Rafael Vaz
O emprego formal desacelerou no Centro-Oeste em 2026, mas a retração não atingiu todas as cidades da mesma forma. Levantamento elaborado pela Inteligência STG, com dados do Novo Caged (Ministério do Trabalho e Emprego, MTE), da RAIS 2024 (MTE), das estimativas populacionais do IBGE (2026) e do IPCA (IBGE), mostra que as 49 cidades da região com 50 mil habitantes ou mais criaram 94.421 vagas com carteira assinada entre janeiro e agosto deste ano, 27% a menos que no mesmo período de 2025, quando o saldo chegou a 130.166 postos. Enquanto as capitais perderam força, municípios do interior ampliaram as contratações, impulsionados por diferentes atividades econômicas.
A desaceleração tem diferentes explicações. No comércio, a migração de trabalhadores para a informalidade, a perda do poder de compra das famílias e a concorrência das plataformas digitais ajudam a explicar a cautela das empresas na abertura de vagas. Para a superintendente executiva da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Goiânia, Hélia Gonçalves, parte da mudança no mercado de trabalho começou no período posterior à pandemia.
“O pós-pandemia teve uma grande migração de empregos formais para a informalidade. Teve o pessoal que foi para a Uber, a dona de casa que começou a produzir em casa. Muitas pessoas perceberam que existe a possibilidade de ter um sustento, uma geração de renda, sem precisar estar presa àquele emprego formal”, afirma Hélia. Segundo ela, parte desses trabalhadores se formalizou como microempreendedor individual (MEI), enquanto outros permanecem na informalidade.

A executiva também relaciona a redução das contratações ao enfraquecimento do consumo. “Quando a gente tem um cenário econômico que traz um achatamento da renda, com a inflação alta, o poder de compra fica reduzido. E as empresas estão vendendo menos”, diz. Nesse contexto, explica, os estabelecimentos precisam rever equipes e estruturas para manter a sustentabilidade dos negócios.
O presidente do Sistema Fecomércio/Sesc/Senac-GO, Marcelo Baiocchi Carneiro, acrescenta a pressão exercida pelo comércio eletrônico. Na avaliação dele, as lojas tradicionais enfrentam dificuldades para competir com plataformas digitais nacionais e internacionais, o que leva parte das empresas a reduzir contratações e até a fechar unidades.

Capitais perdem força, interior ganha espaço
Goiânia registrou a maior redução absoluta no saldo de empregos formais entre os municípios analisados. A capital passou de 19.679 vagas entre janeiro e agosto de 2025 para 6.741 no mesmo período de 2026, uma diferença de 12.938 postos e retração de aproximadamente 66%.
Em Aparecida de Goiânia, o saldo caiu de 3.413 para 438 vagas. Campo Grande também perdeu ritmo, passando de 7.570 para 3.772 postos. Brasília registrou redução de 4.003 vagas na comparação entre os dois períodos.
Para Baiocchi, o resultado de Goiânia está relacionado a um conjunto de dificuldades econômicas e competitivas. “Os fatores são os mesmos que eu acabei de relatar: economia ruim, desacelerada, um PIB que não expressa a realidade do comércio e a concorrência do comércio eletrônico”, afirma.
O dirigente avalia que a disputa com as plataformas digitais tem exigido mudanças nas operações das empresas. “É uma concorrência muito desleal com o comércio brasileiro, em especial aqui no Centro-Oeste”, diz. Segundo ele, diante desse cenário, estabelecimentos comerciais, principalmente do varejo, têm precisado se adaptar, contratando menos funcionários e fechando algumas filiais para sobreviver.
O movimento das capitais contrasta com o de municípios do interior que ampliaram a geração de empregos. Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, passou de 1.569 vagas entre janeiro e agosto de 2025 para 3.040 no mesmo intervalo de 2026, crescimento de 94%. Cuiabá avançou de 8.400 para 9.751 postos, enquanto Jataí, em Goiás, mais que dobrou o saldo, de 687 para 1.457 vagas.
Os números mostram que a desaceleração não atingiu todas as economias locais da mesma maneira. A estrutura produtiva, a demanda por serviços, a construção civil e a atividade industrial ajudam a explicar parte das diferenças, enquanto a sazonalidade da agropecuária também influencia os resultados de alguns municípios.
Cidades médias em destaque
Quando o saldo de empregos é comparado ao tamanho da população, municípios do interior ganham ainda mais destaque. Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, registrou 29,5 vagas formais líquidas por mil habitantes entre janeiro e agosto de 2026. Campo Novo do Parecis aparece em seguida, com 26,5, e Campo Verde, com 21,2. Três Lagoas ocupa a quarta posição, com 20,9 vagas por mil habitantes.
Goiânia registrou 4,5 vagas por mil habitantes, enquanto Campo Grande (MS) alcançou 3,9. O indicador permite comparar a intensidade da geração de empregos em municípios de diferentes portes, sem considerar apenas o volume absoluto de contratações.
Os resultados, porém, precisam ser interpretados considerando as características de cada mercado de trabalho. Em cidades com forte presença agropecuária, contratações sazonais podem elevar o saldo em determinados períodos, sem garantir que o ritmo seja mantido até o fim do ano. Por essa razão, Cristalina, em Goiás, apesar de registrar 70,9 vagas por mil habitantes, deve ser analisada separadamente: 93% do saldo municipal está associado ao trabalho sazonal na agricultura.










Serviços na liderança
Os serviços responderam pela maior parte das vagas formais criadas nas 49 cidades analisadas. Foram 56.852 postos, aproximadamente 60% do saldo total. A construção civil ficou em segundo lugar, com 14.506 vagas, seguida pela indústria, com 11.141, e pela agropecuária, com 9.080. O comércio registrou 2.536 postos, cerca de 3% do resultado agregado.
A composição mostra que o desempenho regional não depende de uma única atividade econômica. A expansão dos serviços, as obras de infraestrutura, a indústria e as cadeias ligadas ao agronegócio contribuem de maneiras distintas para o mercado de trabalho de cada município.
Em Três Lagoas, serviços e construção responderam juntos por 84% do saldo local. Em Cuiabá, os serviços geraram 7.463 vagas e a construção, 1.614. Rio Verde registrou 1.863 postos em serviços e 677 na construção, enquanto Anápolis teve saldo de 1.731 vagas em serviços e 1.411 na indústria.
Em Goiânia, os serviços responderam por 3.710 vagas e, a construção, por 2.303. Apesar desses resultados, a capital teve forte redução no saldo total em comparação com 2025.
Consumo menor e mudança de hábitos pressionam o comércio
A participação reduzida do comércio no saldo regional ocorre em um cenário de transformação dos hábitos de compra. Para Baiocchi, a redução das contratações não significa necessariamente que os consumidores tenham deixado de comprar, mas que passaram a procurar alternativas mais baratas.
“A desaceleração das contratações não indica um enfraquecimento do consumo; indica uma mudança de hábito do consumo. O consumidor está indo para um produto mais barato. Ele busca um produto que tem a mesma entrega, mas não tem nome de referência, e consegue adquirir algo que oferece a mesma utilidade por um preço bem mais acessível”, afirma.
O dirigente também destaca a expansão das compras pela internet. Segundo ele, a presença das plataformas digitais já é perceptível no cotidiano, inclusive pelo volume de encomendas recebidas em condomínios. A instalação de centros de distribuição de grandes empresas em Goiás também demonstra a dimensão alcançada por esse mercado.
Para Hélia, entretanto, o poder de compra continua sendo uma questão central para a atividade econômica. A superintendente da CDL defende que o desafio de Goiás não se limite à criação de vagas, mas envolva a transformação do crescimento econômico em oportunidades sustentáveis, renda e mobilidade social.
“Eu acredito fortemente que a gente tem um desafio econômico, mas não é só pensar na geração de emprego, e sim transformar todo esse crescimento econômico em uma oportunidade sustentável”, afirma.
Na avaliação da executiva, a redução da inadimplência é um dos caminhos para recuperar a capacidade de consumo. A CDL realizava anualmente campanhas de recuperação de crédito, mas não promoveu a iniciativa em 2026, diante das condições do cenário econômico e da priorização de outras ações comerciais. A entidade prevê retomar a campanha em 2027.
Salários de admissão revelam diferenças regionais
As diferenças entre os mercados de trabalho também aparecem na remuneração oferecida aos novos contratados. Campo Novo do Parecis registrou salário médio de admissão de R$ 2.629, com aumento de 9,8%. Sorriso chegou a R$ 2.491, enquanto Brasília registrou R$ 2.463.
Em Três Lagoas, o salário médio de admissão foi de R$ 2.408, com crescimento de 11,1%. Sinop alcançou R$ 2.381, e Lucas do Rio Verde, R$ 2.376.
Goiânia apresentou salário médio de admissão de R$ 2.136, abaixo do registrado em 20 municípios do interior considerados no levantamento. Entre os menores valores estão os de Inhumas, Santo Antônio do Descoberto, Cidade Ocidental e Valparaíso de Goiás, todos inferiores a R$ 1.850.
Os valores se referem ao salário médio dos trabalhadores admitidos no período, e não à remuneração de todos os empregados de cada município. O indicador é influenciado pelo perfil das vagas abertas, pelos setores que mais contratam e pelas exigências de experiência e qualificação.
No Entorno do Distrito Federal, municípios como Valparaíso de Goiás e Novo Gama ampliaram a geração de vagas, mas mantiveram remunerações de admissão mais baixas. Em polos do agronegócio mato-grossense, como Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde, os salários de entrada foram superiores.
Contratações temporárias
A proximidade da Black Friday e do Natal pode aumentar a demanda por trabalhadores no comércio e nos serviços. Hélia Gonçalves afirma que as empresas já começaram a se movimentar para o período, embora continuem enfrentando dificuldades para preencher as vagas.
“São datas extremamente importantes para o comércio. A Black Friday vem se consolidando no Brasil como um período de bastante movimentação, e o Natal é a principal data do comércio”, afirma a superintendente. O aumento das vendas, prossegue, pode abrir oportunidades para trabalhadores temporários, mas a dificuldade de encontrar profissionais continua sendo um obstáculo.
“Nós temos um descompasso entre a quantidade de vagas em aberto e a quantidade de candidatos para essas vagas. Ainda é um desafio”, diz Hélia. A expectativa é que as empresas precisem reforçar as equipes para atender à demanda do período.

Baiocchi também espera contratações temporárias no fim do ano, mas considera menos provável que essas oportunidades se transformem em empregos permanentes na mesma proporção observada em outros anos.
“Fora o Natal, a expectativa é que não haja um grande movimento de contratações e que permaneçam esses índices baixos”, afirma.
Uma projeção nacional da CNDL e do SPC Brasil, realizada com a OfferWise, estima aproximadamente 130 mil vagas temporárias e permanentes no comércio e nos serviços até dezembro. A estimativa é nacional e não representa uma previsão específica para Goiás.













