Durante um certo tempo, ouvi muito a frase de que o Centro-Oeste seria a região mais desigual do Brasil, não a mais pobre, mas a mais desigual. Fique claro que pobreza é diferente de desigualdade; a sentença, portanto, apontava que a distância entre os mais ricos e os mais pobres seria maior aqui do que nas demais regiões.
Estudar dados nos permite comprovar ou rejeitar teses. Já não aceito essa como verdadeira, até que me provem o contrário com base nos números que analisei. Na PNAD Contínua (IBGE), o índice de Gini do Nordeste é 0,507, o do Brasil é 0,50 e o do Centro-Oeste, 0,485. A região ocupa a terceira posição no ranking da desigualdade e fica abaixo (menos desigual) da média nacional.
Goiás vai além: com índice de Gini de 0,46, é o sétimo Estado menos desigual do País, no terço mais equilibrado da federação – um detalhe que ajudou neste processo de redução das desigualdades foi o crescimento econômico equilibrado entre setores. No comércio (atacado e varejo), Goiás sempre se destacou regionalmente; na indústria, temos o sétimo parque fabril do País; e, no agronegócio, somos top 5 em boa parte das principais commodities de grãos e carnes.
Essa constatação não nos põe na prateleira mais alta da justiça distributiva. Mas reposiciona a conversa e a “acusação”. Os números descrevem mais e melhor do que o clichê. Entre 2019 e 2024, a pobreza no Brasil caiu de 34,6% para 26,6%. Em Goiás, de 29,5% para 19,8%, recuo de 9,8 pontos, o quarto maior do País, com 606 mil pessoas cruzando a linha da pobreza na direção certa (para cima). Mato Grosso foi de 25,4% para 15,2%, o menor patamar centro-oestino. Mato Grosso do Sul e Distrito Federal também ficaram abaixo da média nacional em todos os anos da série. Nenhuma exceção.
E a renda acompanha. O rendimento médio do trabalhador goiano é de R$ 3.946 (já tendo, em alguns meses, batido os R$ 4 mil), contra R$ 3.738 da média do brasileiro. Renda acima da média e o Gini abaixo, ao mesmo tempo, são variáveis que tombam o mito da desigualdade.
Mas, se entrar nos pormenores dos dados e avaliar as questões municipais, percebe-se, em situações até recorrentes, um fenômeno que chamo de mobilidade sem redistribuição.
Funciona assim: A base e o topo sobem – a miséria encolhe –, mas a distância entre o topo e a base permanece quase a mesma. Não é novidade: entre 2000 e 2010, na óptica municipal do Censo, a pobreza no Centro-Oeste despencou de 20,4% para 8,7% enquanto o Gini médio dos municípios recuava timidamente, de 0,61 para 0,57. A pobreza tomba, mas a desigualdade fica caindo a passo de tartaruga.
Neste caso, observa-se que o motor que movimentou a economia não foi a transferência de renda, foi o trabalho gerado. Quando a renda cresce na base pelo emprego formal, e no topo pelo capital investido, o índice fica parado enquanto a pobreza cai. É um avanço sincronizado. Se fosse transferência, haveria um desequilíbrio – cresceria a liquidez das economias locais sem, necessariamente, crescer o emprego e as empresas.
E, falando em desigualdade, a goiana se apresenta onde? Não entre domicílios ricos e pobres, mas dentro do mercado de trabalho: os homens ganham, em média, R$ 4.129, e as mulheres, R$ 2.957, um abismo de 39,6%.
Outros pontos também destoam na região. O Mato Grosso tem municípios com Gini de 0,36, semelhante ao de países desenvolvidos, como os europeus, mas, ao mesmo tempo, ostenta cidades com Gini de 0,87, indicador de desigualdade social extrema e alarmante, decorrente da elevada concentração fundiária. Ainda no Centro-Oeste, Brasília, com 0,51, é cercada por cidades do Entorno mais desiguais do que ela.
A média esconde os extremos, pois a cidade tem a maior média salarial do país, com R$ 6.845,13 mensais. Para esta análise, usamos o Gini da PNAD, que difere do Gini do Censo: um avalia a renda do trabalho principal e o outro, a renda de todos os trabalhos.
Qualquer que seja a análise, o Centro-Oeste não é o retrato da desigualdade brasileira. É a fotografia em tempo real de uma sociedade em trânsito, mas que sobe renda e reduz a pobreza mais rápido do que redistribui. O polo de tecnologia que se forma no Estado, a ampliação dos investimentos em educação, a geração de empregos mais qualificados e a tração e/ou adaptação das empresas para novos setores e cenários da economia na próxima década têm forte potencial para acelerar a distribuição e levar Goiás a mudar essa dinâmica.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














