Ninguém percebe claramente, mas a empresa é a segunda escola em que nos matriculam. A primeira nos foi imposta pela idade; a segunda, pelo boleto. E, no entanto, as duas funcionam pela mesma engrenagem invisível: um grupo de pessoas que não se escolheu passa a se chamar pelo nome.
A rotina esconde os detalhes. Na escola primária, aprender o nome do colega era o primeiro ato de pertencimento. No escritório, é igual. O crachá formaliza, mas o “bom dia ” dito no automático humaniza e vale mais que qualquer organograma.
E, como toda escola, a empresa tem a sua jornada: as rivalidades de corredor, as panelinhas, a disputa silenciosa por quem se senta mais perto da janela ou do poder. Mudam os uniformes, mas o enredo tem semelhanças. Na primeira fase da vida, somos pautados por notas. Na segunda, por contratos, vendas e entregáveis (como é modinha dizer).
A diferença é menor do que parece: ambos são tentativas de medir, em papel, aquilo que acontece entre pessoas, as relações de troca, o valor que vai se agregando individualmente. Se o boletim é uma meta, a prova é a medição dos resultados. E a angústia da véspera? Essa não mudou de endereço. Quem não sofria antes da prova de física sofria com a de literatura ou português?
O que também não mudou foi o olhar amigo. Ele atravessa hierarquias com uma naturalidade que nenhum programa de cultura organizacional consegue replicar. Do porteiro ao CEO, cada um está em um estágio diferente da mesma travessia, mas todos convergem para o mesmo ponto no fim do dia: chegam em casa, esperam um abraço, e, quando o ambiente é saudável, querem voltar no dia seguinte. Esse ‘querer voltar’ é o indicador mais honesto que uma empresa pode ter, aquele que nem a contabilidade ou ESG captam.
O amigo de escritório está ali todos os dias, na trincheira ao lado, testemunha das nossas pequenas derrotas e cúmplice das vitórias que ninguém mais entenderia. É válvula de escape e, ao mesmo tempo, força motriz: a energia que sustenta o modelo não vem só do capital, vem dessa rede de cumplicidades que nenhum contrato previu.
E aí mora a pergunta que este editorial não se propõe a responder, apenas deixar no ar: Qual é o segredo de viver sem esse contrato social não escrito, seja na infância ou mundo adulto?
Talvez não haja segredo, apenas o preço. Quem tenta passar a vida corporativa sem amizades chega, ao fim, com o currículo intacto e a memória vazia.
Porque acertar e errar são partes de uma vida que não estão escritas em contratos, mas em gestos. O contrato garante a relação jurídica; o gesto garante a relação humana. E quando o expediente termina, quando o crachá volta para a gaveta, o que sobra de uma carreira não são as cláusulas que assinamos, são os nomes que aprendemos a chamar, e os que aprenderam a chamar o nosso, as boas histórias que temos para contar e as boas risadas que ainda podemos dar. Que todos tenham um excelente fim de semana.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














