Faça um exercício. Relembre mentalmente as últimas cinco reuniões de conselho de que você participou, os últimos vinte posts que passaram no seu LinkedIn, os últimos cinco jantares corporativos. Sobre o que se falou?
IA. Ebitda. Taxa de juros. Economia. IR. Resultado. Eficiência. Política. IA de novo. Meta. Escalar. Automatizar. Otimizar. Internacionalizar.
Sobre o que não se falou?
Sobre o abraço que não foi dado. Sobre um gerente que faltou três dias e ninguém fez o exercício da verdadeira escuta ativa. Sobre o colaborador que sorriu de manhã sem ninguém notar. Sobre o filho que perguntou se você ia jantar em casa. Sobre a solidão que virou epidemia silenciosa dentro das melhores empresas do País.
Os dados são incontestáveis. O burnout já é reconhecido pela OMS como doença ocupacional, beirando a próxima pandemia. A depressão é a principal causa de incapacidade para o trabalho no mundo. Um em cada quatro brasileiros vai enfrentar algum transtorno de ansiedade ao longo da vida. Suicídio entre profissionais de alta performance bate recordes que nenhum release trimestral publica.
E, enquanto isso, continuamos otimizando. Escalando. Automatizando. Cortando.
O mais cruel: nunca estivemos tão conectados, e nunca nos sentimos tão sozinhos. Estamos sempre disponíveis para uma reunião, quase nunca disponíveis para uma conversa. Sempre presentes no Insta, quase nunca presentes na mesa do café. Passamos décadas construindo empresas que funcionam como algoritmos e nos surpreendemos quando as pessoas dentro delas adoecem em silêncio, num colapso sem alarme prévio.
Sim, precisamos de IA. Precisamos de inovação. Precisamos de resultado. Nada disso é o problema. O problema é o que fica de fora quando essas palavras ocupam todo o espaço.
Que futuro estamos construindo? Um em que ganhamos produtividade e perdemos gente. Um em que temos algoritmo para tudo e presença para nada. Um em que a eficiência de uma reunião mede quantos itens saíram da lista, e não quantas pessoas saíram da sala se sentindo melhor por terem estado lá.
Depois de décadas em conselhos, presidências e no palco do TEDx, garanto: nenhum indicador financeiro sustenta por muito tempo uma empresa cujos líderes esqueceram como olhar nos olhos.
Precisamos da IA, mas precisamos mais de conexões humanas. Precisamos melhorar resultado, mas precisamos escutar mais. Precisamos de mais métricas, mas precisamos de mais presença. Precisamos de mais tecnologia, mas precisamos de muito mais abraços, sorrisos, amor e cuidado.
A pergunta a se fazer amanhã, na primeira reunião do dia, não é qual meta alcançar ou qual investimento aprovar. É outra: quando foi a última vez que alguém aqui me perguntou como eu estou, e esperou pela resposta?
Se a resposta demora, temos um problema estratégico, não humano. Estratégico. Porque nenhuma empresa sobrevive à erosão silenciosa das pessoas que a fazem existir.
Por um futuro cada vez mais humano. Inclusive, e sobretudo, quando ninguém está medindo.

Prof. Christiano Quinan é executivo internacional da saúde, residente permanente nos EUA pelo visto EB2-NIW, Fellow do American College of Healthcare Executives (ACHE), Presidente do Instituto Cruzeiro do Sul, Co-Fundador da primeira ACO do Brasil, autor de livros e artigos científicos, palestrante e TEDx Speaker.














