Leandro Resende
ANO 56 – 2011 – Noventa dias que mudaram a casa
Entre o fim de março e o final de junho de 2011, a Casa do Cooperativismo Goiano viveu uma das maiores sequências de mudanças de sua história – e nenhuma delas foi improviso. Em 30 de março, as urnas internas encerraram a era mais longa da entidade: depois de quinze anos ininterruptos, Antonio Chavaglia passou o comando a Haroldo Max de Sousa, presidente da Centroleite – a central dos laticínios goianos – e da Coapro, de Orizona. Era a primeira vez que o Sistema escolhia um nome do ramo leiteiro para a cadeira principal do setor.
Em 29 de abril, a despedida e a posse dividiram a mesma solenidade. Diante de duzentos convidados, do então governador Marconi Perillo, do presidente da OCB Nacional, Márcio Lopes de Freitas, de deputados e dirigentes, a entidade inaugurou a ampliação de sua sede no Jardim Goiás: um prédio de 2,3 mil metros quadrados, com três salas de treinamento conversíveis em auditório para trezentas pessoas.
A sede que capacitava dezenas de milhares por ano finalmente tinha onde recebê-los, suprindo o que o próprio Chavaglia chamou de “carência antiga”. A solenidade teve o sabor de balanço de era: o presidente que saía foi homenageado com um retrato pintado por Amaury Menezes, e Antônio Carlos Borges, seu eterno par de chapa, presidente da entidade nos anos 1990 e agora à frente da Agrovale, também recebeu seu tributo, encerrando o longo capítulo que os dois escreveram juntos. Chavaglia, fiel ao estilo, usou o discurso de despedida para cobrar do governador a efetivação do Cecoop, o conselho criado pela lei estadual de 2005 que seguia no papel. Ele saía da presidência, mas não das batalhas.
A terceira virada veio em 26 de junho: o Plano de Cargos, Carreiras e Salários elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, resposta técnica ao turnover que chegara a corroer os quadros da instituição. Comando novo, endereço ampliado, regime de carreira – foram noventa dias que profissionalizaram a casa por dentro e por fora.
Em novembro, mais uma estreia: o programa de rádio Goiás Cooperativo, dois minutos de conteúdo estratégico enviados a mais de vinte emissoras do interior. E, no plano nacional, a confederação do sistema ganhou seu registro sindical no Ministério do Trabalho, completando formalmente a estrutura de representação do setor.
O braço educativo coroou o ano com 391 atividades e 41,4 mil beneficiados, enquanto o Estado somava cerca de 157 mil cooperados – número que ninguém imaginava estar prestes a quadruplicar na década seguinte. O Brasil de Dilma Rousseff, recém-empossada, crescia 4% com inflação encostada no teto da meta e juros subindo; em Goiás, Marconi Perillo voltava ao Palácio das Esmeraldas e o campo, recuperado da ressaca de 2009, emendava mais uma safra forte, com a soja e o milho sustentando recordes de exportação. Era um ambiente generoso para começar um mandato.
ANO 57 – 2012 – O ano em que o mundo olhou para cá
Pela primeira vez na história, as Nações Unidas dedicaram um ano inteiro a um modelo de negócio – e era o cooperativismo. O Ano Internacional das Cooperativas, decretado pela resolução de 2009, transformou 2012 numa vitrine global: o mundo que ainda se recuperava da crise financeira queria entender a economia que atravessara a tempestade com destaque.
Em Goiânia, o Sistema OCB/SESCOOP-GO celebrou à sua maneira – uma feira de cooperativas coroada por show de Almir Sater – e aproveitou o holofote para renovar a própria marca, revitalizada naquele ano sobre o planeta e os pinheiros que vinham desde a OCEG.
Mas a contribuição goiana mais duradoura ao ano internacional foi um retrato. O Censo do Cooperativismo Goiano 2012, herdeiro direto do Programa de Visitas criado em 2006, radiografou o Sistema com precisão inédita: 219 cooperativas em onze ramos, 169,8 mil cooperados – alta de 7% em um ano –, 8,9 mil empregados e ingressos de R$ 5,92 bilhões, 13% acima de 2011.
A série histórica embutida no documento contava a história recente melhor que qualquer discurso: desde 2008, o ano da crise global, a receita saltara de R$ 3,53 bilhões para R$ 5,92 bilhões, o capital social crescera 171% e o número de empregados com ensino superior dobrara.
O sistema cooperativista não apenas atravessara a crise, mas se expandiu durante a tempestade que quebrou empresas e fez encolher setores consolidados. O agropecuário respondia por 68% da receita, seguido pela saúde (18,6%) e pelo crédito (9,7%); Goiânia liderava em número de cooperativas, com 61, e Rio Verde, sede da Comigo, concentrava sozinha 65 mil cooperados – mais de um terço do Estado.
No ranking nacional, Goiás ocupava a décima posição em cooperativas e cooperados e a sexta em empregados. E o censo registrava até a “respiração” do Sistema: 12 cooperativas registradas e 14 canceladas no ano, sinal de que o movimento também sabia depurar registros (foco na eficiência e competência).
O ano internacional também abriu fronteiras: dirigentes goianos visitaram a Universidade de Missouri, nos Estados Unidos, e o sistema Desjardins, no Canadá – a maior rede cooperativa financeira das Américas. A viagem renderia fruto concreto: no ano seguinte, os participantes criariam uma cooperativa para unir compras e volume de negócios, intercooperação aprendida na prática.
O contraste com a conjuntura dava relevo aos números. O Brasil de 2012 cresceu magros 1,9%, mesmo com a Selic derrubada à mínima histórica de 7,25% – o experimento desenvolvimentista que logo cobraria seu preço; a seca castigou lavouras e pastagens no interior goiano; o mundo discutia se o euro sobreviveria à derrocada da Grécia. E o cooperativismo goiano, de novo, andou na contramão, com mais gente, mais receita, mais capital e a intercooperação saindo de 46% para 51% das cooperativas em um ano. Não era dado de discurso, mas o próprio censo setorial.

ANO 58 – 2013 – O Brasil vai às ruas e o cooperativismo amplia eficiência
Junho de 2013 jogou o Brasil nas ruas. O que começou como protesto contra vinte centavos na tarifa de ônibus virou a maior onda de manifestações em uma geração, com milhões de pessoas cobrando serviços públicos, ética e eficiência – Goiânia incluída. O País descobria, no grito, que crescimento sem gestão não se sustenta. Era uma lição que a OCB/GO, a Casa do Cooperativismo Goiano, vinha aprendendo sem alarde, por outro caminho.
O Sistema OCB/SESCOOP-GO adotou, em julho de 2013, integralmente o Plano de Cargos, Carreiras e Salários desenhado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). A história por trás do documento explicava sua urgência: a rotatividade de pessoal da entidade chegara a níveis que comprometiam a memória institucional – a ponto de a Controladoria-Geral da União recomendar medidas saneadoras.
O plano trouxe trilhas de carreira, critérios objetivos de progressão e a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais. O efeito foi imediato e mensurável: depois de implantado, nenhum pedido de demissão.
A superintendente Valéria Mendes da Silva, na casa desde a instalação do SESCOOP, resumiria o espírito: “Não se constrói sistema de formação com formadores de passagem.”
O ano também colheu o fruto plantado no exterior: os dirigentes que haviam visitado Missouri e o Desjardins em 2012 criaram sua cooperativa, unindo volume de compras e poder de negociação das associadas – a união, avaliaria o próprio Sistema, fortaleceu o volume de negócios e tornou as participantes mais competitivas. Intercooperação saindo do manual para o CNPJ.
O braço educativo, por sua vez, manteve o ritmo com 551 atividades e 34,8 mil beneficiados – e cravou, com quase oito mil horas de capacitação, seu recorde de carga horária até então, sinal de cursos mais longos e densos, menos palestra e mais formação. O faturamento seguiu em alta moderada: o agropecuário alcançou R$ 4,47 bilhões, crescimento de 10,6%, com o crédito estável e a saúde avançando 9%, rumo a R$ 1,2 bilhão, o ramo que gradativamente mais se agigantava.
A economia nacional, porém, mudava de estação. O superciclo das commodities dava sinais claros de esgotamento, a inflação resistia a juros novamente em alta, e o investimento minguava: o Brasil cresceu 3% que já carregavam o peso do fôlego curto, e as agências de risco começavam a apontar o dedo para as contas públicas.
No campo goiano, a conta dos insumos subia mais rápido que a soja, espremendo margens que a bonança recente fizera parecer garantidas. Para o cooperativismo, o recado de 2013 (das ruas e dos balanços) era o mesmo: a década seguinte não perdoaria amadorismo. A entidade representativa do cooperativismo goiano, ao menos, entrava nela com carreiras estruturadas, gente estável e processos no lugar.















