Leandro Resende
Em pouco mais de três meses, ao menos três episódios de fogo e explosão em plantas industriais na Região Centro-Oeste lembraram ao empresariado que risco operacional não é pauta só de relatórios. Alex Maciel Gonçalves, diretor técnico da AMG Consultoria e diretor executivo da Criquet Análise de Risco Tecnológicos Industriais, resume o diagnóstico em uma frase: o problema raramente é a falta de documento, é o documento morto. “O relatório não elimina poeira, não corrige aterramento e não apaga faísca”, diz ele, que durante quase oito anos coordenou processos em atmosferas explosivas em grandes companhias como Bunge Alimentos, Imcopa, Grupo Agrenco, Sperafico e o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas.
Em 12 de maio, um incêndio de madrugada atingiu uma linha de produção de batata da Cicopal, em Senador Canedo (GO), e mobilizou o Corpo de Bombeiros por quase quatro horas. Em 13 de junho, as chamas alcançaram o prédio anexo da farmacêutica Equiplex, em Aparecida de Goiânia (GO), sem chegar à área onde se produz soro. Em 21 de agosto, uma explosão envolvendo enxofre feriu sete trabalhadores de uma fábrica de suplementação animal em Campo Grande (MS). Um incêndio de grandes proporções atingiu uma fábrica de pães em Cuiabá (MT), em 26 de julho, e as chamas consumiram um corredor lateral da empresa, onde eram armazenadas embalagens plásticas. Ninguém ficou ferido.
Para ele, o erro de origem é tratar a NR-20 como curso obrigatório. “A norma classifica as instalações em classes I, II e III, conforme o volume armazenado, e a partir daí exige análise de risco, permissão para trabalhos críticos, como solda e limpeza de tanques, plano de emergência, treinamento em três níveis, aterramento e inspeção periódica. É um programa contínuo, não um requisito burocrático.” O problema, aponta, é que muitos só reavaliam os riscos depois do sinistro.
O ponto mais sensível, segundo Alex, é a classificação de áreas, o mapeamento das zonas que podem formar atmosfera explosiva. Ele cita um trabalho da AMG em uma planta química de 150 mil metros quadrados em operação ininterrupta. O diagnóstico original, influenciado pela venda de equipamentos à prova de explosão, superdimensionava as zonas de maior risco e inflava os custos de capital e operação em mais de dez vezes. Refeito com base na ABNT NBR IEC 60079-10-1, com cálculo da taxa de liberação e simulação de dispersão por dinâmica dos fluidos computacional, o estudo reverteu 75% das zonas. O Ministério do Trabalho arquivou os processos, a seguradora concedeu 30% de desconto no prêmio e mais de R$ 26 milhões foram preservados. “Segurança em área classificada não é comprar hardware, é aplicar engenharia”, resume.
A expansão industrial tem aproximado os fornecedores especializados das fábricas, ampliando a demanda por soluções que combinem engenharia, tecnologia e segurança de processos. Para Alexandre Sá, diretor comercial da Enesens, empresa especializada em sistemas de detecção de gases e monitoramento de riscos industriais, o crescimento do setor exige planejamento técnico, conformidade normativa e soluções adequadas aos riscos de cada operação.
A Enesens abriu uma unidade em Goiás para ampliar a sua proximidade com as indústrias locais e oferecer maior agilidade no atendimento e no suporte técnico.
“O crescimento industrial exige que a segurança seja considerada desde a concepção dos projetos. Em ambientes com atmosferas potencialmente explosivas, não basta instalar equipamentos: é necessário avaliar os riscos, especificar corretamente as tecnologias de detecção e garantir a integração dos alarmes com os sistemas de controle e os procedimentos de resposta. Falhas nesse planejamento podem comprometer vidas, instalações e a continuidade operacional. O objetivo não deve ser apenas atender à fiscalização, mas prevenir acidentes e assegurar uma resposta eficaz diante de uma condição de risco”, afirma Alexandre Sá.
Nas poeiras combustíveis, comuns no agronegócio e na indústria de alimentos, que sustentam a economia goiana, ele defende tratar a análise de perigos de poeira (DHA) como ciclo, nos termos da NFPA 660, com revalidação a cada cinco anos ou a cada mudança relevante de processo. “A pergunta certa não é se a empresa tem DHA, mas se a DHA está viva.”
Para Alex, o maior erro corre em dois sentidos: “subestimar o risco expõe vidas; superestimá-lo drena caixa sem ganho de proteção.”
“O investimento em monitoramento é conhecido, planejável e orçável. O custo de um acidente é aberto: pode reunir perda de produção, dano patrimonial, multas, indenizações, benefícios previdenciários, investigação, reputação e, no limite, vidas humanas. Casos trabalhistas brasileiros mostram que, após um evento, podem se tornar relevantes no processo a prova de que a empresa mantinha o monitoramento, medidas coletivas, calibração dos sensores, histórico de manutenção e todos os registros técnicos”, complementa o CEO da Enesens
Evento em Goiânia
O tema será debatido no 2º Encontro do Comitê de Insumos Industriais (CII) da Acieg, em 4 de novembro, às 8h30, na sede da entidade, em Goiânia. Sob a provocação de que 97% dos estudos de áreas classificadas podem contar equívocos e riscos, Alex Maciel, que fará palestra no evento, discutirá com industriais critérios de prevenção, conformidade e priorização de investimentos. As vagas são limitadas e a inscrição custa R$ 100 para associados e R$ 150 para não associados. A inscrição pode ser feita pelo WhatsApp (62) 99484-4097.
Correlata: Quanto custa monitorar?
O que os dados públicos mostram é que não existe uma “média nacional” tecnicamente defensável para um projeto industrial completo de detecção de gases. Os escopos variam bastante: gás-alvo, número de pontos, tecnologia, classificação de área, cabeamento, automação, intertravamento, alarmes, instalação, comissionamento e manutenção. Por isso, a base abaixo usa referências públicas documentadas, sem chamá-las de preço médio de mercado.
Para citar um exemplo mais comum apenas de forma ilustrativa, um pacote público de 15 detectores multigás e 4 dispositivos de bump test custaria algo em torno de R$ 66,4 mil. Reforçando que é apenas com um exemplo e não equivale a um projeto turnkey de detecção fixa e não inclui todos os custos de engenharia, instalação, integração, gases de calibração, treinamento ou manutenção.
Custo para monitorar x sinistro
Confira o que representa o investimento em detecção e monitoramento de gases versus consequências financeiras documentadas de acidentes industriais no Brasil
> R$ 66,4 mil
Custo estimado de 15 detectores multigás + 4 dispositivos de bump test em referência pública












