A saúde mental no ambiente corporativo tornou-se a pauta da década. No entanto, estamos presenciando uma perigosa romantização de como as empresas lidam com o tema.
Na ânsia de demonstrar empatia e se adequar a novas exigências regulatórias, muitas organizações transformaram os seus departamentos de Recursos Humanos em verdadeiras clínicas de acolhimento psicológico.
Multiplicam-se os aplicativos de terapia, as rodas de escuta e os benefícios de bem-estar.
Embora a intenção de cuidar das pessoas seja genuína e nobre, essa postura esconde uma armadilha jurídica silenciosa: a empresa assume o papel de curadora sem gerenciar a verdadeira causa estrutural, operando na ilusão de que benefícios emocionais reparam a desorganização do trabalho.
O grande equívoco corporativo atual é acreditar que o maior risco dessa abordagem superficial seja uma eventual fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego.
A realidade nua e crua nos mostra que o gargalo não está, e dificilmente estará, na caneta do auditor do MTE. O verdadeiro abismo financeiro reside na avalanche de ações trabalhistas movidas por empregados que, impulsionados por essa mesma romantização, passam a entender que toda e qualquer instabilidade emocional que estão vivenciando é de responsabilidade da empresa.
Vivemos um momento em que a angústia pessoal é rapidamente terceirizada para o crachá, e a Justiça do Trabalho tem sido o palco principal dessa transferência de culpa.
Quando um colaborador aciona o Judiciário alegando que o ambiente corporativo foi o gatilho exclusivo para o seu adoecimento, o Tribunal não quer saber se a empresa oferecia sessões gratuitas de terapia ou massagem laboral.
A Justiça busca provas técnicas e documentais de que a organização do trabalho era salubre e bem dimensionada.
Se a defesa da companhia se baseia puramente no catálogo de ações reparativas e de acolhimento do RH, ocorre um perigoso tiro pela culatra.
Ao tentar provar que cuidava do funcionário adoecido, a empresa frequentemente entrega ao juiz uma confissão tácita de que reconhecia um ambiente danoso e tentava apenas remediar os sintomas, falhando em corrigir a sobrecarga, a falta de clareza ou as metas irreais que de fato causaram o dano.
A prevenção real, a única capaz de blindar uma organização de passivos infundados, não reside na psicologia, mas na gestão dura de processos.
É preciso desromantizar a saúde mental no trabalho e tratá-la com a seriedade técnica da medicina ocupacional e da engenharia de segurança.
O foco deve ser a eliminação do risco na fonte. Paralelamente, é o médico do trabalho, munido de programas de controle e prontuários bem fundamentados, que tem a competência para investigar e atestar cientificamente a ausência de nexo causal quando o adoecimento derivar de questões estritamente pessoais do indivíduo.
No fim do dia, uma cultura corporativa verdadeiramente responsável não é aquela que adoece o funcionário na rotina e terceiriza o conserto pagando a terapia no final do mês.
É aquela que organiza o seu ambiente de forma justa e documenta tecnicamente essa retidão, protegendo o ser humano sem deixar o negócio refém de dores emocionais que não lhe pertencem.

Leo Moreira, CEO da Meta, diretor da Acieg e mestre em Administração de Empresas pela MUST University (EUA)














