Esqueça tudo o que você conhece da sua empresa, esqueça o que te falaram e o que você achava. O ano de 2026 pivotou o CNPJ e o CPF, dono da empresa, está sentado no sofá assistindo streaming enquanto, no canto da sala, a sua empresa pode estar caminhando para o dificultoso processo de desgaste com clientes, com governo, com tributos e, se tudo der errado, até com colaboradores. Pare, respire e pense. Seu negócio precisa da sua atenção como nunca, e você está agindo como sempre. O chicote, quando chegar, não vai ter dó de bater.
A boa notícia também existe. O sistema tributário brasileiro, pela primeira vez em décadas, ofereceu um ensaio geral. Desde 1º de janeiro, empresas do Lucro Real e do Lucro Presumido convivem com a alíquota-teste do IVA dual: 1% sobre as operações, sendo 0,9% de CBS, a contribuição federal, e 0,1% de IBS, o imposto compartilhado entre estados e municípios. Quem paga imposto já percebeu essa mudança ao preencher a nota fiscal.
Mas ainda tem caráter informativo, há dispensa de penalidades para quem cumpre as obrigações acessórias e o valor recolhido é compensável. Traduzindo do tributarês: o Fisco montou um laboratório, e a cobaia é a sua operação. Sem enfiar o dedo na ferida, por enquanto, mas a dor virá depois e a intensidade depende da sua inteligência de negócio no momento presente.
É aqui que o espelho entra. O 1% não foi desenhado para arrecadar, foi desenhado para revelar. Revelar se o seu ERP conversa com o novo layout da nota fiscal eletrônica, que desde janeiro exige campos específicos de CBS e IBS – nota mal preenchida já corre o risco de rejeição.
Revelar se o seu contador domina a lógica do crédito amplo e da não cumulatividade plena, radicalmente diferente da colcha de retalhos de PIS, Cofins, ICMS e ISS que aprendemos a remendar por décadas.
Revelar se a sua precificação sobrevive a um mundo em que o cliente pessoa jurídica escolhe fornecedor também pelo crédito tributário que a compra gera. Cada campo errado, cada apuração que não bate, é informação gratuita em 2026. A partir de 2027, quando a CBS entra para valer e o PIS/Cofins saem de cena, o mesmo erro vira autuação, multa e margem corroída.
E quem está no Simples Nacional não recebeu salvo-conduto, recebeu adiamento. O regime permanece intocado neste ano, mas em setembro abre-se a primeira janela de decisão sobre o regime híbrido – recolher IBS e CBS por fora do DAS para gerar crédito integral ao cliente.
É escolha que exige simulação de cenários, não achismo de corredor. E exige regularidade fiscal: empresa em débito não escolhe, é escolhida, e geralmente pela pior porta.
O espelho de 2026 não pergunta se você é um bom empresário. Pergunta se a sua empresa, do jeito que está hoje, sobrevive ao sistema que vem aí. Olhar agora dói menos do que descobrir depois. O streaming pode esperar. O cronograma da reforma, não.

Luiz Antônio de Siqueira,
Advogado na LAS Advogados e contador.














