Um ano depois do primeiro tarifaço, os Estados Unidos voltaram a mirar o Brasil no tabuleiro estratégico do comércio internacional. Noves fora a questão política, vamos à superfície e às profundezas da economia e dos produtos.
A diferença entre agora e a sobretaxa de 50% de agosto de 2025 é o método e organização, ante o improvisado e debiloide tarifaço anterior. Na primeira tentativa, o governo norte-americano viu a sua decisão ruir diante da inflação de alimentos no mercado local e ruídos políticos internos e externos, além do revés judicial que, mais adiante, barrou o tarifaço global.
Para o segundo tempo do tarifaço, Washington construiu um instrumento juridicamente mais sofisticado: a investigação da Seção 301, concluída em junho. Com ela embaixo do braço, tacou uma tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, a partir de 22 de julho, alcançando, entre outros não isentos, etanol, máquinas agrícolas e papel.
O detalhe mais revelador da decisão, porém, está no que ficou de fora. Café, carne bovina, castanhas, avião e petróleo foram poupados. E não foi por generosidade. Neste longo intervalo entre um e outro pacote, as empresas estadunidenses se manifestaram sobre a necessidade de isentar produto A, B ou C. Daí, uma lista que vai provocar menos ruído no âmbito interno. Da outra vez, o consumidor norte-americano sentiu no bolso o peso de taxar a comida brasileira, e o próprio governo reconheceu, na prática, que há produtos dos quais não consegue prescindir.
Eis aí a assimetria que muitos analistas subestimam. Quem produz alimento em escala para um planeta de oito bilhões de bocas, que precisam comer todos os dias e o tempo todo, negocia em posição distinta de quem exporta manufaturas facilmente substituíveis.
Os números de 2025 confirmam a tese. Mesmo sob tarifas punitivas durante boa parte do ano, o Brasil exportou o recorde de US$ 348,7 bilhões, e o agronegócio respondeu por US$ 169 bilhões, quase metade da pauta. A China absorveu 32,7% das vendas do agro; os Estados Unidos, 6,7%.
Desde 2023, o País abriu 525 novos mercados. Calma, o mundo continua tendo menos de 200 Países. Mas, para o Ministério da Agricultura, mercados novos são a combinação produto e destino. Cada autorização sanitária ou fitossanitária para um produto específico conta como uma “abertura de mercado”. Ou seja: carne bovina para o Vietnã é um mercado; ovos para o mesmo Vietnã é outro; gergelim para a Índia, um terceiro. De 2023 para cá, foram 525 novas portas abertas. Em uma conta rápida, é um mercado novo a cada dois dias. É uma cultura de exportação saudável e viva (silenciosamente bem executada).
A diversificação é o antídoto para qualquer cenário de crise de comércio, pois amortece contratempos e conflitos: quando um comprador fecha a porta, outros abrem. Essa condição dá ao Brasil algo raro no comércio internacional: personalidade.
Com a China, o Brasil vende como nunca, sem aderir à Rota da Seda, e preservando autonomia estratégica diante de seu maior cliente. Com os Estados Unidos, respondeu ao tarifaço acionando a Lei da Reciprocidade Econômica e a OMC, sem capitular como fizeram parceiros que aceitaram pisos tarifários em troca de acordos apressados.
Não é uma simples bravata ou blefe, eles têm de engolir o Brasil (como diria o saudoso Zagallo), porque quem compra precisa – e, quem precisa, não dita regras, negocia. A soberania comercial, no fim das contas, não se declara em discurso, mas é construída safra após safra, mercado após mercado.
O risco, óbvio, existe. Essa investigação americana sobre trabalho forçado pode elevar a carga sobre parte da pauta, e a concentração crescente na China exige vigilância permanente. Mas a lição deste ciclo é: em um mundo que rediscute a globalização a golpes de tarifa, o alimento voltou a ser instrumento de poder. O Brasil, que o produz com competitividade imbatível, precisa apenas do que já demonstrou ter, nervos firmes e mesa farta.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














