Leandro Resende
ANO 43 – 1998
Cooperativismo ganha o Sescoop
Uma década após a Constituição proibir o Estado de intervir nas cooperativas, o ano de 1998 pode ser considerado o marco, de fato, em que a autogestão ganhou força estrutural. E o cooperativismo goiano propiciou dois movimentos que fizeram história.
O primeiro nasceu dentro da própria sede da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCG, hoje chamada de OCB/GO), na Avenida Jamel Cecílio. Em junho, a entidade encomendou um estudo de viabilidade para abrigar uma Câmara de Conciliação e Arbitragem (CCA). O juiz Vítor Barboza Lenza visitou as instalações e autorizou: em 28 de agosto, a entidade recebeu a 7ª CCA, instalada no primeiro andar do prédio.
As cooperativas goianas passaram a contar com um foro próprio para resolver disputas sem a lentidão da Justiça comum. O advogado Adalcino Francisco dos Santos, diretor da casa, tornou-se o primeiro presidente da Câmara.

O segundo movimento veio de Brasília, seis dias depois. Em 3 de setembro, a Medida Provisória nº 1.715 transformou em lei o que há dois anos estava em debate: nasciam o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (SESCOOP), braço educacional do Sistema “S” dedicado às cooperativas, e o RECOOP, programa de revitalização que oferecia crédito barato e 20 anos de prazo para salvar as cooperativas afundadas em dívidas da extinção.
Em uma só tacada, o governo Fernando Henrique atendia a duas urgências do sistema: dinheiro para recuperar as cooperativas e uma estrutura nacional de capacitação e formação do setor no País.
Antonio Chavaglia, presidente da OCG, não esperou a regulamentação da nova lei. Em dezembro, designou o próprio Adalcino para acompanhar, passo a passo, o desenho da nova instituição, pois Goiás queria estar na primeira fila quando o SESCOOP saísse do papel.
O ano, porém, terminou em sobressalto. A moratória russa de agosto empurrou o mundo para mais uma crise econômica, e o Brasil dobrou os juros para segurar o real, correu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e reelegeu Fernando Henrique em meio à turbulência. No campo goiano, o crédito ficou ainda mais caro e o RECOOP, ainda no papel, virou a esperança concreta de dezenas de cooperativas endividadas.
ANO 44 – 1999
Nasce a Casa do Cooperativismo Goiano
O ano de 1999 começa com turbulências e medidas mais drásticas na economia brasileira. Em janeiro, o real cedeu à pressão que vinha desde a crise asiática: o câmbio passou a flutuar e o dólar quase dobrou de preço em semanas. Para o consumidor urbano, foi um grande susto. Para o campo goiano, uma ironia bem-vinda: a soja, o milho e a carne, vendidos em dólar, de repente, valiam muito mais em moeda nacional. Depois de anos apanhando de juro alto e câmbio artificial, o agro (e as cooperativas que o organizavam) encontrava fôlego novo justamente na desvalorização que o País temia.

Mas um fato que mudaria a história da OCG não veio do câmbio. Veio de um cronograma que a casa acompanhava havia meses, com Adalcino Francisco dos Santos escalado pelo presidente Antonio Chavaglia para não perder um só despacho da regulamentação do SESCOOP. Em outubro, essa nova estrutura de formação do cooperativismo começou a operar nacionalmente, garantindo, pela primeira vez, recursos permanentes para a capacitação cooperativista. De imediato e no mesmo mês (em 28 de outubro de 1999), o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo foi efetivamente instalado em Goiás.
A data é um divisor de águas. Com o SESCOOP/GO funcionando sob o mesmo teto da OCG, o sistema passou a ser reconhecido como OCB/SESCOOP-GO, a Casa do Cooperativismo Goiano, nome que resumia a nova natureza do organismo: representação sindical e escola, defesa de interesses e formação, tudo no mesmo endereço da Avenida Jamel Cecílio.
A mudança pode ser medida pelo antes e depois. Até ali, a entidade dependia de parcerias externas para ofertar qualquer curso, enquanto a arrecadação das filiadas estava destinada ao dia a dia de cada cooperativa, um drama comum às organizações estaduais do Centro-Oeste.
Roberto Rodrigues resumiria mais tarde: “O SESCOOP é o braço econômico do cooperativismo, mas, algumas vezes, também as pernas.”
Os primeiros passos goianos foram modestos e simbólicos. Naquele resto de 1999, houve duas atividades, quase uma centena de pessoas beneficiadas, duas cooperativas atendidas, 40 horas de aula. A semente estava plantada e, em pouco mais de 15 anos, aquela contagem chegaria a meio milhão de beneficiados e um legado incalculável para o cooperativismo de Goiás.














