Antes da rotativa, havia o carro de boi. O ano era 1829 e o Império de Portugal negou a Vila Boa, capital goiana, uma tipografia. Eis que o comendador Joaquim Alves de Oliveira não esperou: comprou uma no Rio de Janeiro com o próprio dinheiro e a fez subir o sertão em carro de boi e lombo de burro. Em 1830 nascia, em Meia Ponte (hoje, Pirenópolis), a Matutina Meiapontense, o primeiro jornal do Centro-Oeste. A imprensa goiana começou assim, pelas mãos de um empreendedor que não aceitou o “não” do governo como resposta.
O que veio depois foi construído com a mesma teimosia. O Correio Oficial herdou as oficinas da Matutina. Em 1917, do Rio de Janeiro, Henrique Silva lançou a Informação Goyana para mostrar ao País, com fatos e números, as possibilidades econômicas de um Estado que (muito) pouca gente conhecia. A revista Oeste fotografou, nos anos 1940, a Goiânia que nascia. A Oriente fez dos autores goianos um catálogo. O Popular, dos Câmaras, atravessou gerações, e a dupla Cinco de Março e Diário da Manhã fez barulho quando o silêncio era regra da Ditadura.
Cada um, a seu modo, escreveu sua época – o seu presente e realidade, fotografias on-line de séculos que a imprensa dedicou a Goiás, e, por isso, nos deu um passado (escrito).
Que fique claro: a Leitura Estratégica não se colocamos nessa prateleira maior, sua história só será contada daqui décadas. Hoje, gastamos tinta da caneta. Seria vaidade, e a vaidade é justamente o que combatemos. Mas aprendemos com a história uma lição simples: quem não registra o próprio tempo deixa que outros o contem. E nem sempre do jeito certo – e jornalismo não é marketing.
A Leitura Estratégica nasceu nichada, e de propósito. Fazer uma cobertura da ‘coisa’ privada, entender a realidade de quem decide, falar com quem dirige, com quem empreende. Surgiu com independência, esforço e o apoio de poucos – líderes e empresários visionários que entenderam algo raro: contar a história do setor produtivo é, antes de tudo, um compromisso com as gerações que virão. Não é marketing. É memória.
Chegamos à edição 100.
São mais de 5 mil páginas para contar uma década.
Perfis de quem constrói, opinião qualificada, gestão sem verniz, gargalos e dores de um mercado como ele é. Nessa década em que o agro se fortaleceu como potência global, a indústria se reinventou, o varejo foi parar no smartphone e o Centro-Oeste não é periferia, é centro (nosso novo slogan: O Centro-Oeste e centro).
Estivemos lá, página por página, ouvindo quem faz, e não apenas quem fala. Se você, pesquisador ou historiador, achou esta edição, na nuvem ou em uma hemeroteca digital em 2076, te digo que temos muito orgulho de ter escrito boas linhas sobre a história de um setor produtivo forte, desenvolvimentista e realista – mas acuado.
Acuado porque defende pouco a própria história. Não tem um setor econômico com tanta entidade, mas com tão pouca unidade.
Ano vai, ano vem, e o empresário mantém uma ‘persona’ fragilizada com a sociedade, sendo sempre o culpado da vez – ou todos com pedras nas mãos esperando que o seja – só esperando o apito para começar o apedrejamento. Gera emprego, paga imposto, assume o risco que ninguém quer assumir e, ainda assim, não brota uma inteligência estratégica para se reconstruir essa imagem. Na era da superinformação, as empresas olham apenas para si (e para o próximo trimestre). Produzem dados, relatórios, postagens. Não enxergam o legado que estão deixando esfriar.
É isso que nos incomoda. E é isso que nos move.
A Leitura Estratégica é uma resposta. E uma resistência. A prova, edição após edição, de que o empresário nunca parou – e não pode parar. Atravessa crises, pandemia, juros altos e desconfiança, e segue fazendo. A nós, cabe registrar jornalisticamente, sem ter de passar pano ou bajular. Cabe a ele continuar construindo. E cabe a ambos não deixar que essa história se perca na escuridão das vaidades que dominam essa “praça”.
Cem edições depois, a tipografia ainda sobe o sertão, no lombo da internet.
Boa leitura.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














