A discussão sobre o fim da escala 6×1 segue mobilizando empresas de todo o Brasil e, para especialistas em gestão e planejamento financeiro, o momento atual deve ser encarado como uma oportunidade para análise e preparação. Ainda que a proposta não tenha uma definição imediata, os possíveis impactos sobre custos, equipes e processos já exigem atenção por parte dos gestores.
A proposta de emenda à Constituição (PEC nº 221/2019) representa a maior mudança na gestão de pessoas nas últimas décadas. Em análise no Senado Federal após aprovação na Câmara dos Deputados, o texto estabelece uma jornada de trabalho máxima de 40 horas semanais e dois dias de descanso para cada cinco trabalhados. Mas o que muitas empresas ainda não mapearam é que o prazo de transição previsto, de até 14 meses para a implementação total, representa uma oportunidade para modernizar processos e culturas internas.
Para Nayara Pereira, sócia-diretora de operações e gestão de pessoas da KBL Contabilidade e sócia-membro do Tax Group, o maior erro das empresas é esperar que a mudança se torne lei para iniciar estudos sobre os seus reflexos financeiros e operacionais.
“Muitas empresas entendem a perda de urgência da pauta como uma pausa no problema, mas a discussão continua acontecendo. O ideal é aproveitar esse momento para construir cenários e compreender quais seriam os impactos reais sobre a operação, a folha de pagamento e os resultados do negócio. Quando a mudança chega, quem já simulou os impactos decide melhor. Quem não simulou, apenas reage”, afirma.
Segundo a especialista, alterações na escala de trabalho não afetam apenas a área de recursos humanos. Dependendo do setor, podem exigir reestruturação de equipes, contratação de novos profissionais, revisão de processos, adequações na precificação de produtos e serviços e mudanças significativas na rotina operacional.
Mudança exige olhar para pessoas e números
Para a consultora empresarial e especialista em gestão de pessoas Lorranny Sousa, CEO da Acelere e diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), a mudança não deve ser encarada somente como uma obrigação legal, mas também como um movimento estratégico.
“A transição de 14 meses é uma janela de desenvolvimento organizacional que a maioria das empresas ainda não começou a mapear. O erro comum é esperar a promulgação da lei para reagir, quando o ideal é usar esse tempo para revisitar a estrutura de trabalho, focar em eficiência e preparar as lideranças para uma gestão baseada em resultados, e não apenas em horas de presença”, avalia.
Sem a pressão imediata da lei, se adiantar à PEC permite que a empresa teste diferentes modelos de flexibilidade até encontrar o que melhor funciona para a sua própria operação. Um ponto de partida é mapear processos, ajudando a identificar tarefas repetitivas que podem ser eliminadas ou automatizadas com o uso de inteligência artificial, por exemplo.

Para Nayara Pereira, o planejamento prévio é especialmente importante para empresas dos setores de varejo, serviços, indústria e operações de atendimento contínuo, nas quais qualquer alteração na jornada pode impactar diretamente produtividade, escalas e custos.
“Quando falamos em mudança de escala, estamos falando também de margem de lucro, necessidade de equipe, produtividade e estratégia. Empresas que simulam cenários conseguem tomar decisões com mais segurança e previsibilidade. Já aquelas que deixam para agir apenas quando a mudança se torna urgente acabam assumindo riscos maiores e tomando decisões sob pressão”, destaca.
A especialista reforça que, independentemente do ritmo de tramitação da proposta, a necessidade de gestão e inteligência financeira já está posta. “O projeto pode avançar mais rápido ou mais devagar, mas empresas maduras não esperam a pauta acelerar para começar a pensar. Elas analisam riscos, projetam custos, revisam processos e entendem o que pode acontecer antes que a decisão vire urgência”, conclui.














