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Mulheres negras pagam mais caro pelo crédito

Dados do Banco Central mostram que mulheres negras de baixa renda enfrentam as maiores taxas médias de juros, enquanto especialistas apontam os impactos do crédito caro sobre endividamento, autonomia financeira e construção de patrimônio

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
setembro 5, 2026
em Negócios
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Mulheres negras pagam mais caro pelo crédito
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Rafael Vaz 

Ter acesso ao sistema financeiro não significa, necessariamente, ter acesso às mesmas condições. Dados do Banco Central mostram diferenças importantes no custo do crédito quando são considerados, conjuntamente, gênero e raça. Entre os grupos analisados, as mulheres negras de baixa renda apresentam a maior taxa média anual de juros.

O dado está no Relatório de Cidadania Financeira 2025, elaborado pelo Banco Central com informações de 2024. Pela primeira vez, a publicação apresenta recortes de gênero e raça na análise do mercado de crédito. Entre as mulheres negras inscritas no Cadastro Único, 62% utilizam crédito. A taxa média anual é de 140% para mulheres negras, 128% para mulheres brancas, 110% para homens negros e 97% para homens brancos.

Os números revelam uma diferença média no custo das operações e ajudam a dimensionar uma desigualdade que ultrapassa a relação entre consumidor e instituição financeira. Renda, condições de trabalho, estrutura familiar, histórico de crédito e tipo de modalidade utilizada estão entre os elementos que ajudam a compreender esse cenário.

Quando o crédito vira sobrevivência

Para a advogada quilombola Kalunga Deuzília Pereira Coutinho Cruvinel, integrante do movimento de mulheres negras e defensora dos direitos humanos, os dados evidenciam a sobreposição de desigualdades de raça, gênero e classe social. “A impressão é de que é uma punição a esse público, para as mulheres negras”, avalia.

Na avaliação dela, a diferença nas taxas precisa ser observada dentro da realidade estrutural enfrentada pelas mulheres negras de baixa renda. “E número representa um ápice da sobreposição da opressão na questão da raça dentro do sistema econômico”, explica.

Deuzília chama atenção para o risco de a inclusão financeira acontecer sem que as condições oferecidas sejam adequadas à realidade econômica de quem está contratando o crédito. Para ela, a questão não está apenas em disponibilizar o dinheiro, mas em oferecer uma estrutura que considere as características e necessidades desse público. “Porque não basta o banco liberar o crédito pra esse público. Ela tem que ter uma estrutura pra atender, principalmente, esse público”, defende.

Em sua análise, parte desse crédito acaba sendo utilizada para enfrentar necessidades imediatas. Deuzília define esse movimento como um tipo de “crédito de sobrevivência”. 

Ela também aponta que a facilidade de contratação de empréstimos e parcelamentos pode contribuir para o superendividamento quando as condições financeiras da pessoa não comportam o custo da operação. Por isso, defende alternativas mais estruturadas. “O ideal é que houvesse um crédito estruturado ou um fomento”, avalia.

A relação entre crédito e orçamento familiar aparece novamente quando Deuzília fala sobre as mulheres responsáveis pelo sustento dos lares. Segundo ela, diante da pressão sobre o orçamento, o crédito pode ser utilizado para cobrir despesas básicas. “As mulheres negras, em sua grande maioria, chefiam os seus lares”, reflete.

A utilização do crédito, nesse contexto, não estaria associada necessariamente ao consumo de bens, mas à necessidade de manter os gastos essenciais em dia. Ela cita despesas como aluguel, alimentação e saúde como exemplos de compromissos que podem pressionar o orçamento familiar. 

Deuzília Pereira Coutinho Cruvinel, advogada quilombola Kalunga

A desigualdade que o mercado precifica

É nesse ponto que a análise de Christiano Quinan ajuda a explicar o funcionamento econômico por trás dos números. Professor, mestre em Administração, com MBA internacional pela University of California, Irvine, e executivo internacional, ele afirma que a diferença observada não decorre de uma pergunta direta sobre raça ou gênero feita pelos sistemas de análise de crédito.

“Nenhum sistema pergunta a cor ou o gênero. É algo que vem de fatores estruturais que se acumulam há décadas e são precificados pelo modelo, como renda média mais baixa, vínculos informais que fecham a porta para o consignado, chefia de família monoparental, além de dupla ou tripla jornada de trabalho”, explica.

Segundo ele, a soma desses vetores gera o perfil que o mercado classifica como maior risco. “O sistema financeiro não criou essa desigualdade. Ele a amplifica, todos os meses, com juros compostos”, destaca.

A avaliação desloca a discussão para fatores econômicos que são consequência de desigualdades anteriores. O histórico financeiro, a comprovação de renda e o tipo de crédito acessado podem influenciar diretamente o custo da operação.

Christiano explica que o crédito de varejo é composto por diferentes custos e que a provisão para inadimplência tem peso importante na diferença observada entre os grupos.

“A taxa no varejo brasileiro tem quatro camadas: custo de captação, custo administrativo, tributos e provisão para inadimplência. Histórico de crédito curto, renda formal comprovável baixa e uso concentrado em rotativo e parcelado empurram a provisão para cima, e o produto ofertado, com taxas mais altas”, afirma.

Segundo ele, a partir desses fatores cria-se um aprisionamento tarifário. “Quem só teve acesso ao rotativo permanece precificado pelo rotativo. Enquanto o produto disponível para esse perfil for majoritariamente rotativo, a taxa média será estruturalmente alta”, pontua.

Para Deuzília, essa dinâmica contribui para um processo de endividamento que pode se tornar crônico. Quando o orçamento já está comprometido, um novo empréstimo pode apenas adiar o problema.

Ela defende, além de crédito mais barato, ações de educação e organização financeira. Entre as alternativas, cita a oferta de condições mais vantajosas em modalidades como o consignado. “Consignados mais vantajosos seriam a alternativa contra empréstimos rápidos”, acredita.

A formação financeira, pontua, também pode ajudar as mulheres a compreenderem melhor a própria renda e organizarem as despesas. “Ter um estudo financeiro poderia fazer com que soubessem lidar melhor com o dinheiro para que o orçamento fique dentro daquilo que ganham por mês”, defende.

O custo que impede o patrimônio

Quando uma parcela significativa da renda é comprometida com juros, diminui também a possibilidade de poupar e investir. O crédito caro, portanto, pode ter efeitos que ultrapassam o período da dívida e interferir na capacidade de formação de patrimônio.

Christiano relaciona o problema à desigualdade patrimonial historicamente construída.  Para ele, o impacto também pode alcançar outras dimensões da vida. “Segundo o Banco Central, mulheres negras de baixa renda pagam até 140% ao ano em juros. A conta dos juros compostos sobre esse patamar elimina, na prática, a capacidade de poupança, de investimento e de acumulação patrimonial. O crédito predatório funciona como um imposto invisível que incide todo mês sobre a mesma população”, pontua.

Mas o impacto que quase ninguém está medindo, alerta, é o de saúde. “Estresse financeiro crônico é fator de risco documentado para ansiedade, depressão, hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares. A mulher adoece mais, falta mais, ganha menos, precisa de mais crédito”, ressalta.

A perspectiva coloca o crédito dentro de uma cadeia mais ampla: quanto menor a renda disponível e maior o comprometimento com dívidas, menor a possibilidade de construir uma reserva financeira ou realizar investimentos de longo prazo.

Christiano Quinan, professor, mestre em Administração, com MBA internacional pela University of California, Irvine, e executivo internacional

O que precisa mudar

Para Deuzília, enfrentar o problema exige combinar melhores condições de crédito com formação e políticas voltadas à autonomia econômica das mulheres negras. Ela defende investimentos em educação e gestão financeira, e considera que alternativas de crédito com juros mais baixos poderiam reduzir a dependência dos empréstimos rápidos.

Também aponta a necessidade de trabalhar aspectos sociais que interferem na vida financeira dessas mulheres, e acrescenta: “É preciso trabalhar também na questão da saúde mental dessas mulheres”.

Christiano, por sua vez, aponta três pontos que poderiam ser adotados por instituições financeiras e empresas. “São frentes que dependem apenas de decisão institucional, não de uma nova lei: bancos, fintechs e cooperativas redesenharem produtos para mulheres empreendedoras negras, com garantias alternativas. É segmentação de mercado, não filantropia. Segunda: consignado privado obrigatório em folha nos grandes empregadores. Terceira: fortalecer organizações do terceiro setor como plataformas de microcrédito produtivo capilarizado”, opina.

Dandara no Cerrado aposta em formação para ampliar autonomia de mulheres negras

A discussão sobre autonomia econômica das mulheres negras não começa nem termina no sistema financeiro. Antes de conseguir um crédito em melhores condições, uma mulher precisa ter renda, informação, acesso a direitos e oportunidades de formação. É nessa perspectiva que atua o Grupo de Mulheres Negras Dandara no Cerrado, organização criada em Goiânia em 2002.

Bióloga, cineasta e ativista, Marta Cézaria de Oliveira fundou o movimento, que desenvolve ações voltadas à defesa dos direitos das mulheres negras, ao combate ao racismo e à violência e à geração de trabalho e renda.

Segundo ela, a atuação do grupo busca criar condições para que as mulheres conheçam os seus direitos e possam construir caminhos de autonomia. Ao longo dos anos, o movimento vem incentivando mulheres a estudar, fazer cursos, prestar concursos e buscar formação profissional.

“Quando a gente fala de ascensão, temos que falar de direitos, de educação e de formação. Formação para quem precisa acessar e formação para quem vai atender”, afirma.

A experiência do Dandara no Cerrado inclui o acompanhamento de mulheres em diferentes situações de vulnerabilidade. Marta conta que o grupo chegou a oferecer moradia compartilhada para jovens que buscavam estudar e construir independência.

Em um dos casos relatados, cinco mulheres passaram a viver na sede da organização, em uma casa com três quartos. O grupo arcava com metade do aluguel, enquanto as jovens pagavam a outra metade. A proposta era permitir que elas tivessem condições de estudar e trabalhar.

O objetivo, conta Marta, era mostrar que a formação poderia abrir novas possibilidades. “A partir disso, começamos a mostrar que é o estudo que dá oportunidades”, garante.

Ela relata histórias de mulheres que fizeram cursos técnicos, chegaram à universidade, conseguiram empregos e, posteriormente, conquistaram bens como carros, terrenos e casas. Também menciona a trajetória de uma jovem quilombola que ingressou no curso de Odontologia e, depois da formação, voltou para a sua cidade e abriu o próprio consultório.

Para Marta, esse processo envolve mais do que disponibilizar uma oportunidade.

“Então, isso é o que a gente fala: empoderar, você dá direito. Mas dar direito, às vezes, você tem que pegar na mão.”

Marta Cézaria de Oliveira

O desafio do empreendedorismo

A geração de renda também faz parte da atuação do movimento. Marta, porém, questiona a maneira como o conceito de empreendedorismo é utilizado quando se fala sobre mulheres negras.

“Muita gente fala: vai pro empreendedorismo. Eu falei: toda vida nós fomos empreendedoras? Nunca vi um povo mais empreendedor do que a mulher preta.”

A ativista lembra que mulheres negras, historicamente, encontraram formas de gerar renda por meio da venda de alimentos e outros produtos. Para ela, a questão está em garantir que essas atividades possam se transformar em oportunidades econômicas mais estruturadas, com formação e preparação para o mercado. “Quando falo de formação, capacitação e preparação de início de mercado, é isso”, define.

Marta observa que muitas mulheres negras continuam ocupando posições pouco valorizadas e pouco visíveis dentro de diferentes cadeias produtivas. “Porque a maioria das nossas mulheres não está na linha de frente. Elas estão no trabalho ali, costurando por trás, fazendo comida, limpando”, ressalta.

A experiência do Dandara no Cerrado parte justamente da tentativa de ampliar esses caminhos. Para Marta, políticas voltadas a mulheres negras precisam considerar diferentes dimensões da desigualdade. “Quando falamos de mulheres negras, precisamos de uma política global”, conclui.

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