Em junho de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 14,25% ao ano, terceiro corte consecutivo em um ciclo que o Banco Central conduz com a prudência exigida por uma inflação ainda acima da meta. No mesmo mês, a Serasa contabilizou 83,5 milhões de brasileiros com o nome negativado, mais da metade da população adulta, e 8,1 milhões de CNPJs em situação de inadimplência. O contraste entre a sinalização monetária e o balanço real das famílias e empresas não é coincidência. É a fotografia mais nítida do desafio que o País precisa enfrentar nos próximos trimestres, quem sabe, anos.
Para o pequeno e médio empresário, esse cenário tem tradução muito direta: crédito mais caro, ciclo financeiro alongado, clientes que pagam com atraso e bancos que reduzem apetite de risco exatamente quando o negócio mais precisa de fôlego. É nessa dobradiça que o cooperativismo financeiro exerce uma função que costuma passar despercebida na leitura macroeconômica do País, a de agente estrutural, e não cíclico, do crédito brasileiro.
A distinção é técnica, mas tem efeito concreto, pois instituições comerciais, por sua natureza societária e pelo compromisso de remunerar acionistas, tendem a recolher exposição em momentos de aperto. Com prudência e governança, a cooperativa de crédito pode fazer um caminho alternativo. Como sintetizou Marco Aurélio Almada, diretor-presidente do Sicoob, durante o AgroCoop Summit, realizado em Brasília em maio, a instituição “não abandona na crise e cresce junto na prosperidade”.
A frase e forte, relevante e reveladora do perfil do sistema cooperativo. Resume um modelo no qual o cooperado é, simultaneamente, dono, tomador de crédito e parte interessada na continuidade da operação, com um alinhamento que altera a função de risco. No caso, risco é não estar ao lado do cooperado quando ele mais precisa.
Os números traduzem essa diferença. As taxas médias praticadas pelo Sicoob em pessoa física e jurídica são significativamente menores que as do Sistema Financeiro Nacional. No cheque especial empresarial, a diferença supera oito pontos porcentuais ao mês. Em tarifas, o pacote de pessoa jurídica custa, em média, menos de um sexto do cobrado pelos bancos tradicionais.
Não se trata de subsídio nem de promoção comercial, mas consequência matemática de uma instituição que devolve ao cooperado, em forma de sobras e de condições mais competitivas, o que seria distribuído como lucro a acionistas externos.
Há ainda uma dimensão menos visível e mais relevante neste momento. Em mais de 420 municípios brasileiros, o Sicoob é a única instituição financeira presente fisicamente. Em parcela expressiva do interior do País, o crédito que sustenta folha de pagamento, capital de giro e investimento produtivo passa, na prática, por uma cooperativa.
Essa capilaridade converte o Sistema em um canal de transmissão da política monetária mais sensível à realidade regional do que a média do mercado, exatamente quando o ciclo de cortes da Selic precisa chegar ao crédito real sem demora. Em um Brasil que conciliará, nos próximos trimestres, combate à inflação, preservação do emprego e retomada do investimento, o cooperativismo financeiro não é alternativa marginal. É infraestrutura econômica.

Raimundo Nonato Leite Pinto,
Presidente da Central Sicoob Uni.














