Toda empresa afirma valorizar as pessoas. A maturidade começa quando essa afirmação precisa ser comprovada por decisões, indicadores e condições de trabalho.
Em estudo exploratório sobre a maturidade ESG de 20 empresas de Goiás, foram analisados sites, relatórios, políticas e conteúdos públicos. O levantamento não constitui auditoria ou ranking. A ausência de informação não prova a inexistência da prática, mas revela aquilo que a organização ainda não consegue demonstrar.
O quadro expõe uma contradição: as empresas demonstram maior maturidade para realizar ações sociais do que para escutar seus públicos, medir resultados e transformar aprendizados em decisões. Em “Resultado, Impacto e Aprendizado”, nove das 19 empresas com dados disponíveis ficaram no nível M2; oito no M3; e apenas duas no M4. Nenhuma alcançou o estágio estratégico e adaptativo.
Essa lacuna ganha urgência com a NR-1, que incluiu fatores de risco psicossociais no gerenciamento dos riscos ocupacionais. Sobrecarga, assédio, metas abusivas e organização inadequada do trabalho passam a exigir prevenção empresarial.
Segundo o Ministério da Previdência Social, em 2025 foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária associados a transtornos mentais e comportamentais, aumento de 15,66% sobre 2024. Nem todos podem ser atribuídos ao trabalho, mas o dado reforça a necessidade de prevenção.
Eventos internos e campanhas de saúde mental podem ajudar, mas não substituem a revisão de cargos, metas, jornadas, lideranças, autonomia e relações de trabalho. Bem-estar não pode ser apenas uma atividade do calendário corporativo; precisa influenciar a organização do trabalho.
A pergunta para a diretoria é direta: nossa empresa identifica as condições que produzem adoecimento antes que elas apareçam como afastamento, denúncia, processo ou perda de profissionais?
O estudo não afirma que as empresas goianas não cuidam de suas pessoas. Revela algo mais incômodo: muitas ainda não demonstram como esse cuidado orienta decisões, previne riscos e produz resultados. Quando ações de pessoas não chegam ao planejamento, aos indicadores e à gestão de riscos, o compromisso social permanece fragmentado.
Cuidar depois que as pessoas adoecem é assistência. Redesenhar o trabalho para evitar que adoeçam é governança. No fim, uma empresa não prova que valoriza pessoas pelo que declara ou pelo que oferece depois da crise, mas pelo que está disposta a transformar antes que ela aconteça.

Vinicius Rezende Basilio, sociólogo, MBA em Finanças e Gestão Estratégica de Negócios e Gestão Comercial com ênfase em Responsabilidade Social. Especialista em projetos de impacto positivo e relacionamento institucional.














