Ano 50 – 2005 – Meio século e desafiando uma nova crise
Leandro Resende
O ano de 2005 pegou o campo goiano no contrapé. Depois do crescimento de 5,7% de 2004, a maré virou: o real se valorizou, a soja despencou quase um terço no mercado internacional e a conta dos insumos pesou justamente quando a receita tombou. Começava a crise de renda que o agro arrastaria por duas safras, enquanto Brasília mergulhava no escândalo do mensalão. Ou seja, quando a política entrou no foco e a economia foi para segundo plano.
No entanto, para as cooperativas, criadas para que seus membros possam atravessar e superar tempestades, era hora de reforçar a união e pensar soluções.
A primeira resposta veio do Palácio das Esmeraldas. Em 2 de fevereiro de 2005, o então governador Marconi Perillo sancionou a Política Estadual de Cooperativismo – a Lei nº 15.109, nascida de projeto que a própria OCB/GO elaborou e entregou ao Governo em 2004, com relatoria do deputado Paulo Garcia.
A nova lei liquidava uma dívida de duas décadas: nos anos 1980, o ex-presidente da entidade Adilon Antônio de Souza, então deputado estadual, tentara emplacar, sem sucesso, a primeira legislação goiana do setor. A lei de 2005 criou o Conselho Estadual de Cooperativismo, o Cecoop, empossado naquele mesmo ano – ainda que sua efetividade prática, por não ter poder de lei, ficasse aquém do planejado pelo setor.
A segunda resposta foi organizacional. A partir de 2005, OCB/GO e SESCOOP/GO, que dividiam o teto desde o final dos anos 1990 com comandos distintos, passaram a operar unificados, com um único presidente e um único superintendente. Nesse mesmo movimento de integração, nasceu o Departamento de Comunicação, com site, informativo eletrônico e jornal, quinze anos após o Jornal das Cooperativas sair de circulação.
O braço de formação da OCB/GO não desacelerou na crise: 297 atividades, 37,8 mil beneficiados, 94 cooperativas atendidas e 100% da meta do planejamento anual cumprida, enquanto a FECOOP CO-TO, com o código sindical autorizado, começava a operar oficialmente.
O ramo crédito coroou o ano com dupla graduação: o primeiro MBA em Gestão Financeira para Cooperativas de Crédito do Estado de Goiás, ministrado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria da OCB/GO com a CrediGoiás Central e a Unicred; e, em 24 de novembro, a adesão da central goiana – nascida Cocecrer-GO em 1989, rebatizada CrediGoiás em 1995 – à marca Sicoob.
Novamente, em um ano em que o produtor via a renda minguar, o setor cooperativista entregava uma lei estadual histórica, estrutura enxuta e uma marca forte. Quando a crise passasse, o sistema estaria maior do que ela.
ANO 51 – 2006 – Comunicação e integração em alta no cooperativismo
Goiás Cooperativo, ano I, número 1, estampava na capa a manchete “Saldo positivo em 2005” e, no canto, um selo comemorativo: OCB/GO, 50 anos. Em sua estreia, o impresso – primeiro fruto visível do Departamento de Comunicação criado no ano anterior – resumia uma fotografia do momento. Apesar da crise que se abatera sobre a agricultura brasileira, o balanço do Conselho de Administração registrava saldo positivo e conquistas, seja no Legislativo, nas ações sindicais ou na confirmação de um SESCOOP/GO que cumpria sua missão e mostrava forte sinergia com o sistema.

Mas a crise econômica mostrou em 2006 a sua cara mais dura. A taxa de câmbio seguia esmagando quem vendia em dólar (a soja não reagia) e o endividamento rural virou um longo imbróglio, chegando a provocar caravana de tratores nas rodovias e produtores marchando sobre Brasília. Cenas que o setor queria esquecer, mas que repetiam as tensões da década anterior (do ano de 1987, por exemplo, quando a entidade levara cinco mil goianos ao Distrito Federal).
Foi nesse ambiente que a OCB/GO inverteu o fluxo: em vez de esperar a cooperativa procurar a sede, a sede iria à cooperativa. Em 1º de fevereiro de 2006, nasceu o Programa de Visitas, sistemática permanente de coleta de informações sociais e econômicas das 193 filiadas de onze segmentos. “Quantos cooperados?”, “quantos empregos?”, “quais desafios e planos?” eram perguntas que passavam a ter documento e projeto organizado. Era uma escuta organizada em ano de aflição. Os números do braço educativo mostravam o alcance da rede: 39,5 mil beneficiados e 113 cooperativas atendidas, recorde até então.
O Cooperjovem, programa que levava o cooperativismo às salas de aula, já alcançava cerca de mil crianças do ensino fundamental, com apoio de Comigo, Credirural-Comigo e Cooperbelgo (e até ramos mais jovens do setor davam notícia, como é o caso da Coopmego, cooperativa dos motociclistas de Goiás, fundada em 2001, que crescia a dois dígitos).
Havia um grande simbolismo na coincidência. Em 2 de outubro de 2006, a entidade completou cinquenta anos – meio século separava o Programa de Visitas da assembleia de 1956 em que doze homens, liderados por José de Assis Moraes, fundaram a UCEG para unir cooperativas que pouco se conheciam. A organização chegava ao jubileu fazendo, com métodos novos, exatamente o que nascera para fazer: costurar, uma a uma, as pontas do cooperativismo goiano.
No cenário nacional, o País reelegia Lula em um segundo turno tenso. E os mais atentos notaram um movimento novo no horizonte: usinas sondando terras, técnicos medindo pastagens, o álcool voltando à conversa dos carros flex.
ANO 52 – 2007
Cana se fortalece e entra em debate no setor
Em 30 de março de 2007, as cooperativas goianas foram às urnas internas e deram a Antonio Chavaglia o seu quarto mandato consecutivo – e o quinto somando o primeiro ciclo, iniciado em 1990. O produtor de Rio Verde que acumulava duas décadas à frente da Comigo tornava-se, em tempo de serviço, o dirigente mais longevo da história da entidade.
A recondução tinha uma lógica muito alinhada com a realidade econômica: a OCB/GO que Chavaglia comandava desde 1996 atravessou crise cambial, virada de milênio, refundação sindical e crise de renda do agronegócio e agora encarava um desafio gigante, que avançava literalmente pela porteira dos seus cooperados.

A fronteira era a cana. Empurrada pelo sucesso no Brasil dos carros flex e pela sede mundial de combustível limpo, a agroindústria sucroalcooleira descobriu o Cerrado goiano: em 2007, grandes grupos anunciaram usinas no Estado, a Cosan iniciava seu projeto em Jataí, coração da soja, e canaviais começaram a tomar pastagens e a disputar terra com o grão.
Para o cooperativismo agropecuário, o dilema era novo e concreto: o arrendamento à usina pagava bem e seduzia o cooperado descapitalizado por duas safras ruins, mas cada hectare convertido era produção que deixava de passar pelo armazém da cooperativa. Nas assembleias das cooperativas da região sudoeste, a palavra “cana” dividia opiniões como poucos assuntos faziam.
A economia nacional, ao menos, voltava a ajudar. O governo lançou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em janeiro, as commodities iniciaram recuperação vigorosa puxadas pela demanda chinesa e a renda do campo começou a sair do vermelho – a soja goiana fechou o ano valendo bem mais que na abertura.
A OCB/GO colheu a virada com a estrutura montada nos anos magros: comando unificado, jornal próprio em circulação, crédito de bandeira Sicoob em franca expansão e o Programa de Visitas ouvindo na base o cooperado e a cooperativa. Na parte de formação, o novo fôlego da economia cravou resultou no melhor ano até então: 318 atividades, 43,7 mil beneficiados e 119 cooperativas atendidas. Era um sinal de que, passada a tormenta, as associadas voltavam a investir em gente.














