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Pirenópolis mira o mundo

Com quase 300 anos de história, a cidade goiana retoma a candidatura ao título de Patrimônio Mundial da Unesco. Mais que reconhecimento internacional, a iniciativa pode impulsionar o turismo, fortalecer a economia e ampliar a preservação de seu rico patrimônio histórico, cultural e natural

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
julho 18, 2026
em Blog
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Pirenópolis mira o mundo

Divulgação

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Por Vinícius Braga 

O charme colonial, as ruas de pedra, as igrejas centenárias, as cachoeiras que nascem em meio ao Cerrado e uma atmosfera acolhedora que resiste ao tempo. Pirenópolis reúne atributos que, há décadas, encantam turistas brasileiros e estrangeiros. Agora, a histórica cidade goiana pretende dar um passo ainda maior: conquistar o título de Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Com quase 300 anos de história e 36 anos de tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Pirenópolis retomou, neste ano, as articulações em torno da candidatura. A campanha “Pirenópolis Patrimônio da Humanidade” é conduzida pela Prefeitura de Pirenópolis em parceria com o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), entidade que participa da construção técnica e institucional do projeto.

Mais do que um reconhecimento simbólico, o selo da Unesco representa uma oportunidade estratégica. Em todo o mundo, cidades que recebem o título passam a integrar um seleto grupo de destinos reconhecidos por seu valor universal excepcional, ampliando a sua projeção internacional, fortalecendo políticas de preservação e atraindo investimentos, turistas e pesquisas.

Para Pirenópolis, a certificação significaria consolidar uma vocação construída ao longo de séculos: a de figurar entre os mais importantes patrimônios históricos, culturais e ambientais do Centro-Oeste brasileiro.

O caminho até a Unesco

Segundo o presidente do IHGG, Jales Mendonça, o momento é de estruturar uma base técnica robusta, capaz de atender às exigências da Unesco.

“A candidatura foi oficialmente lançada e entra, agora, em sua fase mais importante: a construção de uma articulação sólida. Estamos reunindo especialistas, pesquisadores, arquitetos e historiadores para formar uma comissão forte, tanto do ponto de vista institucional quanto estratégico, que conduzirá todo o processo.”

O reconhecimento não depende apenas da riqueza histórica da cidade, mas também da qualidade dos estudos apresentados, dos inventários patrimoniais, dos planos de preservação e da demonstração de que o município possui condições permanentes de proteger esse patrimônio.

“Não estamos falando de um sonho distante. Pirenópolis reúne atributos concretos para alcançar esse reconhecimento. O desafio é demonstrar isso com documentação consistente, pesquisas qualificadas e planejamento. Uma candidatura bem fundamentada amplia significativamente as chances de sucesso.”

Jales Mendonça, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG)

Mendonça reforça ainda que o engajamento da sociedade será fundamental para que o pleito avance.

“Precisamos unir os mais de sete milhões de goianos em torno dessa causa, como aconteceu durante a candidatura da Cidade de Goiás. Assim, teremos uma instância a mais de proteção para um patrimônio valioso, um verdadeiro relicário do povo goiano.”

Patrimônio cultural e natural

Para o presidente do IHGG, Pirenópolis apresenta os requisitos necessários para conquistar o título, sobretudo por estar inserida em uma das áreas mais emblemáticas do Cerrado brasileiro.

Entre os destaques, ele cita o Parque Estadual dos Pireneus, considerado o ponto mais alto da região, com campos rupestres, formações rochosas marcantes e rica biodiversidade. Também destaca a Cidade de Pedra, monumento natural que impressiona pelas formações geológicas e pelas paisagens que oferecem uma visão privilegiada do bioma.

Foto – Monique Renne

Somam-se a isso dezenas de cachoeiras espalhadas pelo município, responsáveis por consolidar Pirenópolis como um dos principais destinos de ecoturismo do País.

A cidade também abriga um dos conjuntos históricos mais preservados do Centro-Oeste. Entre os bens que integram esse acervo, estão a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e o Museu de Arte Sacra do Carmo, o Museu das Artes do Divino, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, o Theatro Sebastião Pompeu de Pina (Teatro de Pirenópolis) e o Cine Teatro Pireneus, entre outras edificações históricas.

A gastronomia também integra esse patrimônio vivo. Considerada um dos principais polos gastronômicos de Goiás, Pirenópolis reúne desde a culinária tradicional goiana até restaurantes contemporâneos, preservando receitas que ajudam a manter viva a identidade cultural da região.

Outro diferencial está nas manifestações populares. Festas como as Cavalhadas e a Festa do Divino Espírito Santo atravessam gerações e reforçam a riqueza do patrimônio imaterial da cidade.

Pirenópolis e as cidades já reconhecidas

No Brasil, há um número restrito de cidades na lista do Patrimônio Mundial da Unesco. No Centro-Oeste, apenas a Cidade de Goiás e Brasília receberam esse reconhecimento. Caso obtenha o título, Pirenópolis se tornará o terceiro município da região a integrar essa lista.

Para Mendonça, a comparação com a Cidade de Goiás é inevitável.

“A Cidade de Goiás demonstrou que é possível preservar um conjunto urbano histórico e, ao mesmo tempo, transformá-lo em referência internacional. Pirenópolis reúne características semelhantes: patrimônio arquitetônico preservado, tradições culturais vivas, importância histórica e uma paisagem natural que amplia ainda mais seu valor”, lembra. Ele ressalta que a relação entre as duas cidades remonta ao período colonial.

Na época, o então Arraial de Meia Ponte, atual Pirenópolis, e o Arraial de Santana, hoje Cidade de Goiás, disputavam protagonismo político e econômico na antiga Capitania.

Houve, inclusive, uma disputa para definir qual dos dois arraiais seria elevado primeiro à condição de vila. A escolha acabou favorecendo a Cidade de Goiás, em razão de fatores ligados à ocupação territorial e à organização das bacias hidrográficas.

Apesar disso, Pirenópolis acumulou protagonismos próprios ao longo da história. Foi ali que se instalou a primeira tipografia de Goiás, responsável pela impressão do Matutina Meiapontense, considerado o primeiro jornal publicado no Estado e um marco da imprensa goiana.

Selo fortalece a economia

O impacto do reconhecimento da Unesco vai muito além do turismo. O título de Patrimônio Mundial representa novas oportunidades de desenvolvimento econômico. Essa é a visão da empreendedora Adriene Melo, proprietária da Amarela Ateliê, especializada em curadoria de roupas e acessórios autorais.

Como moradora, ela enxerga o reconhecimento como uma forma de ampliar a visibilidade de Pirenópolis no cenário internacional e valorizar ainda mais seu patrimônio cultural. Como empreendedora, acredita que o título fortalece a economia ao atrair visitantes interessados não apenas em conhecer a cidade, mas em vivenciar  a história, cultura e produção locais.

Segundo Adriene, o público atraído por destinos reconhecidos pela Unesco costuma buscar experiências autênticas, valorizando produtos artesanais, design independente e iniciativas que preservam a identidade do território.

“É um visitante que busca autenticidade. Valoriza experiências genuínas e se conecta com negócios que têm propósito e identidade. Ateliês, artistas, artesãos e pequenos empreendedores passam a dialogar com um público que reconhece o valor da produção local e das expressões culturais.”

A própria trajetória da Amarela Ateliê nasceu dessa conexão com Pirenópolis. Para Adriene, a cidade a inspira diariamente e influencia diretamente a curadoria das peças oferecidas aos clientes.

“Pirenópolis tem um ritmo próprio e uma beleza que não depende de tendências. A arquitetura histórica, a natureza e a força do artesanato fazem parte da essência da cidade e inspiram tudo o que fazemos. Buscamos marcas e peças que carregam histórias, processos manuais e uma identidade singular, porque acreditamos que vestir também é uma forma de expressar cultura.”

Para ela, um eventual reconhecimento da Unesco reforça justamente aquilo que faz de Pirenópolis um destino especial: sua autenticidade.

“A cidade nos lembra todos os dias da importância de valorizar o que é verdadeiro, o que tem história e propósito. É essa autenticidade que encanta quem chega e que pode ganhar ainda mais força com um reconhecimento de alcance mundial.

Adriene Melo

O precedente goiano

Às vésperas de completar 300 anos, Cidade de Goiás mostra como o reconhecimento da Unesco fortaleceu o patrimônio, impulsionou o turismo e projetou o município internacionalmente

Por Rafael Vaz

Enquanto Pirenópolis mobiliza instituições e especialistas para conquistar o título de Patrimônio Mundial da Unesco, outro município goiano já demonstra, na prática, o impacto desse reconhecimento. A Cidade de Goiás, antiga capital do Estado, integra a lista do Patrimônio Mundial desde 2001 e se prepara para celebrar, em julho de 2027, seus 300 anos de fundação com uma programação que une preservação, cultura, turismo e desenvolvimento econômico.

A comemoração do tricentenário começou a ser estruturada ainda neste ano e reúne secretarias municipais, instituições públicas, entidades culturais e parceiros estratégicos. Entre eles, está a própria Unesco, que participa da construção de projetos voltados à preservação do patrimônio histórico, à valorização das manifestações culturais, ao fortalecimento da educação patrimonial e à ampliação do turismo cultural.

Mais do que celebrar uma data histórica, o objetivo é utilizar o aniversário como uma oportunidade para consolidar a Cidade de Goiás como referência nacional e internacional em patrimônio cultural, ampliando a sua capacidade de atrair visitantes, investimentos e novas oportunidades de negócios.

Fundada em 25 de julho de 1727, a antiga Vila Boa preserva um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos coloniais do Brasil. Casarões, igrejas, ruas de pedra e manifestações culturais centenárias fazem parte de um patrimônio que, em 2001, recebeu da Unesco o reconhecimento por seu excepcional valor histórico e cultural.

Desde então, o município consolidou a sua vocação para o turismo histórico. Eventos tradicionais, como a Procissão do Fogaréu, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) e diversas manifestações religiosas e culturais ganharam ainda mais projeção, fortalecendo a economia criativa e movimentando setores como hotelaria, gastronomia, comércio e serviços.

O reconhecimento internacional também ampliou a responsabilidade com a preservação do patrimônio. Ao longo dos últimos anos, investimentos em restauração, conservação do Centro Histórico e ações de educação patrimonial passaram a integrar a estratégia de desenvolvimento do município, reforçando a ideia de que preservar a história também significa criar oportunidades para as próximas gerações.

É justamente esse modelo que inspira a candidatura de Pirenópolis. Assim como a Cidade de Goiás, o município reúne um conjunto arquitetônico preservado, tradições centenárias, festas populares reconhecidas e uma forte identidade cultural. A diferença é que, agora, busca dar um passo além: conquistar a chancela da Unesco e ingressar no seleto grupo de cidades consideradas patrimônios de toda a humanidade.

Patrimônios Mundiais brasileiros

Alguns exemplos reconhecidos pela Unesco:

Ouro Preto (MG)
Olinda (PE)
Salvador (BA)
Brasília (DF)
Centro Histórico de Goiás (GO)
São Luís (MA)
São Cristóvão (SE)
Parque Nacional do Iguaçu (PR)
Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO)
Parque Nacional das Emas (GO)
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