ANO 19 – 1974 – A voz do cooperativismo em favor do crédito
Por Leandro Resende
Era 21 de fevereiro de 1974 e Goiânia recebia uma reunião de peso: representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do Banco Central, além dos secretários de Agricultura e de Educação do Estado, juntos, na sede da Cooperativa Central Rural de Goiás. O governador Leonino di Ramos Caiado, nomeado pelos militares, era o anfitrião institucional.
Mas a voz que dominou o encontro não era a de um político nem a de um funcionário federal, mas a de José de Campos Melo, jurista paulista. Melo era um dos mais influentes quadros da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), onde acumulara, ao longo de 12 anos, os cargos de superintendente, assessor jurídico e membro do extinto Conselho Nacional do Cooperativismo (CNC).

Naquele fevereiro, ele estava visivelmente incomodado com uma medida específica: o Banco Central havia proibido que as cooperativas realizassem operações de crédito de repasse, um instrumento fundamental para que as cooperativas rurais conseguissem financiar a produção de seus associados.
Para Melo, era uma contradição inaceitável entre o discurso governamental de apoio ao setor e as políticas efetivamente praticadas. Disse-o em público, diante de todos: que a supressão do crédito de repasse era a sua maior desilusão no movimento cooperativista.

Em um País em momento político delicado e de controle militar, com o governo Médici encerrando o seu mandato naquele mesmo mês, falar dessa forma, numa reunião aberta com representantes federais, exigia uma coragem que os cooperados goianos não esqueceriam.
A cena traduzia a contradição estrutural daquele momento. A Lei nº 5.764/1971 havia dado ao sistema uma arquitetura institucional mais sólida e reconhecida, mas os gargalos operacionais persistiam. Em Goiás, onde a expansão agrícola rumo à Região Sudoeste ganhava velocidade, a falta de crédito acessível era um freio concreto ao potencial das cooperativas rurais.
A OCG, sigla que havia substituído OCEG, precursora da OCB/GO, após a reestruturação de 1973 seguia consolidando a sua consolidando sua presença no Estado sob a presidência de Vicente Benjamim de Albuquerque. As metas do Prodeco Goiás, desenhadas no ano anterior, avançavam: visitas às cooperativas do interior, suporte técnico, articulação com o Governo Estadual.
O cooperativismo goiano também dava passos além do campo. Em 14 de outubro de 1974, trinta e oito médicos anestesiologistas reunidos em Goiânia fundaram a Cooperativa dos Anestesiologistas do Estado de Goiás (Coopanest-GO). Era uma iniciativa pioneira: a primeira cooperativa de especialidade médica do Brasil, e que se tornaria cofundadora da Federação Brasileira das Cooperativas de Anestesiologia (Febracan).
O movimento cooperativista goiano demonstrava, assim, que a sua força não se limitava ao Cerrado e à lavoura, mas alcançava também os centros urbanos e as profissões liberais.
No sudoeste goiano, em Rio Verde, produtores rurais que se reuniam informalmente às margens da BR-060 já maturavam algo maior do que reclamações sobre sacaria e secadores. Maturavam uma cooperativa. Goiás estava prestes a revelar a sua face mais produtiva, com o cooperativismo sendo instrumento desta expansão.
Ano 20 – 1975 – Comigo, um marco no cooperativismo goiano
No dia 6 de julho de 1975, cinquenta produtores rurais se reuniram em Rio Verde e assinaram o ato de fundação da Cooperativa Mista dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo). A cooperativa nascia de uma necessidade prática e urgente: sacaria, insumos, armazéns e secadores para o arroz que a região começava a produzir em escala.
Esses homens, muitos deles migrantes vindos de outros estados em busca de um Cerrado aberto pelo avanço das estradas e pelos incentivos federais, não fundaram apenas uma cooperativa. Fundaram um modelo que definiria a identidade agroindustrial do sudoeste goiano.

O contexto nacional era de reorientação estratégica. O general Ernesto Geisel havia assumido a presidência em março, com um programa de distensão política e um ambicioso plano de industrialização pesada. O Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) canalizou recursos para o agronegócio, financiou a pesquisa da Embrapa – criada dois anos antes – e empurrou o Cerrado brasileiro para dentro do mapa produtivo do País. Goiás, com as suas imensas extensões de solo ácido corrigível pela calagem, estava no centro dessa estratégia.
A fronteira agrícola se materializava em crescimento econômico, além de formação e expansão de cidades e de polos de negócios no interior de Goiás: era uma política de Estado. Os produtores do sudoeste goiano entenderam, antes de muitos, que a cooperação era o único caminho para aproveitá-la com escala.
Em Goiânia, a OCG, precursora da OCB/GO, acompanhava o movimento com atenção renovada. A entidade, reconstruída após a crise de 1973, tinha agora uma diretoria estável e relações restabelecidas com a OCB nacional. A fundação da Comigo era exatamente o tipo de resultado que justificava o trabalho de articulação feito nos anos anteriores: uma cooperativa agropecuária organizada, com sede física, projeto de crescimento e capacidade de transformar a produção regional.
O ano de 1975 ainda reservava outra fundação relevante no plano nacional. Em 28 de novembro, era criada a Confederação Nacional das Cooperativas Médicas – a Unimed do Brasil –, fruto da expansão do modelo pioneiro iniciado em Santos. A confederação passava a zelar pela marca Unimed e a representar institucionalmente as cooperativas médicas em todo o território nacional.
Em Goiânia, o espírito cooperativista médico também ganhava força: três anos depois, em 1978, a capital goiana teria a sua própria singular – a Unimed Goiânia, fundada por 49 médicos e destinada a se tornar uma das maiores do Sistema Unimed no Brasil, como veremos no capítulo 23 do caderno especial dos 70 anos da OCB/GO.
O Cerrado e a saúde, o campo e a cidade, movimentos distintos que alimentavam o impulso cooperativista. O ano de 1975 não foi apenas um ano de fundações – foi o momento em que Goiás deixou de ser coadjuvante e passou a escrever, com letras próprias, a sua história no cooperativismo nacional.














