Eu já lhe faço um aviso prévio: este texto não pretende ser politicamente correto, mas sim intelectualmente honesto.
Pois bem, como todos já sabem, eu não sou adepto às teorias de psicologia positiva, porque a vida me ensinou que, em ambientes profissionais de alta performance, algumas constatações precisam ser feitas de forma direta, mesmo quando contrariam discursos socialmente confortáveis.
Noutro dia, em razão de uma experiência pessoal e profissional que eu teria de resolver, fui ler um artigo do fundador da XP Investimentos, o economista Guilherme Benchimol, para saber como proceder. No texto, tive uma constatação que passou a nortear minhas tomadas de decisão: esforço, por si só, não tem relação com competência técnica e, em determinadas circunstâncias, costuma dificultar a percepção objetiva da incompetência.
Há, no ambiente de trabalho, importante diferença entre o profissional incompetente que demonstra desinteresse e aquele que, apesar de se dedicar intensamente, não consegue apresentar resultados compatíveis com as exigências da função. O primeiro costuma ser identificado com relativa facilidade, pois os atrasos, a falta de compromisso e a baixa produtividade tornam evidente a inadequação profissional. Em razão disso, a permanência na organização precisa ser curta.
A situação se torna mais complexa quando a incompetência vem acompanhada de esforço. Esse profissional chega cedo, permanece além do horário, demonstra disposição, aceita orientações, participa de cursos e promete corrigir os erros anteriores. Como há dedicação visível, o chefe tende a interpretar as falhas como temporárias e, muitas vezes, concede sucessivas oportunidades na expectativa de que o desempenho finalmente corresponda ao empenho demonstrado.
É nesse ponto que se estabelece uma confusão conceitual relevante. Dedicação e competência são qualidades desejáveis, mas não possuem o mesmo significado. A dedicação diz respeito ao empenho que alguém emprega na realização de uma atividade; a competência, por sua vez, pressupõe conhecimento, capacidade técnica, discernimento, domínio dos procedimentos necessários e condições efetivas para produzir o resultado exigido. É perfeitamente possível, portanto, que alguém seja extremamente dedicado e permaneça tecnicamente insuficiente.
A condescendência da liderança diante desse profissional também produz consequências coletivas. Quando o desempenho inadequado se prolonga, outros trabalhadores precisam revisar tarefas, corrigir erros, assumir responsabilidades adicionais ou compensar atrasos. A organização, consequentemente, passa a suportar os custos de uma expectativa que talvez não encontre fundamento concreto. A boa intenção do empregado merece consideração humana, mas não pode substituir a avaliação objetiva de sua capacidade profissional.
Esse fato tem relação com o Princípio de Peter, formulado pelo psicólogo Laurence J. Peter e pelo dramaturgo Raymond Hull, segundo o qual, em estruturas hierárquicas, as pessoas tendem a ser promovidas até alcançarem funções para as quais já não possuem competência técnica suficiente. Embora apresentado originalmente com forte caráter satírico, o princípio chama atenção para um problema sério: organizações podem valorizar características secundárias e deixar de avaliar, com o rigor necessário, a aptidão técnica exigida por determinado posto. Aliás, isso tem sido um problema contemporâneo nas empresas e nas instituições públicas.
Evidentemente, detectar a incompetência técnica não é ser intolerante ao erro. Pessoas aprendem, profissionais evoluem e insuficiências podem ser corrigidas por meio de estudo, treinamento e orientação adequada. Uma liderança responsável deve oferecer condições para esse desenvolvimento. Ocorre, porém, que deve haver limites objetivos para perceber que o esforço não se converte, após oportunidades razoáveis de aperfeiçoamento, em desempenho técnico satisfatório.
No mundo profissional, boa vontade importa, caráter importa e dedicação importa, mas nenhuma dessas qualidades elimina a necessidade de competência técnica. Quem exerce uma função assume também a responsabilidade de desenvolver os conhecimentos e as habilidades indispensáveis ao seu exercício técnico daquela função.
Por isso, uma cultura profissional verdadeiramente exigente não deve desprezar o esforço, mas também não pode transformá-lo em justificativa permanente para resultados insuficientes.
Então, não tenha dúvida: o trabalho merece dedicação, mas a responsabilidade profissional de entrega exige competência técnica. Reconhecer essa diferença é uma das obrigações mais importantes de quem pretende trabalhar com excelência.

Carlos André Pereira Nunes, linguista, assessor jurídico, professor, advogado especializado em redação de atos normativos, conselheiro da OAB, diretor da Acieg e presidente do Instituto Carlos André.














