Leandro Resende
Ano 47 – 2002
A última assembleia da OCG
Em 10 de abril de 2002, a sigla que acompanhava o cooperativismo goiano desde os anos 1980 fez a sua última reunião. Naquela assembleia, os delegados aprovaram por unanimidade a reforma do estatuto, e a Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCG), de grandes debates e vitórias dos anos 1980 a 2000, daria lugar ao Sindicato e a Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado de Goiás: OCB/GO.
Esse movimento era mais do que uma troca de marca, era o acerto final entre o nome e a natureza. Desde 1993, a entidade acumulava as prerrogativas de sindicato; desde 1999, dividia o teto com o SESCOOP. Faltava ajustar a identidade à estruturação que foi sendo redesenhada durante aquela década, evolução natural, pois seria a quarta denominação da linhagem iniciada pela UCEG (em 1956) e representava, principalmente, uma evolução histórica. A nova marca subiu à fachada da entidade na Avenida Jamel Cecílio.
A unanimidade não foi apenas detalhe protocolar. As cooperativas goianas davam uma demonstração de coesão interna. Enquanto isso, o País ‘pegava fogo’, especulando sobre rupturas, em um ano em que o Brasil se dividia na eleição mais tensa desde a redemocratização. O dólar beirava R$ 4, o risco-país nas alturas e o mercado testando os nervos do candidato a presidente favorito, Luiz Inácio Lula da Silva, até a “Carta ao Povo Brasileiro” lançada pelo político acalmar parcialmente os ânimos.

E a movimentação cooperativista não parou neste ato de refundação. Em 2 de setembro, em outra assembleia em Goiânia, constituiu-se a FECOOP CO-TO, federação sindical reunindo as organizações cooperativistas do Centro-Oeste e do Tocantins, que elegeu Antonio Chavaglia como o seu primeiro presidente.
Havia uma lógica geográfica e uma justiça histórica na sigla, já que o “TO” era, em parte, uma assinatura goiana. Foi a entidade goiana que emprestara seu estatuto à coirmã, recém-nascida organização tocantinense em 1990, e, ainda, foi na sala do deputado goiano Paulo Roberto Cunha, na Câmara Federal, que se decidira ancorar o novo Estado na Amazônia Legal. Doze anos depois, padrinho e afilhado sentavam-se à mesma mesa federativa, sob comando goiano.
Na economia, o campo sentia o efeito do dólar nas alturas, que fazia um trabalho silencioso: a soja goiana nunca valera tanto em reais, e os armazéns do sudoeste terminaram o ano cheios, um combustível para o ciclo de investimentos que o novo governo herdaria.
ANO 48 – 2003
Um cooperativista na Esplanada e o crédito se espalha
Quando o então presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva anunciou o seu primeiro ministério, um nome fez o cooperativismo brasileiro inteiro se sentir promovido: Roberto Rodrigues, ministro da Agricultura. Agora, despachava da Esplanada o engenheiro agrônomo que presidira a OCB nacional, comandara a Aliança Cooperativa Internacional e, no âmbito local, era amigo dos goianos e de presença recorrente no Estado (entre outros eventos, Rodrigues descerrou a fita da sede da OCB/GO, na Avenida Jamel Cecílio, em 1988).

Pela segunda vez, um quadro do movimento ocupava a pasta, desta vez com um lastro muito mais ampliado: foi Roberto Rodrigues que definira o SESCOOP como braços e pernas do sistema responsável por desenhar a política agrícola do País, no exato momento em que o agro virava locomotiva nacional.
Goiás tratou de renovar o seu próprio comando em sintonia. Em 20 de março de 2003, Antonio Chavaglia foi reconduzido à presidência da OCB/GO para o seu terceiro mandato consecutivo no ciclo. Com a diretoria empossada, aproveitou a solenidade para oficializar a instalação da 7ª Câmara de Conciliação e Arbitragem, que operava no primeiro andar da sede desde a autorização de 1998. O foro próprio das cooperativas ganhava, enfim, a sua cerimônia de batismo.
Esse era um detalhe e um reconhecimento interno, pois a notícia que mudaria a fisionomia do sistema cooperativista viria de Brasília, do Banco Central. Em 25 de junho, a Resolução 3.106 autorizou as cooperativas de crédito de livre admissão: pela primeira vez, qualquer cidadão, e não apenas médicos, servidores ou produtores de uma categoria, podia bater à porta de uma cooperativa e abrir conta.
Para o ramo que Goiás organizara com a Cocecrer-GO em 1989, rebatizada Credi-Goiás Central desde 1995, era um marco histórico: o crédito cooperativo deixava de ser um nicho de categoria para disputar, agência a agência, o cliente dos grandes bancos.
As singulares goianas começaram ali a travessia que as levaria das salas anexas de suas entidades às esquinas mais visíveis das cidades. A previsão virou realidade e, gradativamente, mudou o cenário do sistema financeiro nacional.
A economia ajudou menos do que prometia: o primeiro ano do novo governo Lula foi de juro alto e aperto fiscal para domar a desconfiança herdada de 2002. No agronegócio, porém, a safra recorde e o câmbio ainda favorável mantiveram o interior goiano em expansão, com obras de silos, armazéns e, também, novas portas das cooperativas de crédito.
ANO 49 – 2004
Um ano em três atos
Assim como há anos que são de assembleias, há anos que são cartorários. Depois do 2002 das refundações e do 2003 das aberturas, 2004 foi o ano em que o cooperativismo goiano colheu assinaturas. Cada ato e cada carimbo consolidaram uma construção que vinha de longa jornada. O primeiro veio do ramo saúde, logo em janeiro. No norte goiano, as singulares da Unimed, entre elas a de Goianésia, fundada em 1996 por 25 médicos, como já registrou esta série, deram origem à Unimed Cerrado, central regional criada dentro da federação que reunia as cooperativas médicas de Goiás, Tocantins e Distrito Federal.

O movimento que interiorizara a medicina cooperativista na década anterior agora se articulava em escala: as cidades médias goianas, que haviam aprendido a ter plano de saúde próprio, passaram a somar carteiras, estrutura e poder de negociação. O ramo que nascera, em 1978, em uma sala da Associação Médica, atingia a maturidade organizacional.
O segundo carimbo saiu em 22 de novembro: a FECOOP CO-TO, constituída dois anos antes sob a presidência de Antonio Chavaglia, teve, finalmente, o seu registro sindical concedido. A federação, que unia Centro-Oeste e Tocantins, deixava de ser projeto para virar instância formal do sistema e o caminho ficava aberto para o passo seguinte, a confederação nacional que as regionais um dia sustentariam.
E, por fim, o terceiro ato veio no apagar das luzes, em 29 de dezembro, e valia muito dinheiro: a Lei nº 11.051 excluiu os atos cooperativos das cooperativas de crédito da base de cálculo do PIS e da Cofins. O que até parece letra miúda de legislação tributária era uma tese antiga do movimento cooperativista: o entendimento de que o ato não é operação de mercado e tributá-lo como tal sempre fora cobrar imposto de quem reparte o próprio resultado.
Para as singulares goianas recém-autorizadas à livre admissão, a desoneração chegava na hora exata para acelerar a expansão. A economia ajudou como não acontecia há uma década: o Brasil cresceu 5,7% em 2004, o melhor desempenho desde o Plano Real, puxado por exportações em que a soja, a carne e o milho goianos tinham reconhecimento nacional.
Goiás era destaque, junto com Estados do Centro-Oeste, em revistas e jornais nacionais. E, assim, pela primeira vez em anos, o sistema cooperativista não lutava contra uma economia fraca – corria com ela e ajudava como âncora.














