Um fato histórico para o cooperativismo goiano iria começar a ganhar forma em 10 de dezembro de 2014: as máquinas começaram a derrubar o prédio da Avenida Jamel Cecílio, que Iris Rezende e Roberto Rodrigues haviam inaugurado em 1988. Não era abandono, mas uma aposta certeira. No lugar da sede histórica de três andares, o Sistema OCB/SESCOOP-GO ergueria uma imponente torre de onze pavimentos, em uma das avenidas mais importantes da capital, dimensionada para um cooperativismo que já não cabia naquele prédio.
A casa de 1988 nascera para representar 76 cooperativas acuadas pela hiperinflação; a torre nasceria para servir um sistema com dez mil empregados e bilhões em movimento. Enquanto operários da construção trabalhavam, uma semente plantada em Minas Gerais cinco anos antes enfim germinava em solo goiano. O Dia de Cooperar (o Dia C), mutirão de voluntariado que a coirmã mineira lançara em 2009 reunindo 139 cooperativas – passou a ser realizado pelo sistema goiano em 2014, transformando o sétimo princípio do cooperativismo, o interesse pela comunidade, em agenda anual de praça pública: saúde, lazer, cidadania e doações num mesmo dia, com as cooperativas saindo dos balcões para as ruas.
No mesmo movimento de abertura, a comunicação ganhou unidade: o Programa de Comunicação de 2014 colocou boletim, portal, revista e jornal sob um só nome e projeto gráfico, o Goiás Cooperativo, consolidando a marca que nascera no rádio em 2011 e que acompanharia a entidade dali em diante.
O braço educativo, em 2014, cravou 562 atividades, 34.7 mil beneficiados, 136 cooperativas atendidas e 8,2 mil horas de capacitação. Foi o pico de carga horária de toda a série iniciada em 1999. Enquanto isso, o ramo crédito protagonizava o salto do ano: faturamento de R$ 902 milhões, alta de 55%, consolidando a expansão que a livre admissão destravara uma década antes e que a bandeira Sicoob espalhava, agência a agência, pelo interior.
O agropecuário somou R$ 4,53 bilhões, ficando praticamente estável e sendo espelho de um campo que colhia bem, mas vendia barato, com as commodities em retirada do superciclo. Era o alerta ligado quanto aos riscos para a economia a médio e longo prazos.
O País, esse, viveu um ano de suspensão. A Copa do Mundo parou o Brasil em junho e julho, mas com a frustração da derrota para a Alemanha por 7 a 1, termo que machucou o País e, como é do brasileiro, passou a fazer parte do vocabulário nacional. Na ponta política, a eleição mais apertada da história reconduziu Dilma Rousseff em outubro. Na economia, crescimento pífio de 0,5%, anunciando a tempestade que viria. A Operação Lava Jato, deflagrada em março, começava a redesenhar as relações entre público e privado no País.
No cooperativismo goiano, porém, o ano fechou com obra no canteiro, mutirão na rua e marca nova no ar. São as três formas de dizer que o setor se preparava para crescer mais enquanto o País, em várias frentes, estava anestesiado.
ANO 60 – 2015 – Maior recessão da história recente não travou o cooperativismo
Se fosse para resumir 2015 em uma palavra, seria contração: o PIB brasileiro despencou 3,5%, na pior recessão até então registrada, a inflação furou os dois dígitos, o desemprego disparou e Brasília mergulhou na crise política que desembocaria em um impeachment. Foi nesse cenário de chumbo que o cooperativismo goiano fez a sua transição mais serena, seguindo na contramão do pessimismo, e colheu um selo que poucas instituições do Sistema S podiam exibir.
Em 25 de março, a assembleia elegeu Joaquim Guilherme Barbosa de Souza para a presidência do Sistema OCB/SESCOOP-GO, encerrando os quatro anos de Haroldo Max de Sousa. Na vice, veio um engenheiro civil do ramo crédito, fundador de uma cooperativa de engenheiros, a Engecred: Luís Alberto Pereira, nome que o leitor desta série fará bem em guardar. A eleição confirmou um padrão da casa: desde 1996, cada transição promovia alguém de dentro da chapa anterior, continuidade institucional num País em que quase nada a tinha.
A certificação OCB-GO e SESCOOP-GO levou à ISO 9001 de gestão da qualidade, em 16 de outubro, o desfecho de dois anos de arrumação interna que incluíram o programa 8S e a padronização de processos iniciados em 2014, com mapeamento de rotinas, descarte de redundâncias, indicadores em tudo. Para uma entidade que já fora incapaz de pagar a própria folha, como em fevereiro de 1990 não saíra da memória dos antigos, ter a gestão auditada e certificada por norma internacional era a medida exata do caminho percorrido.

Haroldo Max encerrava o mandato entregando o que prometera na posse: avançar nas conquistas sem desperdiçá-las, com a torre contratada no canteiro, o plano de carreira rodando e o selo de qualidade na parede.
A tabela do braço educativo fechou ali a sua primeira grande série: de 1999 a 2015, 5.526 atividades, 504 mil beneficiados, 1.546 cooperativas atendidas e quase 74 mil horas de capacitação, ou seja, meio milhão de pessoas formadas pela casa que começara com duas turmas e 95 alunos.
A economia do sistema sentiu o ano, mas não da forma que a recessão sugeria. O agropecuário cresceu 10,6%, para R$ 5 bilhões (o dólar da crise, cruel com o consumidor, era generoso com o exportador), a saúde avançou para R$ 1,5 bilhão, e o crédito saltou 42%, superando R$ 1,28 bilhão: de novo o padrão anticíclico que esta série flagrou em 2008, quando os bancos encolhem, a cooperativa aparece.
O SESCOOP nacional, pressionado pela crise fiscal que corroía a arrecadação de todo o Sistema S, impôs contenção, e as atividades goianas recuaram para 493, com 25.8 mil beneficiados. Foi um ajuste administrado sem encolher a estrutura, como em 2009: turmas priorizadas, estrutura preservada, nenhuma conquista institucional devolvida. Em dezembro, a Câmara Federal abriria o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, e o país entraria em 2016 sem saber quem o governaria.
ANO 61 – 2016 – Sessenta anos, conquistas e batalhas
O Brasil chegou a 2016 no fundo do poço: segundo ano seguido de recessão, PIB encolhendo 3,3%, doze milhões de desempregados e um impeachment consumado em agosto, com Michel Temer assumindo em meio à maior crise política desde a redemocratização. Goiás sofreu junto, com a indústria parada, comércio em retração, arrecadação em queda, além da taxa de desemprego nas alturas. E foi exatamente nesse ano que o cooperativismo goiano completou sessenta anos, com números que pareciam de outro país.
O retrato do sexagenário impressionava pela contramão: 243 cooperativas registradas em onze ramos, 157.9 mil cooperados e mais de dez mil empregados, mil postos a mais que em 2012, criados nos anos em que o Brasil fechava vagas aos milhões. O agropecuário seguia como espinha dorsal, com 83 cooperativas e mais da metade dos empregos; o transporte firmava-se como segunda força em número de cooperativas, com 53; e o crédito, com 38 singulares, já reunia sozinho 102,7 mil cooperados, quase dois terços do sistema.
O faturamento confirmava a contramão: o agropecuário cresceu 20,9% em 2016, alcançando R$ 6 bilhões, e o crédito avançou 40,8%, superando R$ 1,8 bilhão, na recessão, o padrão anticíclico operava a pleno vapor, recebendo quem os bancos dispensavam.
A celebração teve o tom da casa: memória organizada. Em 2 de outubro de 2016, aniversário exato da assembleia de 1956, circulou no jornal O Popular um caderno especial sobre o cooperativismo goiano, abrindo as comemorações dos sessenta anos, que incluíram a publicação do livro “OCB-GO 60 Anos de História”, obra que registrou a galeria de presidentes, as linhas do tempo e os bastidores que de outro modo se perderiam.

Há uma simetria que o leitor desta série reconhecerá: foi aquele caderno, e sobretudo aquele livro, que tornaram possível recontar, ano a ano, os setenta, sustentando parte do conteúdo, que foi ampliado com nova pesquisa – adotamos uma linguagem própria e mais histórica, mas com uma base de números e dados de peso relevantes.
A entidade que, em 1956, nascera numa sala de doze metros quadrados na Rua 8, sempre é bom lembrar essa cena, celebrava o aniversário documentando a si mesma. Para um estado de memória curta, talvez seja as conquistas do setor um dos pontos altos da economia goiano naquela década.
A comparação embutida nas tabelas do livro dava a medida da década: de 193 cooperativas em 2006 para 243 em 2016, com o quadro de cooperados e empregos em expansão contínua enquanto o País encolhia. No Sudoeste, o Censo apontava 23 cooperativas e 42.8 mil cooperados, com os cooperados pessoa jurídica em plena multiplicação. O crédito costurando rede entre as próprias cooperativas, a intercooperação virando arquitetura financeira. E no canteiro da Avenida Jamel Cecílio, a torre de onze pavimentos subia rumo à inauguração do ano seguinte, enquanto o País aprovava o teto de gastos e tateava a saída da recessão, mais uma vez, o cooperativismo construindo quando o resto esperava.













