goiano: commodities nas máximas históricas, soja e milho valendo ouro, usinas e armazéns em obra. Em 15 de setembro, o banco americano Lehman Brothers quebrou, e a maior crise financeira desde 1929 saiu das páginas de economia para atingir todos os mercados e setores em efeito dominó. Isso não aconteceu só no Brasil, mas em todos mercados, inclusive nos compradores de produtos brasileiros. 

Da noite para o dia, o dinheiro congelou. O crédito mundial sumiu. Os preços agrícolas despencaram do pico histórico para contratos inviáveis. Os produtores tinham contratado insumos, que ficaram muito caros para a nova realidade de uma safra que valeria muito menos. 

Neste momento, o cooperativismo goiano apresentou a vantagem que vinha construindo há anos. Enquanto os grandes bancos encolhiam as carteiras para proteger os próprios balanços – um movimento de proteção ao sistema, abandono da economia produtiva e que o próprio Banco Central registraria em seus relatórios –, as cooperativas de crédito fizeram o caminho inverso: receberam depósitos de quem buscava segurança e mantiveram o crédito circulando na economia regional. 

A razão era estrutural. Em uma cooperativa, o dono do dinheiro é o vizinho, a decisão de emprestar é tomada na cidade, e o recurso captado no município volta para o município. As singulares goianas de bandeira Sicoob, multiplicadas desde a livre admissão de 2003, viveram ali o seu teste de fogo (e saíram maiores).

A OCB/GO, a Casa do Cooperativismo Goiano, também cravou o seu recorde no ano do pânico. O braço educativo realizou 344 atividades, alcançou 46,6 mil beneficiados, e atendeu 143 cooperativas – os números mais altos da série histórica iniciada em 1999. Foram quase 900 pessoas capacitadas por semana, enquanto o mundo discutia pacotes de salvamento de governos e empresas. 

Crise é exatamente a hora de formar gestor. O setor aprendera isso a duras penas nos anos 1990 e não repetiria o erro de cortar primeiro a educação. O Brasil atravessou o segundo semestre em modo de emergência – câmbio disparando, Bolsa derretendo, o governo liberando compulsórios para irrigar o crédito. 

No campo goiano, a cana recém-chegada freou projetos e mais de uma usina anunciada ficou no papel. Mas, quando 2008 fechou, a lição estava colocada: na tempestade perfeita, o sistema que reparte o próprio resultado segurou a economia real, enquanto o sistema tradicional fugiu de cena para se proteger.

ANO 54 – 2009 – Ressaca da crise: a retração econômica

A conta da crise chegou em 2009, e o Brasil pagou com a primeira retração econômica em dezessete anos. O PIB encolheu 0,2%, as exportações murcharam e o crédito rural começou o ano andando de lado. Goiás sofreu menos que o País, pois a safra foi acima do esperado e a comida, ao contrário do automóvel ou eletrodoméstico, ninguém deixa de comprar.

O aperto alcançou a própria engrenagem do sistema: com a arrecadação pressionada, o braço educativo da Casa do Cooperativismo fez menos com menos, e as 344 atividades do ano recorde recuaram para 332, com 33,4 mil beneficiados. Apesar do primeiro recuo expressivo desde a fundação do SESCOOP/GO, a direção o administrou bem: priorizando turmas, segurando estrutura, sem desmontar nada do que custara uma década para erguer.

A década de serviços da Casa, aliás, completava-se ali. Dez anos separavam a instalação do SESCOOP/GO, em 28 de outubro de 1999 – duas atividades, 95 pessoas – do sistema que, mesmo em ano de vacas magras, capacitava 33 mil trabalhadores. A Câmara de Conciliação e Arbitragem, que funcionara no primeiro andar da sede desde 1998, encerrou as suas atividades em maio, fechando um ciclo de onze anos em que as cooperativas goianas tiveram foro próprio para suas disputas.

E, enquanto Goiás administrava a ressaca, duas sementes eram plantadas longe dali, ambas destinadas a fortalecer o calendário do setor anos depois. Em 17 de outubro, a organização das cooperativas mineiras (Ocemg) lançou o Dia de Cooperar, o Dia C: 139 cooperativas de Minas Gerais reunidas em um mutirão de ações sociais voluntárias, que transformava o sétimo princípio do cooperativismo – interesse pela comunidade – em evento de rua. A ideia correria o País, e o sistema goiano a adotaria em 2014. 

Em 18 de dezembro, a Assembleia Geral da ONU aprovou resolução declarando 2012 o Ano Internacional das Cooperativas. Pela primeira vez, as Nações Unidas dedicariam um ano inteiro ao modelo de negócio que atravessara a crise global sem precisar de resgate.

O simbolismo não passou despercebido aos dirigentes. No mesmo ano em que o capitalismo financeiro saía das UTIs dos bancos centrais, o mundo marcava data para celebrar a economia que se autofinanciava.

ANO 55 – 2010 – O último andar do edifício

O jogo virou em 2010. O Brasil cresceu 7,5%, ritmo digno da China, o melhor resultado em mais de duas décadas. E Goiás surfou na onda: o agro saiu da ressaca com safra cheia e preços recuperados, em um ano em que a própria Federação da Agricultura (Faeg) resumiria como “de recuperação”. Armazéns voltaram a encher, usinas de cana retomaram projetos engavetados em 2008 e o crédito cooperativo, que deu a mão às empresas na tempestade, colheu maior expansão com a fidelidade de quem não fugiu na crise.

Para o cooperativismo brasileiro, porém, 2010 ficaria marcado por uma obra institucional concluída longe das lavouras. Naquele ano, a partir da articulação das federações sindicais regionais, foi instituída a Confederação Nacional das Cooperativas (CNCOOP), entidade sindical patronal de grau máximo do sistema. Em uma analogia histórica, podemos dizer que o edifício erguera tijolo a tijolo ao longo de duas décadas ganhava o seu último andar: a cooperativa singular na base, as organizações estaduais transformadas em sindicatos e Goiás, que fora a primeira, em 1993, e as federações regionais no meio. 

A confederação ficaria no topo, porta-voz do cooperativismo patronal brasileiro. Havia tijolo goiano na fundação: entre as federações que sustentaram a nova confederação, estava a FECOOP CO-TO, nascida em Goiânia, em 2002, pelas mãos de Antônio Chavaglia.

Antônio Chavaglia

Dentro da Casa do Cooperativismo, os números confirmaram a retomada. O braço educativo subiu para 363 atividades e 37,4 mil beneficiados. Cravou um recorde que dizia muito sobre o método: 151 cooperativas atendidas, a maior capilaridade da história, um sinal de que o Programa de Visitas, rodando desde 2006, transformara relacionamento em resultados. 

O País, enquanto isso, elegia Dilma Rousseff para suceder Lula, e o cooperativismo goiano fechava a primeira década do século com um balanço que ninguém antecipou em 2000: lei estadual própria, sindicato, federação, confederação, marca nacional no crédito, jornal, escola permanente – e o mesmo timoneiro no leme desde 1996. Era uma estruturação que orgulhava gerações de dedicados dirigentes, diretores e cooperados.

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