Há uma frase que ouço repetidamente em rodas de empresários, geralmente como desculpa: “isso é coisa de País rico”. Refiro-me à economia circular, esse conjunto de práticas que substitui o velho ciclo de extrair, produzir e jogar fora por um sistema em que o resíduo de uma cadeia vira insumo de outra. A frase é confortável, e está completamente errada. E o pior: quem a repete está ou vai pagar a conta.
Goiás não é um espectador dessa nova realidade. Muito pelo contrário. É, goste ou não a quem é de direito, um dos estados que mais tem a perder e a ganhar nesse jogo. Nossa economia é lastreada em agronegócio, pecuária, indústria de alimentos e um cinturão industrial que cresce ao redor de Goiânia e Anápolis – entre outros polos. Isso significa volume. Volume de resíduo orgânico, de embalagem, de subproduto que, hoje, na maioria das empresas, ainda é tratado como problema de logística e não como ativo.
A economia circular se organiza em torno de cinco verbos: repensar, recusar, reduzir, reutilizar, reciclar. Mas eu diria que para o empresário goiano o verbo que importa primeiro é outro: reconhecer. Reconhecer que o modelo linear está com os dias contados não por qualquer imposição ideológica, mas porque o mercado já decidiu isso por conta própria. Uma pesquisa da Associação Paulista de Supermercados mostrou que 95% dos brasileiros preferem marcas comprometidas com sustentabilidade, e mais de 60% já abandonaram fornecedores por práticas antiéticas. Isso não é pauta de ONG, mas uma nova forma de se posicionar e se estabelecer. Não tem tapete grande o suficiente para abrigar todo lixo ou falha gerados. O erro cola fácil, o melhor é evitá-lo.
Escrevo isso depois de décadas cobrindo a economia goiana, dos frigoríficos do interior às cooperativas de crédito que hoje financiam a modernização do campo. Vi o Estado sair de uma posição periférica para se tornar protagonista em produção de proteína animal e grãos. Mas também vi (e continuo vendo) uma resistência cultural em tratar sustentabilidade como estratégia de competitividade, e não como gasto acessório. Essa resistência tem prazo de validade.
As regras ambientais estão mais rígidas, os grandes compradores internacionais já exigem rastreabilidade e critérios ESG como condição de contrato. O crédito rural, inclusive o das cooperativas com quem trabalho de perto, começa a precificar risco ambiental. Empresa que reutiliza resíduo como insumo reduz custo, ganha autonomia frente a fornecedores externos e se protege da oscilação de preço de matéria-prima virgem. Antes, isso era discurso verde, hoje, é gestão de risco.
Goiás tem, paradoxalmente, todas as condições para sair na frente: agroindústria de escala, cooperativismo maduro, universidades com pesquisa aplicada e um tecido empresarial resistente e maduro, acostumado a se reinventar em ciclos recorrentes de estagnação e de recessão. Falta menos capacidade técnica do que decisão. Logística reversa, uso de material reciclado, capacitação de equipe para pensar o ciclo produtivo de forma circular: nada disso é experimento de laboratório, mas prática replicável, com casos consolidados na própria agroindústria brasileira.
A pergunta que deixo não é se a economia circular vai chegar ao Estado. Ela já chegou, embutida em cada exigência de comprador exportador, em cada linha de crédito condicionada a critério ambiental, em cada consumidor que compara rótulos antes de decidir. A pergunta é se o Cerrado vai continuar sendo tratado como fonte inesgotável de extração ou se vamos, finalmente, aprender com a própria natureza que nos cerca: aqui, nada se perde, tudo se transforma, inclusive o jeito de fazer negócio.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














