Rafael Vaz
A vitória nas urnas deu a Daniel Vilela (MDB) o respaldo político para iniciar um novo capítulo na história recente de Goiás. Reeleito governador ainda em primeiro turno, com 59,17% dos votos válidos, ele derrotou Wilder Morais (PL), que obteve 21,96%, Luis Cesar Bueno (PT), com 9,82%, e o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), que terminou em quarto lugar, com 8,69%.
Vice-governador durante o segundo mandato de Ronaldo Caiado (PSD), Daniel assumiu o comando do Executivo estadual em março deste ano, após a renúncia do antecessor para disputar a Presidência da República. A partir de 2027, terá pela frente um mandato conquistado diretamente nas urnas, com a possibilidade de definir a sua equipe e estabelecer as prioridades de um projeto próprio de governo.
Para o setor produtivo, a expectativa é de continuidade da estabilidade fiscal e administrativa construída nos últimos anos, acompanhada de avanços nas condições para investir, produzir e gerar empregos.
Segurança jurídica, infraestrutura, energia, logística, qualificação profissional e simplificação de procedimentos estão entre as principais demandas apresentadas à Revista Leitura Estratégica por representantes da Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg), da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), do Sistema OCB/GO e da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Goiás (Fecomércio-GO).
A Reforma Tributária atravessa praticamente toda essa agenda. Com a transição para um novo sistema de tributação, as entidades apontam a necessidade de preparar Goiás para manter a atratividade econômica, reduzir custos estruturais e evitar que mudanças fiscais comprometam investimentos e empregos.
À Leitura Estratégica, Daniel afirma que pretende preservar os avanços da gestão anterior e imprimir uma identidade própria à administração. “Quero imprimir à gestão a marca da modernização, da eficiência e da capacidade de transformar planejamento em resultados concretos para a população e para a economia goiana”, declara.
A questão central para o próximo ciclo, portanto, é como o governador transformará a continuidade administrativa em uma agenda renovada de desenvolvimento. O equilíbrio das contas públicas aparece como ponto de partida, mas as entidades empresariais esperam que essa condição se traduza em medidas concretas para elevar a competitividade de Goiás.
Continuidade x marca própria
A continuidade é uma expectativa compartilhada pelas lideranças empresariais ouvidas pela reportagem, embora cada entidade destaque aspectos diferentes dessa agenda.
Para Rubens Fileti, presidente da Acieg, a manutenção da estabilidade fiscal e da confiança institucional é indispensável. “A Acieg que representa a indústria, o comércio e os serviços de Goiás, espera continuidade. O Estado construiu nos últimos anos um ambiente de contas em ordem e de confiança, e isso não pode se perder”, afirma.

Fileti também enfatiza a previsibilidade das regras e a participação do empresariado nas decisões públicas. Em sua avaliação, as empresas precisam saber que as condições estabelecidas não serão alteradas de maneira imprevisível e que as entidades serão ouvidas antes da adoção de medidas que afetem suas atividades.
O dirigente ressalta que a aproximação com o governo não significa buscar vantagens particulares. “Agora, ninguém deve esperar privilégio. Nós não pedimos isso, e nenhum empresário sério pede. O que defendemos é regra clara, estável e igual para todos”, diz, apontando que o foco é que Goiás e as empresas precisam apresentar sempre maior competitividade para atrair empresas e gerar negócios. “Essa sempre foi a regra do jogo.”
Na Fieg, o presidente André Rocha também demonstra expectativa de diálogo com a futura administração. Em entrevista concedida à reportagem, ele defende que as entidades empresariais participem da construção de políticas públicas voltadas à competitividade de diferentes segmentos econômicos.
Rocha considera que a implantação da Reforma Tributária será um dos grandes desafios do período, mas vê espaço para construir soluções em conjunto. Entre os temas que, na avaliação dele, exigirão atenção estão logística, desburocratização, energia elétrica e mecanismos que permitam às empresas aproveitar créditos tributários acumulados.
O presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira, também espera continuidade dos investimentos estruturais e do relacionamento com o setor produtivo. Ele avalia que Daniel deverá enfrentar um ambiente fiscal mais desafiador e considera importante manter a atenção à infraestrutura, à inovação e à tecnologia.
Na Fecomércio-GO, Marcelo Baiocchi espera a preservação dos projetos da gestão Caiado, mas também a ampliação da modernização administrativa e da atenção às questões ambientais relacionadas à atividade empresarial. Baiocchi defende a simplificação dos procedimentos que as empresas precisam cumprir para investir e operar. Ao comentar o papel do poder público, resume sua posição com uma frase: “O Estado ajuda muito quando não atrapalha, né?”
A declaração sintetiza uma das principais cobranças das entidades: reduzir entraves administrativos, acelerar a tramitação de projetos e tornar mais ágil o licenciamento de empreendimentos, respeitando os requisitos legais.

Visão fiscal
Daniel, por sua vez, afirma que a responsabilidade fiscal continuará orientando a gestão. Segundo o governador, a administração não deve assumir compromissos sem planejamento ou iniciar obras sem garantir os recursos necessários para concluí-las.
O desafio será combinar essa disciplina com capacidade de execução e respostas mais rápidas às demandas econômicas. As entidades não defendem uma ruptura com o modelo anterior, mas esperam que a nova etapa tenha condição de produzir avanços concretos no ambiente de negócios.
Reforma tributária na pauta dos empresários
A Reforma Tributária é um dos principais pontos de atenção para o período de 2027 a 2030. A mudança no sistema de arrecadação exigirá adaptações das empresas e poderá alterar fatores que influenciam a localização de novos empreendimentos.
Para Goiás, o desafio envolve preparar a economia para um cenário no qual os incentivos fiscais deixarão de ter o mesmo papel na disputa por investimentos. Nesse contexto, infraestrutura, energia, logística, segurança jurídica e qualificação profissional tendem a ganhar importância ainda maior.
Na Acieg, Rubens Fileti destaca que a transição afetará os segmentos econômicos de maneiras distintas. A indústria terá de lidar com mudanças na lógica dos incentivos, enquanto o comércio precisará se adaptar às novas regras de cobrança e os serviços vão enfrentar severas alterações na carga tributária.
A entidade defende participação ativa do governo estadual na regulamentação e implementação da reforma, além de diálogo permanente com os representantes empresariais. Para Fileti, a capacidade de oferecer rápidas condições estruturais competitivas será determinante quando os incentivos fiscais perderem parte de sua relevância. “Goiás sempre esteve na vanguarda das grandes ideias, precisamos nos readaptar rápido à nova realidade. Pensar diferente é a regra número um”, disse.
A Fecomércio-GO também considera a mudança tributária uma grande fonte de incerteza. Baiocchi avalia que a segurança jurídica, a segurança pública e a infraestrutura logística serão fundamentais para preservar a atratividade de Goiás, sobretudo diante das alterações previstas no sistema de incentivos.
Do ponto de vista da Fieg, André Rocha defende uma abordagem que considere as particularidades de cada setor. Ele chama a atenção para a necessidade de discutir medidas fiscais específicas, simplificar procedimentos e melhorar as condições para que empresas que possuem créditos tributários acumulados possam utilizá-los ou monetizá-los.
A proposta do dirigente é acelerar os mecanismos de aproveitamento desses créditos, inclusive com possibilidades de contrapartidas em novos investimentos. A intenção é favorecer a expansão das empresas já instaladas, a geração de empregos e a interiorização do desenvolvimento.
Rocha também aponta a necessidade de diversificar a infraestrutura de transporte, com atenção às rodovias, à possibilidade de ferrovias em parceria com a iniciativa privada e à ampliação da oferta de energia. Ele defende, ainda, o fortalecimento dos aeródromos e o uso de tecnologia para agilizar processos administrativos.
O Sistema OCB/GO acrescenta a essa discussão a importância do mercado consumidor interno. Luís Alberto Pereira considera que, se a tributação no destino for mantida nos moldes previstos, o governo deverá estimular atividades capazes de ampliar a renda e o consumo dentro do Estado. “As soluções nascem em conjunto. Assim foi com o Fomentar, o Produzir e o Pró-Goiás.”
Na visão de Luís Alberto, atrair eventos e empresas dos setores de comércio e tecnologia pode contribuir para movimentar a economia local e fortalecer a arrecadação, criando condições para a manutenção dos investimentos públicos.
Daniel afirma que pretende atuar tanto na articulação institucional em defesa dos interesses de Goiás quanto na melhoria das condições estruturais da economia. Ele menciona o diálogo com o Senado, a Câmara dos Deputados e representantes do setor produtivo para acompanhar a regulamentação e a implementação da reforma.
No âmbito estadual, a estratégia apresentada pelo governador inclui investimentos em infraestrutura rodoviária, logística, energia e conectividade, além da qualificação profissional e da modernização dos serviços públicos.
“Não podemos depender exclusivamente de incentivos fiscais para atrair empresas. Precisamos oferecer infraestrutura, profissionais qualificados, eficiência administrativa, segurança e condições para que os negócios sejam competitivos no longo prazo”, afirma.
A convergência entre governo e entidades empresariais está na necessidade de ampliar a competitividade para além dos incentivos fiscais. Para o governador eleito, a diferença estará na definição das medidas, no ritmo de implementação e na capacidade de responder às necessidades específicas de cada segmento.

As prioridades de quem produz
Embora compartilhem preocupações com a competitividade, as entidades ouvidas pela reportagem apresentam prioridades distintas para o próximo ciclo.
Segundo a Acieg, a agenda começa pela segurança jurídica e pela previsibilidade tributária durante a transição da reforma. Em seguida, aparecem segurança pública, infraestrutura e logística, qualificação profissional e atração de investimentos com agregação de valor à produção goiana. A entidade também destaca a importância das micro e pequenas empresas para o comércio e os serviços.
Pela Fieg, André Rocha apresenta uma agenda voltada a gargalos que afetam diretamente os custos e a capacidade de expansão das empresas. O aproveitamento dos créditos tributários acumulados aparece como uma das primeiras prioridades, seguido de investimentos logísticos, energia elétrica, estruturação de aeródromos e ampliação das parcerias entre o poder público e o Sistema S para qualificação profissional.
A OCB/GO coloca o ambiente de negócios no topo de sua lista. Luís Alberto Pereira também destaca a necessidade de uma política fiscal que permita ao Estado continuar investindo, além da manutenção da infraestrutura de transporte, armazenamento, energia e conectividade. Inovação, tecnologia e atração de empresas capazes de ampliar a renda e o consumo interno completam a agenda da entidade.
A Fecomércio-GO concentra as suas propostas na desburocratização e na revisão de procedimentos que, na avaliação de Baiocchi, dificultam a implantação e a expansão de empreendimentos. O dirigente defende maior agilidade na tramitação de projetos, simplificação de licenciamentos e revisão de situações em que multas e penalidades podem comprometer a atividade empresarial. Também propõe o uso de mecanismos de autodeclaração para determinados procedimentos, quando legalmente cabíveis.
As diferenças revelam que o setor produtivo não apresenta uma agenda única. Enquanto a indústria chama a atenção para créditos tributários, energia e infraestrutura logística, o comércio enfatiza a simplificação administrativa. O cooperativismo destaca o ambiente de negócios e a capacidade de investimento do Estado, enquanto a Acieg articula questões que passam por indústria, comércio e serviços.

A agenda apresentada pelo governador
Na resposta sobre as prioridades para 2027 a 2030, Daniel apresenta cinco frentes: infraestrutura, logística e energia; competitividade econômica, ambiente de negócios e atração de investimentos; tecnologia, inovação e transformação digital; qualificação profissional; e turismo, entretenimento e economia criativa.
O governador não estabelece uma ordem numérica entre essas cinco frentes. Em sua resposta, também ressalta que segurança pública, saúde e educação continuarão entre as responsabilidades fundamentais do governo.
Na infraestrutura, Daniel destaca a continuidade das obras rodoviárias e a melhoria das conexões entre regiões produtoras, centros industriais e mercados consumidores. Também menciona a ampliação da capacidade energética e da conectividade.
Na agenda de competitividade, promete simplificação de procedimentos, modernização dos serviços públicos e atuação na atração de novos empreendimentos. Ele cita ainda a possibilidade de agregar valor à produção de minerais críticos por meio de investimentos em tecnologia de refino.
Tecnologia e inovação aparecem associadas à aproximação entre empresas, universidades e pesquisadores. Entre as iniciativas mencionadas pelo governador estão o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia), o Hub Goiás e o Distrito de Inovação e Inteligência Artificial de Goiás.
Na formação profissional, Daniel destaca a ampliação dos cursos tecnológicos, o fortalecimento das Escolas do Futuro e a implantação do Centro de Ensino Profissionalizante Paulo Vargas. O objetivo declarado é aproximar a qualificação da mão de obra das necessidades reais das empresas.
A agenda demonstra convergência com parte das demandas empresariais, especialmente em infraestrutura, tecnologia e formação profissional. A efetividade das propostas, entretanto, dependerá de sua execução, do planejamento orçamentário e da capacidade de transformar iniciativas em resultados.

Maguito Vilela e a indústria do futuro
A relação entre o governo e o setor produtivo também abre espaço para uma comparação histórica. A gestão de Daniel ocorre cerca de três décadas depois do governo de seu pai, Maguito Vilela, associado a iniciativas de aproximação empresarial e de atração de investimentos industriais.
Durante a gestão de Maguito, missões empresariais à China e ao Japão, realizadas em articulação com a Acieg, fizeram parte dos esforços para ampliar as relações comerciais e atrair empreendimentos. A instalação da Mitsubishi em Catalão e a presença industrial da Perdigão também integram esse contexto de expansão econômica do ex-governador. A aproximação institucional entre Goiânia e Hebei, na China, constituiu outra iniciativa daquele período, embora essa relação tenha sido pouco explorada posteriormente.
O cenário atual, porém, apresenta desafios diferentes. A atração de investimentos depende não apenas de incentivos fiscais e articulação política, mas também de energia, logística, conectividade, tecnologia e disponibilidade de profissionais qualificados.
Ao comentar o legado do pai, Daniel afirma que a trajetória de Maguito é uma inspiração para a própria atuação. O governador, entretanto, enfatiza a necessidade de adaptar os instrumentos de desenvolvimento às transformações econômicas e tecnológicas.
“Atualizar esse legado significa compreender que os instrumentos de desenvolvimento mudaram. Hoje, além de infraestrutura e de um ambiente favorável aos negócios, precisamos investir fortemente em tecnologia, inovação, conectividade e qualificação profissional”, declara.
Daniel também associa a próxima etapa à recuperação da capacidade de investimento do Estado, resultado que atribui ao ciclo iniciado por Caiado e continuado por ele. A partir dessa base, afirma que pretende ampliar a integração entre governo, empresas e instituições de pesquisa e profissionalizar ainda mais a atração de empreendimentos.
A referência a Maguito, portanto, não se limita à memória familiar. Ela levanta uma questão econômica: como atualizar a estratégia de industrialização de Goiás em um cenário no qual a inovação, a produtividade e a capacidade de agregar valor à produção são cada vez mais relevantes?
Turismo como frente de desenvolvimento
O turismo é outra área na qual Daniel pretende ampliar a atuação do governo. O governador cita o novo Serra Dourada, a modernização do Autódromo Internacional de Goiânia e a estruturação de rotas no interior como projetos capazes de movimentar diferentes atividades econômicas.
“Goiás tem condições de consolidar uma economia do turismo muito mais forte, tanto na capital quanto no interior”, afirma.
A proposta envolve ampliar a capacidade de receber eventos esportivos, culturais e empresariais, com efeitos sobre hotelaria, alimentação, transporte, comércio e serviços. O autódromo, com competições nacionais e internacionais, incluindo a MotoGP, é apresentado como instrumento de projeção de Goiás e de atração de visitantes. O complexo do Serra Dourada, por sua vez, deverá reforçar a agenda de entretenimento, esportes e grandes espetáculos, conforme a perspectiva apresentada pelo governador.
A expansão, entretanto, não depende apenas de grandes equipamentos. O turismo no interior exige melhoria dos acessos rodoviários, sinalização, conectividade, hospedagem, alimentação e qualificação profissional. Também requer articulação entre governo, municípios e iniciativa privada para estruturar destinos capazes de receber visitantes com regularidade.
A questão econômica é transformar investimentos em infraestrutura e eventos em atividade permanente, com maior ocupação hoteleira, consumo e geração de empregos. Isso implica criar condições para que empresas invistam na modernização dos serviços turísticos e para que os benefícios da atividade alcancem diferentes regiões do Estado.
A agenda turística, assim, conecta a atuação do poder público à capacidade de investimento privado. A infraestrutura pode ampliar oportunidades, mas a consolidação de um setor competitivo dependerá da estruturação dos destinos, da qualidade dos serviços e da continuidade das ações de promoção.

O teste do novo ciclo
As manifestações empresariais indicam que a estabilidade fiscal e administrativa é vista como uma conquista que deve ser preservada. Ao mesmo tempo, as entidades esperam que o próximo governo avance em áreas capazes de reduzir custos, ampliar a produtividade e tornar Goiás mais competitivo.
A Acieg cobra previsibilidade e segurança jurídica; a Fieg destaca créditos tributários, energia e logística; a OCB/GO enfatiza o ambiente de negócios e o estímulo à renda e ao consumo; e a Fecomércio-GO coloca a desburocratização no centro de sua agenda. Daniel, por sua vez, apresenta propostas de modernização administrativa, inovação, qualificação profissional e diversificação econômica.
A Reforma Tributária será um dos principais testes dessa estratégia, mas não o único. A capacidade de executar obras, melhorar serviços públicos, formar trabalhadores e criar condições para investimentos também determinará os resultados do período.
A vitória eleitoral dá a Daniel espaço para estabelecer as suas prioridades. A construção de uma marca própria, contudo, dependerá da capacidade de converter compromissos em políticas públicas e resultados verificáveis.












