Há anos que se medem pelo calendário e há anos que se medem pelo placar. O ano de 2026 foi pelo segundo modelo. Tivemos Copa do Mundo, e alguém ganhou, alguém perdeu. Tivemos eleição, e alguém ganhou, alguém perdeu. Tivemos a reforma tributária saindo do papel e entrando na rotina das empresas, e mais uma vez alguém ganhou, alguém perdeu. Foram três disputas de naturezas muito diferentes, vividas pela mesma cabeça, na mesma tela e no mesmo tom.
O problema não está no calendário, mas no que ele fez com o nosso modo de pensar. Passamos a absorver tudo o que chega pela tecnologia como se fosse rodada de campeonato, seja de ideias, de vendas, de tributos ou de leis.
Cada tema vira jogo, cada opinião vira camisa e cada conversa vira arquibancada. E torcedor não reflete, torce.
No futebol isso é legítimo, e a Copa existe justamente para isso. O risco começa quando levamos a lógica da torcida para todo o resto. Viramos torcedores de política, de alíquota, de modelo de negócio. Tratamos como tema de guerrilha aquilo que exige amadurecimento.
O resultado vai além da discordância, que é saudável. O que se vê é o enraizamento de ideias negativas, cristalizadas a ponto de impedir a própria reflexão. Quem escolhe o lado antes de entender o tema não está pensando, está defendendo território.
O efeito colateral custa caro. Os bons pensadores e os especialistas, gente que dedicou duas, três, quatro décadas a um assunto, foram empurrados para o terceiro, o quarto, o quinto plano.
Hoje quem pensa um tema há trinta anos tem menos espaço do que quem pensou nele há duas horas. Tem menos espaço, inclusive, do que quem recebeu um roteiro pronto de um produtor de conteúdo e, com dez minutos descobrindo e debruçando sua “inteligência” na pauta e dez mil seguidores, viraliza para o mundo inteiro.
O PhD, depreciado e muitas vezes usado para validar ideia de néscios das redes sociais, aquele que busca soluções viáveis – e testou por anos centenas de caminhos –, perde para quem busca reação, audiência. Informação não falta. O que mudou foi o lugar da autoridade. A carroça puxa o burro.
Para quem empreende, essa é uma questão de gestão. Decisões sobre investimento, crédito, tributos e pessoas estão sendo tomadas sob a influência desse barulho. E decisão tomada no calor da arquibancada costuma sair cara quando a conta chega. A conta da reforma tributária, por exemplo, vai chegar com hora marcada, independentemente de quem torcia para quem.
O que o momento pede, parar, respirar e adotar um olhar clínico sobre o que atinge pelas telas. Separar sintoma de causa, ruído de sinal, palpite de diagnóstico. Estar de branco no ‘card’, falar que é médico e têm solução para sua dor é diferente de cura. Estar de gravata no ‘post’, falar que é advogado e que vai fazer seu problema tributário ou com atraso em empréstimo não te entrega soluções gerais.
Se sua saúde ou a ‘saúde’ financeira da sua empresa piorar vai ligar no Instagram do influenciador superespecialista e bom de prosa para ele vir te ajudar? Lembra, ele vive de escala e você já foi, pagou. Ele nem lembra de você.
Devolva ao especialista real o lugar que ele nunca deveria ter perdido. E lembrar que os temas que definem o futuro de uma empresa e de uma região não têm placar no domingo, têm consequência por décadas.
A Copa acabou. A eleição acabou. O campeonato de tudo continua, e cabe a nós decidir se vamos seguir na arquibancada ou voltar a pensar.
LEANDRO RESENDE, editor-chefe
Linkedin: leresende














