O dia de hoje, sábado, 3 de outubro, é voltado para reflexões sobre o futuro do País, do Estado e do Legislativo. Mas faço uma longa autoanálise neste contexto, de escolher, de quando e por que voto neste ou naquele. Penso, penso, penso. Antes de declarar meu voto, eu abro com uma primeira validação sobre o processo. O mais lamentável deste pleito é a frieza que este evento causou no País durante todos os magros meses de campanha. Se a pobreza já é o que se esperava, no caso de conteúdo e propostas, a frieza foi o que mais me surpreendeu.
Eu voto e tento fazê-lo com empolgação (mas é cada vez menor, fato). Olho ao redor e vejo que meu desânimo é morno com o cenário político (que não é só político, está mais para policial ou judicial). Se olhar para a geral, é uma geladeira sem tamanho. O pior é que esse inverno rigoroso é proposital, interessa muito aos fracos políticos. Se a eleição esquenta, eles terão de sair do casulo, falar, pedir, comprar, argumentar, prometer, compromissar, acordar cedo…
Até as promessas mentirosas de campanhas foram embora neste nevoeiro medíocre que a política se tornou.
O voto, os números para votar, a fila, gente que eu não via faz tempo, a urna, pegar o título (agora, no celular) eram atos altamente simbólicos. Hoje, nem o frio na barriga de procurar o título de papel, na véspera, tem mais. Até isso perdeu a emoção – está no app.
Um aparte stand up necessário para outro tipo de reflexão e que também o texto precisa ter para não parecer inteligência artificial. (A vida digital é friorenta por natureza – nela, todos são quase bonitos via filtro; quase alegres, ativos e ricos via cortes; quase inteligentes via IA. Quase porque todos são tão igualmente falsos que acaba que todos são cegos em terra que ninguém vê nada. Enfim, a vida digital é o espelho do que poderíamos ser e não somos no doze – o “12” não é dica de voto, é uma expressão das gerações anos 2000. Não entendeu? Consulte aí um quarentão – opa, também não é indicação subliminar de voto nem piada. Nem sei quem tem esses números. Google ativo… vi aqui quais são os dois partidos, do 12 e do 40. Não são os que vou votar nem indico ou desindico. Só para desencargo ou descarrego de consciência). Uma dica à revisora: deixa desse jeito mesmo, com parênteses. Se quiser, coloca trecho itálico e avisa ao diagramador. E deixa a dica também – e não precisa me consultar sobre isso (neste horário vou estar, sério, na distribuidora jogando conversa fora e fazendo uma pesquisa pré-eleitoral). Então, faça do seu jeito.
Voltando ao tema. O voto era, na minha vida pacata, uma das poucas partes interessantes da política, o momento em que o agente eleitor era vivo, visto e se realizava. Era como o consumidor que sai para ir comprar algo que ele ‘juntou’ dinheiro para um dia poder comprar. O carro, uma roupa cara, um pacote de viagem. O voto é esse desejo realizável. Era um meio de estar presente neste universo, neste shopping da democracia. Andar nos corredores da decisão política.
Neste ano, outros agentes, os inalcançáveis do passado, alta cúpula do Céu do STF, foram mais protagonistas do que os candidatos. Falou-se mais de togados ministros instagramáveis e da danada da Nossa Senhora Aparecida do que, de fato, do futuro do País. Falou-se mais do ‘Dani’ Vorcaro do que do ajuste fiscal, das prostitutas do Master do que da crise do agro, da cueca do ministro do que da desindustrialização, do charuto da PGR do que da reforma da Reforma Tributária, do filho do presidente do que de infraestrutura, do pai, irmão, mulher e outros do presidenciável do que dos projetos para educação, saúde e emprego.
Não foi uma eleição para escolher o melhor, mas uma novela ou circo para entreter o gado (dos dois lados da bovina política brasileira), converter, lacrar, engajar, farmar aura e zoar (para citar algo da minha época). Eleição pobre, cretina e burra tende a levar o País para pobreza, cretinice e burrice.
Dito isso, não declaro voto porque não faço parte desta novela tosca. O voto é secreto, coisa antiga, mas legítima da boa democracia. Outra coisa, não é hora de lamentar. O futuro bobo que compramos está precificado e pago. Temos quatro anos imensamente garantidos de muita banalização dos projetos, de piadas e de polarização, seja lá quem subir a rampa.
Minha geração está meio que envelhecendo e não sei se vamos ver um País decente, caminhando para um ambiente limpo e desintoxicado deste movimento propositalmente desinteligente que se tornou a política (em primeiro plano) e a governabilidade (em última instância) do País. Merecíamos mais.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














