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A dívida pública brasileira: 23 anos de evidência – Parte 2

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
julho 18, 2026
em Artigos
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A dívida pública brasileira: 23 anos de evidência – Parte 2

Imagem: Reprodução WEB

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No artigo anterior, analisamos os dados de maio de 2026: demonstramos que o déficit primário responde por apenas 7% do crescimento da dívida líquida no ano, enquanto os juros explicam 76%. Nesta segunda parte, ampliaremos o horizonte para 23 anos de dezembro de 2002 a maio de 2026, e a evidência é ainda mais demolidora para a narrativa do mercado financeiro. O período recortado refere-se ao primeiro mandato do PT até o atual mandado do PT. 

Ponto de partida: em setembro de 2002, no final do governo FHC, a dívida líquida do Brasil era de 59,5% do PIB. Em maio de 2026, ela está em 67,9% do PIB. Em 23 anos, o crescimento relativo foi de 14%, ou seja, 8,4 pontos percentuais do PIB. Um número que, isolado, é ruim para a economia, porém, o problema é o que ele esconde.

No mesmo período, a Selic acumulada em juros compostos foi de aproximadamente 1.158%, o IPCA acumulou 282%. Aplicando a fórmula de juros compostos, os juros reais pagos pelo Brasil entre 2003 a maio de 2026 chegam a 229%, ou seja, quem aplicou na Selic triplicou o seu poder real de compra. O PIB real, no mesmo período, cresceu apenas 65%. Descontado o crescimento econômico, o excesso de custo dos juros sobre o crescimento do PIB foi de 99%, em termos compostos.

Traduzindo em dívida: com uma relação média dívida/PIB de 70% no período, esse diferencial deveria ter empurrado a dívida líquida para perto de 129% do PIB (59,5% dívida em dezembro de 2002 mais 99% do diferencial entre juros reais e PIB multiplicado pelo percentual da dívida média no período em relação ao PIB 70%). 

Ela foi, em maio de 2026, de 67,9%. A diferença, em torno de 61 pontos percentuais do PIB que deveria ter sido acrescido na dívida com os 8,4 pontos que realmente cresceram, os 52,6 pontos foram absorvidos pelos fatores abaixo. 

Primeiro, os superávits primários: entre 2003 e 2025, o resultado primário acumulado foi positivo em aproximadamente 13,6 pontos percentuais do PIB, com média de +0,6% ao ano, puxado pelos governos Lula I e II, que mantiveram superávits médios de 2,4% e 2,0% do PIB, respectivamente. 

Em segundo, a estratégia de substituição de dívida externa por reservas cambiais: ao acumular hoje, cerca de US$ 380 bilhões em reservas, o Brasil transformou vulnerabilidade em soberania, melhorando estruturalmente a dívida líquida, gerando receita em dólares com resultados positivos na dívida interna.

A conclusão é inescapável: o Brasil gastou 23 anos pagando um dos juros reais mais altos do mundo, compensando esse custo com superávits primários expressivos e com uma gestão estratégica das reservas cambiais. A dívida, ainda assim, cresceu apenas 14% em termos relativos, 8,4 pontos percentuais sobre o PIB, não por milagre, mas por enorme esforço fiscal que a narrativa dominante convenientemente ignora.

A questão relevante não é como cortamos gastos. É por que um país que gerou superávit primário durante a maior parte de duas décadas ainda carrega um custo de juros que anula todo esse esforço? A resposta está na Selic e em quem se beneficia dela. É falácia do mercado financeiro alegar fragilidade dos governos do PT com a questão fiscal; ele esconde a sua ganância nessa tese, que não se comprova pelo histórico dos números.

Marcos Freitas,

sócio-Diretor Economista, Mestre em Finanças e Mestrando em Turismo. 34 anos de experiência no Setor de Turismo. Foi coo-fundador da WAM Negócios e coo-fundador da AMT Group

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