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Início Blog

Perfil: Maria Eugênia

“Queria que o goiano tivesse mais orgulho dele mesmo. Acho que é algo cultural que poderia ser mudado pela própria arte”

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
setembro 26, 2026
em Blog
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Perfil: Maria Eugênia
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A voz que ecoa as tradições, as dores e as belezas do Brasil profundo pertencem à Maria Eugênia Pacheco Alencastro Veiga. Conhecida carinhosamente como a “voz de Goiás”, a cantora, pianista e atriz construiu uma carreira sólida que ultrapassa três décadas. A sua trajetória é costurada por afeto, identidade cultural e respeito profundo à palavra.


Nascida em Goiânia, em 20 de junho de 1967, Maria Eugênia carrega no sangue e no canto o orgulho do Centro-Oeste e a missão de dar visibilidade aos compositores do interior do país. A relação com a música começou cedo e com contornos de disciplina clássica. Aos quatro anos, as pequenas mãos já tateavam as teclas do piano.


Na adolescência, dividia o tempo entre os estudos, as aulas de canto erudito e, posteriormente, o grupo de teatro no Centro Cultural Martim Cererê. “Eu ia a bares com os amigos para ouvir apresentações de MPB de artistas como Gustavo Veiga, Ricardo Leão, João Caetano e Pádua. Mas nunca sonhei em ser cantora”, conta.
Embora tenha chegado a estudar Psicologia e Administração, a música falou mais alto. Em 1990, ela se formou em Piano Erudito pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Contudo, os caminhos da arte reservavam uma surpresa. O destino da pianista mudou quando ela decidiu soltar a voz em um concurso na Praça Universitária, em Goiânia. O canto, que antes era uma expressão íntima e técnica, revelou-se sua verdadeira vocação popular.


Maria Eugênia explica que era muito tímida e ficava nervosa ao se apresentar. “Participei do concurso para me soltar. Na segunda música, esqueci a letra e comecei a improvisar. Saí chorando do palco, decepcionada, mas as pessoas vieram me abraçar e elogiar. Resultado: fiquei em primeiro lugar”, recorda. A partir daí, começaram os convites, entre eles um conhecido festival de música em Inhumas e o programa Som Brasil, da TV Globo, comandado pelo cantor Rolando Boldrin. Na ocasião, a goiana se apresentou com o cantor Juraildes da Cruz.


A oportunidade de lançar o primeiro disco surgiu em 1992. Produzido pelo renomado diretor musical Ricardo Leão e lançado pela gravadora CID, no Rio de Janeiro, o trabalho recebeu o nome “Maria Eugênia” e conquistou o prêmio Tiokô de Música da União Brasileira de Escritores de Goiás, o maior prêmio cultural do estado. Mas, nessa época, a artista estava conhecida em sua terra natal por outro motivo. “Voltei para Goiânia, após a gravação do disco, e um grupo de rapazes veio me pedir autógrafo. Perguntei a eles: qual música conhecem do meu trabalho? E eles disseram: você não é a moça da propaganda do BEG?”, recorda.


O comercial do Banco do Estado de Goiás (BEG) também foi gravado em 1992. Nele, os cantores Maria Eugênia e Marcelo Barra interpretaram o jingle marcante intitulado “Somos Goianos”, um verdadeiro hino de exaltação à identidade do Estado. O que poderia ser motivo de comemoração e incentivo para o sucesso comercial do primeiro trabalho da artista se tornou um momento de questionamento e indignação. “Mas Goiás prestigia Goiás? O disco estava nas lojas? Ele tocava nas rádios do Estado? Infelizmente, não”, lamenta. Durante a divulgação do primeiro disco, a cantora ainda se apresentou no Xou da Xuxa, da TV Globo.


Um momento marcante na carreira aconteceu em 1997, durante o projeto da TV Anhanguera chamado Noites Goianas. A iniciativa era uma homenagem à cantora Ely Camargo e, além de Maria Eugênia, reunia importantes cantores do estado, entre eles Marcelo Barra, João Caetano, Fernando Perillo e Pádua. “Isso mudou o olhar, a gente cantava em praça pública. Fizemos um disco ao vivo, um especial no programa Frutos da Terra e aparecemos até no Fantástico”, destaca.
Em 1998, aconteceram as primeiras apresentações internacionais da artista. Em setembro, foram cinco shows na Expo’98, em Lisboa, Portugal, em comemoração à independência do Brasil. Em seguida, apresentou-se no Teatro Casal Del Metdge, em Barcelona, na Espanha.


Em 2000, o momento de glória internacional. Maria Eugênia excursionou pelas Américas com o projeto Solo Brasil no espetáculo Uma Viagem Através da Música do Brasil. As apresentações aconteceram na Venezuela, México, Jamaica, Bahamas, Argentina, Uruguai e Paraguai. Mas o momento mais marcante foi em Cuba, em uma apresentação no Teatro Nacional, em Havana. Foram duas horas e meia de música popular brasileira, com o teatro lotado e transmissão ao vivo pela televisão local. “No outro dia, fui conhecer a cidade. Não consegui andar. Os cubanos queriam conversar, pedir autógrafo. Sabiam tudo de Chico Buarque. Foi o dia de maior glória da minha vida, fiquei muito famosa em Cuba”, recorda. A turnê ainda passou pela Alemanha, Rio de Janeiro e São Paulo.


A essência goiana de Maria Eugênia ganhou as telas de todo o Brasil em 2010. A sua interpretação sensível da música “Companheiro”, de Naire Siqueira e Tibério Gaspar, foi escolhida para a trilha sonora da novela “Araguaia”, da TV Globo. A canção tornou-se um hino de sua identidade. Gravada inicialmente para integrar o projeto MPB em Goiás, agradou o diretor da novela, Marcos Schechtman. “Ele veio a Goiânia pesquisar a cena musical daqui e havia a gravação em um disco no Centro Cultural Goiânia Ouro”, explica.


O próprio diretor passou a referir-se à cantora como “a voz de Goiás” e escolheu “Companheiro” para a abertura da novela. “Próximo da data de estreia, eu não podia contar que a música seria a da abertura”, destaca. Foram meses de projeção nacional e acontecimentos conflitantes naquele período. “Estando em uma novela da Globo, a gente é tratada como uma rainha. Fiz apresentações que nunca havia feito no Sul do país, mas não fiz show em Goiás. Mais uma vez, fui boicotada por várias rádios locais que não tocaram a música”, lamenta.


No mesmo ano, Maria Eugênia foi novamente chamada pela TV Globo para participar do programa Som Brasil em homenagem a Chico Buarque. Entre as canções interpretadas pela goiana estava um clássico do artista carioca, Folhetim. A cantora ainda dividiu o camarim por dois dias com Miúcha (irmã do cantor) e pôde assistir a um momento que vai lembrar para sempre. “Vi Cauby Peixoto, já debilitado, cantar a música Bastidores. Pensei: estou ouvindo a voz de Deus”, emociona-se.


O projeto para 2026 é o lançamento, em outubro, do primeiro EP, intitulado MPB em Série. O trabalho, que estará disponível no Spotify, surgiu de seis shows realizados pela artista interpretando clássicos da música popular brasileira, trilhas de novela e canções de compositores goianos.
O formato digital, que agora faz parte da sua carreira, agrada, mas a cantora sente saudade do disco físico e critica o atual mercado fonográfico. “Sinto falta de reconhecer o trabalho do artista, conhecer melhor o seu perfil, ver as letras, a ficha técnica, quem são os músicos, os autores. A arte e a história estão sendo resumidas, e o público perde a capacidade maior de apreciação”


São 34 anos de carreira, apresentações em 22 países e o título de Oficial da Ordem do Rio Branco, concedido pelo Itamaraty pela contribuição e dedicação em difundir a cultura nacional no exterior. A primeira mulher goiana a receber a honraria não se incomoda de ser chamada de cantora regional, muito pelo contrário. Mas ressalta: “Não gosto quando usam isso para limitar o artista. Eu sou Maria Eugênia, de Goiás, e não concordo que isso me diminua diante o meu público”, declara.
Segundo a artista, é preciso valorizar mais o que é da terra. “Queria que o goiano tivesse mais orgulho dele mesmo. Acho que é algo cultural que poderia ser mudado pela própria arte”, acredita. Ela pontua que vários artistas goianos precisaram sair do Estado para serem respeitados pelo público local. “Foi assim com o Orlando Morais, o Leo Jaime, o Ricardo Leão. Vá para o Nordeste e veja como o artista de lá é tratado nos festivais locais. Em Goiás, vamos continuar achando que todos são melhores que a gente?”, questiona.

Parceria na vida e na música
A caminhada de Maria Eugênia não é solitária. A sua arte ganha ainda mais vida no aconchego do lar e dos palcos compartilhados com o músico carioca Luiz Chaffin, o seu marido e diretor musical.


É sob o olhar atento e os arranjos cuidadosos do violão de Chaffin que a cantora desbrava palcos nacionais e internacionais. É a sinergia que transforma os seus shows em encontros intimistas, em que a música popular brasileira e a sonoridade regional se abraçam em perfeita harmonia.


Ela o conheceu no final de 1990, quando ele veio a Goiás tocar com o cantor João Caetano. Na época, o futuro casal se apresentou junto e, meses depois, iniciou um namoro à distância. Chaffin era músico da banda que acompanhava a cantora Simone em turnê pelo Brasil.


O casamento foi em 1993. Nesse período, moraram no Rio de Janeiro. “Comecei a cantar lá e ele passou a conhecer melhor a música goiana. Mudou a minha visão sobre música. Ele me influencia, e eu a ele”, afirma.


Tempos depois, o casal retornou a Goiânia em definitivo. Maria Eugênia avalia que o músico trouxe mais profissionalismo para o cenário local. “Ele é um profissional muito diferenciado , entendeu a música de Goiás como ninguém, se apaixonou pelo Estado e agregou muito com o seu conhecimento técnico”, acredita.
Há 19 anos, nasceu a única filha do casal, Natália Alencastro Veiga Chaffin. “É o amor da minha vida, mudou a minha visão de mundo, o resto ficou pequeno perto dela”, emociona-se. A artista afirma que o fato de ter sido mãe aos 40 anos de idade tem muito a ver com a própria carreira artística. “Muitas viagens, instabilidade característica da vida de quem escolhe a música. Paguei o preço da carreira, mas não me arrependo. Faria tudo de novo”, reforça.


Com Luiz Chaffin, ainda desenvolve o projeto EduCanto há cinco anos. Já foram visitadas 150 escolas públicas em todo o Estado, levando música e arte com o objetivo pedagógico de elevar a autoestima e o orgulho de ser goiano, além de oferecer um estilo musical que a maioria das crianças e adolescentes não está acostumada. “Vemos jovens carentes de 16 ou 17 anos que nunca foram a um show, cinema ou teatro, mas que estão bastante interessados. Muitos deles nunca tiveram acesso a um artista”, conta.


O projeto cultural é viabilizado pela lei goiana de incentivo fiscal, a Lei Goyazes. “Em âmbito estadual, é a melhor legislação de incentivo do País, porque é 100% voltada para o artista goiano”, avalia. Situação que a artista acredita ser diferente da norma nacional sobre o tema. “A Lei Rouanet nos coloca para concorrer com artistas muito famosos nacionalmente na procura por patrocínio. É uma concorrência desleal”, critica.

Família, tradição e história
Filha do advogado Júlio Alencastro Veiga Filho e da dona de casa Bartyra Thereza de Almeida Pacheco Alencastro, Maria Eugênia teve uma infância muito ligada à cidade de Goiás, terra da família paterna. “Sempre estávamos lá e reuníamos todos os primos. Eu sou a mais nova. Meu avô tinha loja de departamento na cidade e tocava violino”, recorda.


No ambiente familiar, a música estava sempre presente. “Lá em casa, ouvia-se o erudito, a MPB, a bossa nova, o que vinha do nordeste e o que surgia em Goiás”, destaca. A tia, Maria Lucy Veiga Jardim (conhecida como Dona Fifia), cem anos de idade, é maestrina, autora de arranjos musicais e estudou com Heitor Villa-Lobos, compositor considerado o mais significativo da música clássica brasileira. “Mesmo com tantas referências, eu não pensava em ser artista” , revela Maria Eugênia.
Tanto a família materna quanto a paterna estão muito presentes na história de Goiás. O tio-avô foi um dos criadores da Faculdade de Medicina da UFG e da Sociedade Goiana de Agricultura e Pecuária (SGPA), o médico e pecuarista Altamiro de Moura Pacheco. Ele ainda reservou 70% de uma de suas propriedades rurais para a preservação ambiental, área que deu origem ao Parque Ecológico de Goiânia que leva seu o nome.


Na região norte da capital, Altamiro foi o responsável pela doação das terras em que foram construídos o aeroporto da cidade e um novo bairro, ambos batizados de Santa Genoveva. Foi um pedido dele para homenagear a sua mãe, Maria Genoveva de Moura Pacheco, avó de Maria Eugênia. Anos depois, o setor foi o escolhido pela própria cantora para morar.


Maria Eugênia também é descendente direta de José Joaquim da Veiga Valle, ou simplesmente Veiga Valle (1806-1874), considerado o principal artista barroco goiano e maior artista sacro do Estado. “Minha família está presente na história de Goiás. Eu ouvi cada história em casa… Tenho muito orgulho da trajetória da minha família e a participação dela nesse nosso Estado tão próspero”, compartilha.

Texto: Rafael Mesquita.
Fotos: Arquivo pessoal.

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