Na última terça-feira, 30 de junho, o Banco Central divulgou as estatísticas fiscais de maio de 2026, e a grande mídia já reproduz o coro de sempre: a dívida disparou, é preciso cortar gastos. Os números merecem ser lidos com mais rigor e menos ideologia.
No acumulado de janeiro a maio de 2026, a dívida bruta do governo geral saltou de 78,6% para 81,1% do PIB, alta de 2,5 pontos percentuais (p.p.). A dívida líquida, por sua vez, subiu de 65,2% para 67,9% do PIB, +2,7 p.p. São números que assustam à primeira vista – mas a primeira falácia do mercado financeiro está exatamente em qual indicador escolher para alarmar a opinião pública.
Falácia 1: o indicador errado
A dívida bruta é, em qualquer manual de finanças corporativas ou públicas, um indicador parcial. O que mede solvência de fato é a dívida líquida, ativos menos passivos. Não por acaso, os primeiros governos do PT, beneficiados pelo boom de commodities, converteram dívida externa em crédito externo, acumulando reservas cambiais, hoje, próximas de US$ 380 bilhões. Essa troca foi viabilizada pelo aumento da dívida interna – e isso é, em termos econômicos, uma vitória, não uma derrota: o Brasil emite a sua própria moeda para pagar dívida interna; apenas os Estados Unidos têm esse privilégio em relação à dívida externa global. Trocar passivo em dólar por passivo em real é trocar vulnerabilidade por soberania monetária.
Falácia 2: o culpado é o gasto público
Resta entender por que a dívida interna cresceu 2,7% do PIB em apenas cinco meses. Os economistas neoliberais de plantão repetem que a causa é o déficit primário – e, a partir disso, cobram corte de gastos sociais e de investimento, nunca aumento de arrecadação. Os dados desmentem essa narrativa. Decompondo o crescimento da dívida no período: o déficit primário respondeu por apenas 0,2 p.p.; o pagamento de juros, por 3,5 p.p.; e, a variação cambial, por 0,9 p.p. – somando 4,6 p.p. de pressão altista. Do lado oposto, o crescimento do PIB reduziu a dívida em 1,8 p.p., e, ajustes de dívida externa, em 0,1 p.p., totalizando 1,9 p.p. de alívio. O saldo líquido: os 2,7 p.p. de alta observados.
Em termos relativos, o déficit primário explica apenas cerca de 7% do crescimento bruto da dívida, enquanto o crescimento do PIB foi responsável por reduzir o equivalente a 67% do efeito que faria a dívida explodir ainda mais. Os números são claros: quem está fazendo a dívida crescer não é o gasto público, é o custo da dívida – os juros pagos pelo Tesouro, fixados pela Selic praticada pelo Banco Central.
A conclusão incômoda para o mercado
A política monetária brasileira está atirando no próprio pé. Juros elevados encarecem o serviço da dívida e, ao mesmo tempo, sufocam o crescimento do PIB – justamente a variável que mais ajuda a reduzir a relação dívida/PIB. É um círculo vicioso: juro alto trava a economia, economia travada reduz o efeito redutor do crescimento sobre a dívida, e o estoque de juros continua se acumulando. Some-se a isso que taxas de juros altas elevam o custo de capital das empresas, repassado a preços – alimentando a própria inflação que a Selic elevada deveria combater.
A urgência, portanto, não é cortar investimento público ou política social. É revisar a condução da política monetária, hoje, o verdadeiro motor do crescimento da dívida brasileira.

Marcos Freitas,
sócio-Diretor Economista, Mestre em Finanças e Mestrando em Turismo. 34 anos de experiência no Setor de Turismo. Foi coo-fundador da WAM Negócios e coo-fundador da AMT Group














