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Início Agronegócio

Futuro do agro: produtor, indústria e capital

Evolução do agronegócio está na conexão entre cadeia integrada e economicamente fortalecida

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
outubro 18, 2026
em Agronegócio
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Futuro do agro: produtor, indústria e capital
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Rafael Mesquita

No próximo salto do agronegócio, a vantagem competitiva poderá estar menos na capacidade de produzir e mais na de transformar produção em margem, margem em caixa e caixa em crescimento.

Essa mudança de perspectiva apareceu com força nas discussões do Global Agribusiness Festival (GAFFFF) 2026, considerado o maior festival de cultura agro do mundo. 

Crédito, tecnologia, sustentabilidade, governança, inteligência artificial, mercado de capitais e Reforma Tributária parecem assuntos diferentes. Na prática, todos estão convergindo para uma mesma questão. “Uma cadeia integrada e economicamente fortalecida terá mais capacidade de crescimento e competitividade” avalia Murilo Résio, sócio da consultoria tributária e financeira Bergacorp.

Produzir mais e com maior produtividade não significa necessariamente ganhar mais. “Estamos vendo isso na prática, produtores colhendo volumes históricos, mas o dinheiro que ficou é insuficiente para quitar empréstimos, resultando em recuperações judiciais, antecipações de vencimentos de Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais), CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e falta de liquidez”, acredita Résio. 

Segundo ele, a projeção da OCDE-FAO (cooperação estratégica entre a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) de que 83% do crescimento da produção agrícola mundial na próxima década virá de ganhos de produtividade mostra uma perspectiva da demanda pelo mercado. “Produtividade, sozinha, não paga dívida, não remunera capital e não financia a próxima expansão”, afirma.

O Plano Safra 2026/27 disponibilizou R$ 525,1 bilhões para a agricultura. O volume impressiona, mas o dinheiro disponível no sistema financeiro não significa disponível para qualquer produtor.

Aquele com boa infraestrutura econômica está melhor preparado para tomar crédito, negociar e decidir com mais precisão quando vale a pena crescer. Essa preparação ganha ainda mais importância quando se observa o aumento da inadimplência rural. Dados recentes da Serasa Experian apontam uma inadimplência rural de 8,8% no primeiro trimestre de 2026, alta de 1,2% na comparação com o mesmo período de 2025. 

A infraestrutura econômica do produtor também é um problema da agroindústria. Ele pode investir milhões em automação, logística, energia, tecnologia e capacidade industrial. “Se os produtores enfrentam dificuldade de financiamento, aumentam sua alavancagem (uso de capital de terceiros como financiamentos, debêntures, CRAs ou empréstimos bancários para obter lucro), reduzem investimentos, diminuem produtividade ou deixam de adotar determinadas tecnologias”, explica Résio.  Segundo ele, a consequência aparece no custo industrial, na regularidade do fornecimento de matérias-primas, no custo de capital, na negociação de preços e no risco de ruptura da cadeia.

De acordo com Murilo, não se trata de a indústria assumir o papel do banco, mas sim de compreender que uma cadeia economicamente frágil dificilmente produzirá uma indústria estruturalmente competitiva. “Um produtor economicamente desorganizado, afasta-se de oportunidades do mercado de capitais e das instituições financeiras, exercendo pressão e aumentando o risco para a indústria”, avalia. 

Assim, nesse ciclo do agronegócio, a pergunta mais importante não é quanto será possível produzir, mas sim o valor que será possível extrair de cada unidade produzida. 

MURILO RÉSIO, sócio da consultoria tributária e financeira Bergacorp

Alternativas

Segundo Résio, é necessário fazer essas três visões conversarem (produtor, indústria e capital) de forma integrada, o que não exige que ninguém assuma o papel do outro. Para isso, cada um deve fazer o que sabe de melhor sobre uma base comum. 

O primeiro passo seria dar ao produtor uma infraestrutura econômica sólida. “A indústria tem um papel fundamental neste processo oferecendo estabilidade na relação comercial, compreendendo que a saúde econômica de sua base de fornecedores lhe faz enxergar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos seus próprios números”, destaca.

Neste ecossistema integrado de forma harmônica o produtor passa a ser melhor compreendido pelo capital. “Ele começa a demonstrar geração de caixa, capacidade de pagamento, estrutura de custos, exposição a preços, endividamento, garantias, produtividade, contratos e capacidade de execução”, avalia. 

Se antes a visão era focada no patrimonial, o novo ecossistema muda a relação com os bancos e o mercado de capitais, abrindo diversas oportunidades de operações. Segundo o sócio da Bergacorp, a integração desses três elos fortalece a cadeia proporcionando maior competitividade no coletivo e melhor rentabilidade no individual. Ainda de acordo com ele, no final, o valor dessa cadeia integrada é maior que a soma do valor individual de cada um de seus elos.

O agronegócio estaria disposto a apoiar a reindustrialização do Brasil para agregar mais valor à produção e não exportar basicamente commodities? Depende das circunstâncias. Ele cita o anúncio feito pela Comigo (Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano) sobre a estratégia de intensificar a industrialização para agregar valor à produção dos cooperados e reduzir a dependência da venda direta de commodities como medida para enfrentar a volatilidade do mercado do agronegócio. 

Mas, Résio faz ressalvas. “Vemos o movimento da industrialização e agregação de valor já acontecendo no agronegócio. Há uma maior disposição do agro em apoiar a industrialização quando ela aumenta margem e não quando é imposta como política”, defende. 

Nesse caso, ele cita o processamento de milho e esmagamento de soja próximo às lavouras para produção de biocombustíveis, proteína animal, açúcar e celulose. “Aqui, o produtor e as cooperativas investem, porque o ganho é visível. O agro tende a participar quando consegue capturar a margem da transformação e não só vender a matéria-prima”, afirma. Segundo o sócio da Bergacorp, medidas que encarecem a exportação “in natura” como: tributar ou restringir a exportação para forçar a industrialização tendem a ser vistas como transferência de renda do produtor para a indústria e o setor pode ser mais resistente.

Festival Agro

O maior festival de cultura agro do mundo foi realizado nos dias 1 e 2 de outubro de 2026, em São Paulo. O GAFFFF combina debates estratégicos do agronegócio com feira de negócios, gastronomia, música e entretenimento para aproximar o campo e a cidade.

O Global Agribusiness Festival reuniu no Nubank Parque cerca de 30 mil participantes, com mais de 100 palestrantes e seis palcos simultâneos (divididos entre Fórum e Universo Agro). A programação incluiu: painéis de conteúdo,  feira de negócios e grandes atrações. Sustentabilidade, transição energética, inteligência artificial no campo, mercado de capitais para o agro e competitividade internacional estiveram entre os principais temas discutidos durante o evento. 

Assim como neste ano, uma edição regional do Festival está marcada para acontecer entre os dias 28 e 31 de julho de 2027, no Parque Tecnológico Luiz Giroletti, em Sorriso, no Mato Grosso. 

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