Ano 26 – 1981 – Cooperativismo ganha força no começo dos anos 1980
Por Leandro Resende
No dia 2 de abril de 1981, representantes de cooperativas goianas se reuniram para fazer, no papel e no voto, aquilo que a prática já vinha desenhando desde o ano anterior: entregar formalmente a presidência da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCEG, hoje OCB/GO) a Jales Rodrigues Naves. Era um ritual que se confirmou de fato na assembleia.
Eleito vice ao lado de Luiz Alberto de Lorenzzo, em 1979, Jales já aparecia à frente da entidade desde a assembleia de 7 de abril de 1980. Agora, o protagonismo ganhava mandato e prazo: um triênio, de 1981 a 1984, com Paulo Roberto Cunha na vice-presidência.
Enquanto o comando na entidade cooperativista se firmava, a economia no País patinava. O Brasil de 1981 entrou para a história econômica como o ano da primeira grande recessão do pós-guerra. O Produto Interno Bruto encolheu 4,5%, depois de anos seguidos de forte expansão. O então ministro Delfim Netto, à frente do Planejamento, apertou a absorção interna para conter o rombo nas contas externas, e o cooperativismo sentiu o aperto na sua área mais sensível: a do crédito.
Os juros internacionais dispararam, o custo do dinheiro subiu e o generoso crédito rural subsidiado, que ajudara a abrir o Cerrado, começava a minguar, corroído pela correção monetária. Esse era o cenário caótico daquele ano, que marcava também o início do processo da abertura política e a discussão de eleições gerais. A economia ruim acelerou este processo.
Para o campo goiano, o recado era direto: quem estivesse sozinho pagaria mais caro. E foi nesse ambiente que a lógica cooperativista deixou de ser conveniência para virar estratégia de sobrevivência.
Comprar e armazenar insumos em conjunto, assim como negociar a safra em grupo de produtores, passou a fazer a diferença entre o lucro e o prejuízo. Em Rio Verde, a cooperativa Comigo, que fechara a década anterior prometendo deixar de ser apenas armazenadora, dava passos concretos rumo à industrialização, entendendo que agregar valor à produção era a melhor defesa contra a instabilidade dos preços e do câmbio.
A soja, que chegara em caravanas de migrantes sulistas, consolidava-se nos chapadões das Regiões Sudoeste e do Sul do Estado. E, com ela, crescia a demanda por estrutura: recepção, secagem, armazenagem, escoamento.

As cooperativas agropecuárias, que, na virada dos anos 1970, ainda engatinhavam, viam-se empurradas a crescer no mesmo ritmo da lavoura. Enquanto a economia nacional recuava, o mapa produtivo de Goiás avançava. E, cabia ao movimento cooperativista organizar parte desse avanço, para que a riqueza gerada no campo não se perdesse no caminho até o mercado. E o melhor: para que fosse distribuída no Estado.
Coube à nova diretoria de Jales Rodrigues Naves administrar esse paradoxo: fazer o cooperativismo goiano crescer justamente quando o País mandava frear. Não era tarefa modesta. Exigia representar o setor diante de um governo que cortava subsídios, defender o crédito de quem produzia alimento e, ao mesmo tempo, preparar as cooperativas para uma década que já nascia mais dura e mais competitiva do que a anterior.
Ano 27 – 1982 – A crise bate à porta e o voto volta às urnas
No dia 15 de novembro de 1982, pela primeira vez em 17 anos, os brasileiros voltaram às urnas para escolher diretamente os seus governadores. O ano terminou com o País fazendo duas contas ao mesmo tempo: a dos votos e a das dívidas. Em Goiás, o resultado foi estrondoso: Iris Rezende, da oposição, elegeu-se com 66,72% dos votos, um recorde estadual que resistiria ao tempo.
Com forte apelo junto ao mundo rural, Iris chegava ao Palácio das Esmeraldas prometendo aproximar o Governo do homem do campo, em um momento em que o campo mais precisava de aliados.
Enquanto a democracia ensaiava os seus primeiros passos, a economia despencava (como se já não fossem suficientes os tombos de 1981). Em agosto, o México declarou que não conseguiria pagar a sua dívida externa e, num efeito dominó, arrastou toda a América Latina para a maior crise financeira da sua história. O Brasil, endividado em dólares e a juros flutuantes, viu as portas do crédito internacional se fecharem.
A inflação beirou os 100% ao ano, e o governo João Figueiredo, esgotadas as alternativas, batia à porta do Fundo Monetário Internacional (FMI). Fechou um acordo, que teve o anúncio adiado, não por acaso, para depois das eleições. Era o começo de uma história que perduraria por mais de uma década.

Para o cooperativismo goiano, presidido por Jales Rodrigues Naves, a crise da dívida não era apenas assunto de página econômica de jornal: doía na prática. O que chegava na conta do produtor era o preço do adubo importado, o juro do financiamento da safra, a dificuldade de rolar o passivo das cooperativas que haviam investido em armazéns e indústrias.
O crédito rural, antes farto e barato, tornava-se escasso e caro. Nesse cenário, a força da cooperativa estava, mais uma vez, na escala: só o conjunto conseguia comprar melhor, estocar para vender na entressafra e resistir à sangria dos preços.
A crise, contudo, não atingia todos os ramos da mesma forma. Enquanto o agro sentia o corte do crédito e a alta dos insumos, as cooperativas de saúde, como a Coopanest-GO e a Unimed Goiânia, encontravam na retração da renda das famílias um público que buscava, na cooperação, uma alternativa ao encarecimento dos serviços privados.
E o cooperativismo de crédito, ainda incipiente em Goiás, começava a mostrar sua vocação de refúgio: onde o banco fechava a torneira, a poupança organizada dos próprios cooperados podia manter o financiamento vivo. Era a demonstração prática de que o modelo servia tanto na bonança quanto na escassez.
E, apesar de tudo, Goiás produzia. A soja avançava, o Sudoeste se firmava como fronteira agrícola de ponta e a Comigo, em Rio Verde, seguia sua trajetória rumo à indústria, símbolo de um cooperativismo que decidira não apenas guardar a safra, mas transformá-la. O paradoxo dos anos 1980 se aprofundava: quanto pior a macroeconomia, mais indispensável se tornava a organização cooperativa, para que o produtor goiano não fosse engolido pela instabilidade.
Como tem mostrado o caderno especial 70 Anos da OCB/GO, o papel da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCEG, hoje OCB/GO) tinha, em sua diretoria, liderada por Jales Rodrigues Naves, uma dupla missão em 1982: blindar o setor contra a tempestade financeira e ler, nos sinais das urnas, que um novo tempo político começava. A eleição de Iris Rezende sinalizava que o diálogo entre o cooperativismo e o poder público ganharia, dali em diante, novos interlocutores e novas oportunidades.














