No dia 17 de julho de 2026, a Cidade de Goiás — a histórica Vila Boa, Patrimônio Mundial da Humanidade reconhecido pela Unesco — inaugurou, na Praça do Coreto, novas esculturas em homenagem a dois nomes fundamentais da literatura goiana: Hugo de Carvalho Ramos e Leodegária de Jesus. O gesto integra as comemorações rumo aos 300 anos do município, em 2027, e dialoga com o projeto de candidatura da cidade à Cidade Criativa da Literatura da Unesco.
Hugo de Carvalho Ramos (1895-1921) é considerado o pioneiro do regionalismo literário em Goiás. Nas andanças pelo interior ao lado do pai, magistrado, absorveu a fala e os costumes do sertanejo e do tropeiro, transformando- os em prosa. A sua obra influenciou gerações de escritores goianos, entre eles Bernardo Élis e Eli Brasiliense, e se tornou referência para compreender a formação da identidade literária do Centro-Oeste brasileiro.
Leodegária de Jesus (1889-1978), por sua vez, rompeu paradigmas de sua época. Mulher negra, professora, redatora de jornal e poetisa, foi uma das primeiras mulheres a publicar um livro de poesia em Goiás, tornando-se um dos primeiros nomes da lírica feminina e negra no estado — e um dos primeiros do País a expressar, intuitivamente, o que hoje se reconhece como ecopoesia. A sua obra antecipa, em versos, um diálogo com a natureza e a terra goianas que permanece atual quase um século depois.
Homenagear esses dois nomes na praça mais visitada do centro histórico é também um gesto de reconciliação da cidade com a sua própria vocação. Por décadas, Vila Boa preservou o seu patrimônio arquitetônico e imaterial quase em silêncio, como quem guarda um tesouro sem se dar conta de seu valor diante do mundo. O movimento recente — de sinalização cultural, valorização de autores locais e fortalecimento do turismo literário — mostra uma cidade que finalmente se permite ser vista.
Esse processo, contudo, não deveria significar massificação. Diferentemente de outros destinos turísticos goianos, marcados pelo fluxo intenso e pela lógica de consumo rápido, a Cidade de Goiás tem a oportunidade de construir um modelo de visitação que respeite o ritmo e o modo de vida da população vilaboense — moradores que convivem diariamente com ruas de pedra, casarões centenários e uma memória viva que não pode ser tratada como cenário descartável.
Ainda assim, silenciar essa riqueza ao Brasil e ao mundo seria um desperdício histórico. Às vésperas de completar três séculos, a Cidade de Goiás carrega um patrimônio da humanidade que pertence, por direito, à humanidade. Mostrar Hugo de Carvalho Ramos e Leodegária de Jesus na praça, e ao lado de Cora Coralina, e de tantos outros nomes que fizeram a literatura goiana, é reafirmar que Vila Boa tem muito a contar — e que fazê-lo com equilíbrio entre acolhimento e preservação é o desafio desta nova fase da cidade.

Juscimar Ribeiro, advogado especialista em Direito Administrativo e Direito Constitucional














