EDITORIAL
Sete décadas fortalecendo a economia de Goiás
Leandro resende, Editor-chefe e publisher da revista Leitura Estratégica
Setenta anos não são apenas um marco institucional. São um retrato vivo da transformação econômica e social de um Estado. A trajetória do Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras em Goiás (OCB/GO) confunde-se, em grande medida, com o próprio processo de modernização da economia goiana e um avanço da profissionalização das empresas no Estado.
Quando as primeiras cooperativas começaram a se organizar de forma mais estruturada no Estado, Goiás ainda era uma economia em formação, marcada por atividades primárias e por um mercado pouco integrado. O cooperativismo surgiu, então, como uma resposta prática à necessidade de organização produtiva, acesso a crédito, escala e competitividade. Foi uma solução coletiva para desafios individuais. Não era invenção, pois o modelo já completava um século e era sucesso na Europa.
Ao longo dessas sete décadas, a OCB/GO – que hoje, junto com o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo em Goiás (SESCOOP/GO), compõe o Sistema OCB/GO –, acompanhou e, muitas vezes impulsionou, a profissionalização de vários setores da economia goiana. No campo, as cooperativas ajudaram a transformar a produção agropecuária em um sistema empresarial, com governança, gestão e capacidade de competir em mercados nacionais e internacionais.
Só para ilustrar e trazer para o presente, a maior operação empresarial em Goiás, hoje, é uma cooperativa, a Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo), com receita anual superando, em 2025, R$ 14 bilhões. Na cidade, o cooperativismo avançou em áreas como crédito, saúde, transporte, reciclagem e serviços, entre outras, ampliando sua presença e relevância na sociedade.
Apesar do sucesso dos números, a margem para expansão ainda é grande. Pois não se trata apenas de dados e estatísticas, embora eles impressionem. Cooperativas geram emprego, renda e oportunidades em centenas de municípios. Mais do que isso, representam um modelo econômico baseado na participação, na responsabilidade coletiva e na distribuição de resultados.
Essa evolução também exigiu adaptação institucional. O cooperativismo goiano amadureceu, diversificou os ramos e fortaleceu sua estrutura de representação. Hoje, cooperativas de crédito, agropecuárias, de saúde, transporte, trabalho, infraestrutura e consumo compõem um ecossistema cada vez mais robusto. A intercooperação, antes um ideal, tornou-se uma prática necessária para enfrentar um ambiente econômico cada vez mais competitivo e tecnológico.
O desafio das próximas décadas será manter essa capacidade de adaptação. Inovação, formação de lideranças, comunicação com a sociedade e uso de tecnologia serão fatores decisivos para que o cooperativismo continue relevante. Nesse sentido, iniciativas voltadas à capacitação e à formação cooperativista mostram que o movimento compreende bem a dimensão estratégica do conhecimento.
Celebrar 70 anos da OCB/GO é reconhecer uma instituição que participou diretamente de um dos períodos mais importantes da história econômica do Estado: o da profissionalização de sua produção, da organização de seus agentes econômicos e da construção de um ambiente mais moderno de negócios.
O cooperativismo ajudou Goiás a crescer. E, ao que tudo indica, continuará sendo parte fundamental do seu futuro. A Leitura Estratégica vai contar, nos próximos meses, em 70 capítulos, essa história grandiosa e, cada vez mais, reconhecida pela sociedade e por segmentos empresariais do Estado.

Apresentação
O legado que nos move
Luís Alberto Pereira, Presidente do Sistema OCB/GO
Celebrar sete décadas de uma instituição como a OCB/GO exige, antes de tudo, um olhar de profunda gratidão e uma reflexão honesta sobre a nossa trajetória. Quando olhamos para a robustez e a solidez do cooperativismo goiano hoje, é preciso ter a humildade de reconhecer que não chegamos aqui por acaso. Somos o resultado direto do sonho e da coragem de visionários que, lá em 1956, entenderam que a união era a única resposta para os desafios de um Estado que começava a se desenhar no mapa do progresso brasileiro.
Desde os líderes abnegados que enfrentaram as incertezas daquela época até o cooperado anônimo que, com seu trabalho silencioso e resiliente, manteve a chama acesa, todos são os verdadeiros construtores desta história. Temos o orgulho de carregar um legado que não nos pertence apenas como patrimônio institucional, mas como uma responsabilidade moral compartilhada com as próximas gerações. Construir e resgatar a história é um dever cidadão.
O cooperativismo não é um modelo econômico estático ou meramente teórico, ele é uma força viva que se manifesta em cada elo da nossa sociedade. Ele possui a capacidade única e transformadora de estar “dos dois lados da mesa” simultaneamente. Em nosso ecossistema, as fronteiras entre capital e trabalho se diluem em prol do bem comum: somos, ao mesmo tempo, trabalhadores que buscam dignidade e empresários que geram riqueza e desenvolvimento.
Essa dualidade é o que nos confere equilíbrio e uma visão humanizada do mercado. O real valor do que construímos atinge a todos, sem distinção. Quem é cooperado sente o benefício direto na gestão e na escala de seus negócios, mas quem não é cooperado também é impactado positivamente todos os dias, seja ao consumir um produto de qualidade que chega à sua mesa ou ao utilizar um serviço que nasce da nossa eficiência coletiva.
Hoje, a OCB/GO ocupa um lugar de máxima autoridade e representatividade em Goiás. Atuamos com a complexidade e a agilidade que o mundo moderno exige de grandes players econômicos, abraçando com o mesmo rigor setores que vão da força inquestionável da agropecuária e da indústria à versatilidade do comércio e dos serviços, ao impacto vital do terceiro setor.
Essa capilaridade vasta exige de nossa direção um conhecimento técnico e, acima de tudo, um olhar amplo. Não se lidera um movimento desta magnitude olhando apenas para dentro. A liderança moderna no cooperativismo pressupõe integração total, respeito máximo às entidades coirmãs e um diálogo constante e ético com todos os agentes que compõem a engrenagem econômica do nosso Estado e do País.
Para além disso, a OCB/GO assume um papel fundamental como indutor e suporte para políticas públicas que envolvam os setores que atuamos ou qualquer movimento que represente o cooperativismo. Atuamos de forma proativa junto aos poderes Executivo e Legislativo, instituições do terceiro setor e demais agentes públicos, para pavimentar um ambiente favorável ao desenvolvimento econômico e social. Como a voz legítima dos cooperados, estamos presentes em todo debate ou projeto, garantindo que o cooperativismo seja protagonista na construção de uma sociedade mais equilibrada e acessível.
Neste marco de 70 anos, em parceria com a revista Leitura Estratégica, nossa missão é também de justiça histórica. É o momento de elevar ao lugar de merecimento cada pioneiro, cada voluntário e cada família que acreditou na cooperação, quando o horizonte ainda era de poeira e incertezas.
Eles foram os desbravadores que ergueram os alicerces desta estrutura que hoje sustenta e dá segurança a milhares de lares goianos. Sentimos um profundo respeito por esse passado, mas é esse mesmo respeito que nos impulsiona a agir com audácia no presente.
Olhamos para o futuro com a sobriedade de quem conhece suas raízes, mantendo a clareza de quem compreende sua relevância. O cooperativismo goiano não é apenas um modelo de negócio, é o próprio motor de um exemplo de desenvolvimento que combina eficiência produtiva com justiça social. Ao celebrarmos este jubileu, reafirmamos o compromisso de continuar crescendo, inovando e, principalmente, honrando o trabalho de cada homem e mulher que fez da OCB/GO esta fortaleza que hoje todos admiramos. Obrigado a todos.

ANO 1
A formação do cooperativismo goiano
Caderno especial conta a saga da OCB/GO e do coop goiano, em 70 capítulos
Leandro Resende
Goiânia, 2 de outubro de 1956. Enquanto o Brasil voltava os seus olhos para o Planalto Central, onde o “presidente Bossa Nova”, Juscelino Kubitschek, começava a erguer a nova capital, um grupo de idealistas se reunia em uma sala apertada no Centro de Goiânia para erguer, ainda sem saber, o que seria um dos fortes pilares da economia goiana.
No Edifício Rita de Albuquerque, na Rua 8, hoje mais conhecida como Rua do Lazer, 14 pioneiros do cooperativismo goiano ocupavam o pequeno espaço, 12 metros quadrados, com ideias que se mostrariam grandes. Nascia ali a União das Cooperativas do Estado de Goiás (UCEG), o primeiro capítulo da história que hoje conhecemos como OCB/GO. História que será contada em 70 capítulos na revista Leitura Estratégica.
O cenário
Para entender a fundação da UCEG, é preciso um olhar amplo sobre o Estado naquele momento, nos anos 1950. Goiás era um Estado de economia primária, mas promissora. A “Marcha para o Oeste”, iniciada por Getúlio Vargas e intensificada por JK, transformou o Estado em um ímã de migrantes e imigrantes. Mineiros, maranhenses e baianos chegavam com a esperança na bagagem e a força do braço para desbravar a terra fértil. Pelos navios, chegavam árabes, japoneses e europeus.
O Governo Federal via no cooperativismo o melhor caminho para fixar o homem no campo e garantir que o alimento chegasse à mesa de uma população que crescia em ritmo acelerado. O cooperativismo, na mesma época, iniciava uma expansão pelo País e em Goiás, com apoio estatal. Contudo, o movimento já ganhava força desde o começo do século, com raízes germânicas e italianas, especialmente na Região Sul, com cooperativas de crédito e agropecuárias.
Em 1933, Getúlio já dizia: “O cooperativismo é o veículo de defesa do produtor”. E, em 1956, essa semente finalmente encontrou o solo ideal em Goiás.
A assembleia dos pioneiros
A primeira ata da UCEG, redigida com o rigor técnico de Laert Ferreira de Araújo, não deixava dúvidas sobre o propósito daquele encontro: “Constituir uma associação que pudesse atuar, como órgão de classe, na defesa e propagação do verdadeiro cooperativismo”.
Mas não eram apenas produtores rurais naquela sala. O grupo era um mosaico da sociedade goiana: juristas, professores, bancários e políticos. No comando da UCEG, José de Assis Moraes. Natural de Silvânia, economista formado em São Paulo e produtor rural, Moraes era o elo perfeito entre a técnica e a prática. Com experiência como prefeito de Rio Verde e deputado estadual, ele sabia que a força política era o combustível necessário para que o cooperativismo goiano não fosse apenas um conjunto de iniciativas isoladas, mas um movimento organizado.
Ao lado dele, nomes importantes para Goiás, que, hoje, dão nome a ruas e instituições: Orlando Ferreira, Jaime Câmara e Clóvis Fleury, entre outros. Eles foram os arquitetos de uma estrutura que visava o desenvolvimento sustentado, mantendo a unidade doutrinária que o setor exigia.

O difícil começo
Apesar do otimismo, o primeiro ano da UCEG (1956-1957) foi um teste de resiliência. Embora o Brasil já contasse com mais de 3.600 cooperativas e Goiás já tivesse cerca de 50 entidades, a maioria com menos de uma década, a cultura do cooperativismo ainda não estava disseminada.
A UCEG nasceu com poucos recursos. As cooperativas filiadas pouco contribuíam, ainda lutavam para sobreviver. A estrutura era mínima: a única funcionária era uma secretária cedida pelo Incra. Mas o desafio era hercúleo: Como representar um setor tão vasto de dentro de uma sala de 12 metros quadrados?
A resposta estava na visão dos seus fundadores. Eles entenderam que a UCEG não deveria ser um fim em si mesma, mas um elo. Enquanto o Banco Nacional de Crédito Cooperativo (BNCC) oferecia o amparo financeiro, a UCEG oferecia a voz política empresarial e a organização técnica.


Aqueles primeiros meses foram de muito trabalho e convencimento. Cada reunião era uma vitória contra o isolamento geográfico e a falta de recursos – e mostrava que o caminho estava certo. O que se plantava ali, naquela modesta sala do Edifício Rita de Albuquerque, era a consciência de que o cooperado sozinho é frágil, mas unido, ele é dono do seu destino.
O primeiro ano da UCEG terminou com uma lição que perdura até hoje: o cooperativismo não se faz com paredes, faz-se com a união de propósitos, com pessoas e com trabalho. A semente fora lançada. O Cerrado nunca mais seria o mesmo. A partir desta semana, conheça a evolução do cooperativismo em Goiás, capítulo a capítulo. Acompanhe!














