O dado é real: o trabalhador brasileiro produz, hoje, apenas 25% do que produz um americano. A conclusão que a ortodoxia econômica tira dele, porém, é falsa: não é o trabalhador quem falha. É o sistema que o abandona.
Produtividade do trabalho não é uma propriedade do indivíduo. É uma propriedade do ambiente em que ele opera. A própria OCDE é categórica: a medida “não representa exclusivamente as capacidades ou o esforço individual dos trabalhadores”, ela depende, em igual ou maior medida, do capital físico disponível: máquinas, equipamentos, infraestrutura. E aqui está o nó que o debate neoliberal prefere não desatar: o estoque de capital por trabalhador na América Latina equivale a um terço do registrado nos Estados Unidos. Não é falta de talento. É falta de investimento acumulado ao longo de décadas.
A comparação de salários por hora confirma a mesma lógica. O PIB per capita americano é 3,8 vezes o brasileiro, proporção quase idêntica à diferença de produtividade. Salário maior não é só recompensa por educação, é remuneração pelo capital que décadas de investimento público americano, na malha rodoviária federal, nas pesquisas militares da DARPA, na NASA, no Vale do Silício, colocaram a serviço de cada trabalhador. O mercado livre não construiu isso sozinho. O Estado construiu.
No Brasil, a taxa de investimento encerrou 2025 em 16,8% do PIB. Para apenas não deteriorar o estoque atual de capital, precisaríamos de 20%. Para crescer de verdade, precisaríamos de muito mais. A Coreia do Sul investe 31,7%. Entre 2010 e 2023, a produtividade brasileira por hora trabalhada cresceu 0,3% ao ano. No setor de serviços, que emprega 70% dos trabalhadores, caiu.
É nesse vácuo que o BNDES deixa de ser tema setorial e passa a ser questão estratégica, vital. A série histórica de 1995 a 2025 revela correlação positiva de 52% entre os desembolsos do banco e a taxa de investimento da economia. No ciclo expansivo de 2003 a 2014, quando os desembolsos saltaram de R$ 33 bi para R$ 190 bi, por ano, a formação bruta de capital fixo saiu de 15,3% para 20,2% do PIB. Quando o banco foi contraído, os desembolsos caíram 63% entre 2014 e 2017 e o investimento desabou para 14,6% e o Brasil viveu a pior recessão em décadas.
O argumento de que o mercado privado pode substituir o BNDES ignora o óbvio: não existe Darpa, na Nasa um mercado de crédito de longo prazo com profundidade e custo compatíveis com o financiamento de infraestrutura e indústria. Juros estruturalmente altos inviabilizam projetos com maturação de 15 ou 20 anos. Desmontar o banco sem construir essa alternativa não é liberalismo. É estagnação com nome técnico.
Enquanto o debate público insistir em responsabilizar o trabalhador pela produtividade que o investimento não lhe deu, o Brasil continuará tratando o sintoma e ignorando a doença. A agenda real é outra: elevar o investimento acima de 23% do PIB, ampliar o crédito de longo prazo e parar de confundir austeridade com modernidade.

Marcos Freitas, sócio-Diretor Economista, Mestre em Finanças e Mestrando em Turis mo. 34 anos de experiência no Setor de Turismo. Foi COO-fundador da WAM Negócios e COO-fundador da AMT Group














