Aos sete anos de idade, já disputava campeonatos amadores de Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul. No início, era só uma brincadeira no time de amigos chamado Arbinha. Mas a velocidade e a astúcia típicas de quem cresceu livre, Alex Dias começou a construir ali. Apelidado mais tarde de “Atacante Pantaneiro”, o ex-jogador transformou a pressa dos gramados do interior em uma das carreiras mais ricas, carismáticas e humanas do futebol brasileiro dos anos 1990 e 2000.
A infância foi pobre, mas não faltava nada para o garoto. Morava com os avós, Eliza e Joaquim, e a mãe, Seila. As conquistas em campeonatos amadores locais faziam o garoto sonhar. “Nessa época, já queria ser jogador de futebol profissional”, recorda. Aos 14 anos, chegou a fazer testes em times de outros estados, entre eles Atlético (MG) e Botafogo (SP), mas não foi aprovado. A chance surgiu apenas com 16 anos, quando foi convidado para integrar a base do time da cidade, o Águia Negra. Nessa época, ainda jogou nas categorias juvenil e juniores do Comercial, time da capital sul-mato-grossense.
Quando completou 18 anos de idade, cumpriu o serviço militar obrigatório, destacando-se nas Olimpíadas do Exército Brasileiro. Após o período de um ano servindo as Forças Armadas, Alex estava decidido a abandonar de vez o sonho de ser jogador de futebol. Iria trabalhar na Prefeitura de Rio Brilhante, concluir o ensino médio e prestar o vestibular para a faculdade de Educação Física.
Mas quis o destino que o futebol não perdesse aquele talento. Um amigo paraense que morava em Rio Brilhante o convidou a fazer um teste em times de Belém. Alex foi aprovado nos juniores do Clube do Remo. Logo, teve o primeiro contato com o time principal.
A transição para o futebol profissional é, quase sempre, um choque de realidade. Para Alex, foi um choque em diferentes sentidos. Aos 19 anos, longe de casa, ganhou sua primeira grande chance. Hospedado pela primeira vez em um hotel cinco estrelas, antes de um clássico contra o Paysandu, o jovem, deslumbrado com a fartura que nunca tivera, comeu além da conta e passou mal. No outro dia, o atacante não entrou em campo, mas a lição de amadurecimento veio rápido: faturou o bônus pelo empate em 0 a 0 contra o maior rival e dividiu cada centavo com sua família.
A primeira chance de entrar em campo veio no campeonato de aspirantes, que reunia jogadores que não estavam atuando no time principal. Mais uma vez, Alex Dias foi destaque. “A partir dali, o técnico Edu, irmão do Zico, foi me convocando aos poucos para o time principal. Fui entrando nos jogos e nunca mais saí”, conta. No clube paraense, ele foi bicampeão estadual e explodiu para o cenário nacional, trocando as longas e cansativas viagens de ônibus pelos voos de avião que o levariam para o mundo.
Após o título em um torneio na França, foi vendido para o Boavista, de Portugal. Seria uma grande oportunidade para mostrar o seu ótimo futebol na Europa. Mas, as poucas chances de jogar e a difícil adaptação o atrapalharam. “Era um mundo totalmente novo para mim. Na época, apenas três jogadores estrangeiros poderiam atuar em cada time”, recorda.
Depois da primeira experiência frustrada no Velho Continente, o atacante encontrou sua verdadeira terra prometida, que estava no Centro-Oeste, mas não era a sua cidade natal. O novo destino era o Estado de Goiás.


O Rei dos Clássicos
A contratação de Alex Dias para o Goiás Esporte Clube era um pedido do técnico Hélio dos Anjos, que já conhecia o atacante desde os tempos do futebol paraense. Em Goiânia, o jogador viveu quatro anos mágicos.
No primeiro ano de clube, em 1995, era reserva da equipe no Campeonato Brasileiro. O destino iria mudar em 1996, quando Alex assumiu a titularidade. Primeiro, o título do Campeonato Goiano e a artilharia da competição. Depois, ao lado de Lúcio Bala e sob o comando do técnico Paulo Gonçalves, ele levou o clube esmeraldino à histórica semifinal do Campeonato Brasileiro. “Pensávamos até em título, mas faltou experiência. Perdemos em casa para o Grêmio, do técnico Felipão, e não conseguimos reverter o resultado. Ficou um gostinho que poderíamos ir além”, afirma.
Durante o período de Goiás, o grito que Alex mais ouvia era o tradicional: “1,2,3, o Vila é freguês”, canto comum da torcida nos estádios. O maior clássico do Centro-Oeste está até hoje na memória do ídolo. “Nesses quatro anos de Goiás, costumo dizer que nunca perdi para o Vila, porque, a única vez que o adversário venceu, eu não estava em campo. O treinador me tirou quando estava 3 a 0 pra gente. Resultado: levamos a virada de 5 a 3”, ressalta.
Pelo clube esmeraldino, Alex Dias foi tetracampeão goiano. Sempre com o maior palco do futebol goiano, o Serra Dourada, lotado. “Foi o ápice de me apresentar para o Brasil. Vários grandes times do futebol brasileiro estavam de olho e queriam me contratar”, destaca. Mas, diferente de outros atletas, não pensava no Goiás apenas como um “trampolim” para a carreira. “Era um clube que eu realmente queria jogar e me tornei torcedor”, orgulha-se.
Mesmo com todo o amor pelo clube era preciso seguir voo. A Europa batia novamente à sua porta.



Do chope às noites de Paris
Na França, Alex Dias virou febre. Defendendo o Saint-Étienne, formou uma dupla inesquecível com o também brasileiro e companheiro de ataque nos tempos de Goiás, Aloísio Chulapa. Foi um período de gols antológicos — como um voleio de esquerda espetacular contra o Estrasburgo — e de muitas histórias de vestiário.
Uma delas aconteceu após uma derrota por 3 a 0 em casa. No vestiário, o preparador físico Rudi Garcia entrou carregando copos de chope para aliviar a tensão do grupo de jogadores. Vendo aquela mordomia em pleno vestiário após uma derrota pesada, Alex Dias brincou com Aloísio: “Rapaz, nós estamos num time bom! Perdemos de três e tem chopp. Imagina quando a gente ganhar? Vai ser champanhe, vinho e festa!”, brincou.
Na época, Alex foi escolhido por duas vezes o melhor jogador estrangeiro no campeonato francês, além de conquistar a vice-artilharia da competição. A sua brilhante passagem o credenciou a vestir a camisa do gigante Paris Saint-Germain.
Em uma era pré-bilionária do PSG, Alex Dias foi contratado por empréstimo. Teria a companhia do amigo Aloísio Chulapa no novo clube. A dupla revezava a titularidade com dois outros craques, Anelka (atacante da seleção francesa) e Ronaldinho Gaúcho.
Em Paris, Alex foi campeão da extinta Copa Intertoto, em uma final contra o Brescia, time do craque italiano Roberto Baggio. A conquista levou o time para a Copa da Uefa. O atacante sul-mato-grossense carimbava de vez seu nome no solo parisiense muito antes das grandes estrelas atuais desembarcarem na capital francesa.
De volta ao Saint-Étienne, após o empréstimo, atuou mais um ano em terras francesas, completando um ciclo inesquecível no Velho Continente. “Sou reconhecido até hoje por lá, os torcedores ainda me valorizam muito”, orgulha-se.
A ligação com a França marcou a vida de Alex Dias. Até hoje, acompanha as notícias do país. Está atento às últimas manifestações ocorridas, as maiores dos últimos anos. O movimento, que começou com bloqueios de estudantes contra a falta de professores e precariedade das escolas, ganhou a adesão da sociedade civil e ampliou a pauta para o custo de vida e o corte de serviços públicos. “Difícil momento que os franceses estão vivendo, espero que isso se resolva. Eles costumam ter mais consciência dos próprios direitos que os brasileiros, mas acredito que essas manifestações vão passar”, avalia.





A grande volta ao Brasil
O retorno ao Brasil foi em grande estilo. Ao lado de craques como os meias Zinho e Alex, além do atacante colombiano Aristizábal, Dias conquistou o primeiro título nacional, o campeonato brasileiro de 2003. “O time, comandado pelo Vanderlei Luxemburgo, era uma máquina. Infelizmente, não consegui a titularidade. A readaptação ao futebol brasileiro pesou”, destaca.
Um ano depois, Alex Dias retorna ao clube que lhe consagrou para o País, o Goiás. Empréstimo bem sucedido. No clube goiano, o atacante foi vice-artilheiro do Campeonato Brasileiro da série A. O time comandado pelo técnico Celso Roth fez grande campanha na competição, conquistando a sexta colocação.
Com o bom desempenho no Goiás, Alex Dias recebeu uma proposta para atuar no Vasco da Gama. O desafio não era apenas tático; era psicológico. O parceiro de ataque seria o craque Romário, conhecido por não ter muita paciência com companheiros de área. Alex confessa que chegou a São Januário com medo. Com a humildade dos grandes, o Pantaneiro traçou sua estratégia: “Vou correr por ele, vou deixá-lo na cara do gol”, pensou na época.
O resultado foi uma das duplas mais letais do século XXI no Brasil. Juntos, marcaram 41 dos 74 gols do Vasco no Brasileirão de 2005. Romário foi o artilheiro da competição com 22 gols, e Alex Dias o vice, com 19. A sintonia era tanta que o próprio Romário abria mão de bater pênaltis para dar a chance ao amigo. A parceria virou uma amizade que dura até os dias de hoje. “É um dos grandes amigos que tenho, fazemos jogos beneficentes. Aprendi a jogar futevôlei com ele. No Rio, saíamos juntos na noite, eu tomando o meu danone (cerveja) e ele no charuto”. brinca. O “Baixinho” ainda disse que Alex estava entre os cinco melhores atacantes que ele já jogou junto e que, se tivesse lhe conhecido, antes teria feito pelo menos dois mil gols na carreira (fez 1.002).
A saída do Pantaneiro do Vasco rumo ao São Paulo, em 2006, gerou ruídos na mídia da época, com alguns rótulos de “mercenário”. No entanto, os bastidores humanizam o atleta: o Vasco enfrentava grave crise financeira e atrasava salários. Alex tinha um sonho de vestir a camisa do Tricolor Paulista, time do coração desde a infância. O atleta aceitou a proposta bem mais alta financeiramente.
Em vez de processar o clube do Rio de Janeiro pelos meses atrasados, ele abriu mão de valores e permitiu que a compensação financeira do São Paulo fosse integralmente para os cofres do Vasco — deixando mais de R$ 5 milhões para o time carioca. Pelo São Paulo, sagrou-se Campeão Brasileiro de 2006, coroando o time de seu coração de menino e marcando 13 gols na competição.
Na sequência da carreira, voltou para o Rio de Janeiro e foi para o Fluminense. Estava noivo de uma garota da cidade e decidiu retornar. Ao lado de craques como Thiago Silva, Thiago Neves e Carlos Alberto, conquistou o título de campeão da Copa do Brasil.
Em 2008, a terceira e última passagem pelo Goiás. Mas diferente das outras duas oportunidades, viveu momentos difíceis. Jogou a Copa do Brasil, a final do Campeonato Goiano e poucos jogos da Série A. “Me desentendi com o diretor técnico do clube e com o filho dele, que era o preparador físico. O time era bom, eu poderia ter tido uma sequência maior, a torcida me queria no clube”, lamenta.
Ainda jogou no Brasiliense (DF), América (RJ), Pelotas (RS), Crac (GO), Mixto (MT) e encerrou a carreira na Aparecidense (GO), em 2012. “Estava com 39 para 40 anos, e o corpo já não aguentava mais. Fui parando aos poucos e, quando vi, já estava no futevôlei”, brinca. O atleta pensou em fazer um jogo de despedida na França, mas não foi possível.
O inconsciente ainda o faz lembrar dos tempos de jogador de futebol. “Às vezes, sonho que estou jogando ou vou ao estádio e penso que poderia estar ali dentro de campo”, compartilha. Mesmo assim, não há arrependimentos. “Hoje, sinto falta mais da resenha do futebol e dos amigos do que estar nos gramados. Não sinto tanta saudade assim. Parei na hora certa”, acredita.
O ex-atleta apenas lamenta a diferença de personalidade dos jogadores atuais para o período em que jogou. “Hoje, a mídia é bem mais forte, por causa das redes sociais. Antes, o cara jogava com amor, paixão pelo clube. Hoje, o jogador só quer ir lá, pegar o dinheiro dele e amanhã já está em outro time”, avalia. Ele reforça as críticas aos atletas atuais. “Estão preocupados demais com a rede social e deixam de pensar no futebol. Para alguns deles, um clássico é só um jogo a mais, não faz a menor diferença”, lamenta.







Empreendedorismo, esporte e vida
Alex Dias fixou residência em Goiânia, a cidade que o acolheu com tanto carinho há mais de 30 anos. “Escolhi a cidade pelas amizades, pela qualidade de vida. Tenho o título de cidadão goianiense. Foi amor à primeira vista”, destaca.
O ex-jogador chegou a atuar como empresário do ramo imobiliário e incorporação civil. Atualmente, realiza eventos e tem uma empresa que agencia a carreira de jogadores de futebol. “Temos conosco jogadores de todo o País, várias promessas para o futebol brasileiro”, afirma.
Uma vez atleta, sempre atleta. O esporte favorito para praticar atualmente é o futevôlei. Alex Dias treina quatro vezes por semana e participa da Liga Nacional da modalidade, representando o Goiás. “A modalidade é melhor de jogar do que o futebol, porque nela eu não machuco”, explica. Outra atividade são os jogos de futebol beneficente que realiza Brasil afora. Um deles, anualmente em Goiás, ao lado do amigo Romário.
O Pantaneiro já foi casado duas vezes e está, no momento, solteiro. Tem três filhos, cada um mora em um lugar diferente no país: Anna Eliza (Rio de Janeiro), Kamile (Corumbá-MS) e Alex Dias Júnior (Goiânia). Nenhum deles seguiu a carreira de atleta do pai. “Até tentei com o meu filho na base do Goiás, mas não deu certo e, atualmente, ele trabalha com computação”, explica.
A mãe ainda é uma parte muito importante para a vida do ex-atleta. Dona Seila mora em Rio Brilhante, mas todo ano vem a Goiânia para visitar o filho. “Ela ama pescaria, é uma das grandes paixões da vida dela”, destaca.




















