O editorial da edição anterior defendeu, com razão, que o voto ideológico substituiu o voto em projetos, mas há um projeto concreto em disputa no Brasil que não cabe na dicotomia esquerda-direita: desenvolver, sustentando investimento, renda e soberania democrática ou repetir o ajuste recessivo argentino, que fragiliza instituições e aprofunda o alinhamento aos Estados Unidos? A pergunta certa não é “de que lado você está?”, é “por onde queremos que o Brasil vá?”.
O exemplo mais claro dessa disputa é o debate fiscal, em que a comparação com a Argentina fica evidente: corte de despesas sociais e investimentos públicos ou aumento da arrecadação? Aumento, aqui, não significa elevar alíquota, e sim recuperar o que hoje deixa de entrar no cofre público. Insiste-se na primeira via: congelamento real de gastos, resistência ao reajuste do mínimo, cortes lineares em políticas sociais. Marcos Mendes defendeu, na Folha, corte de 1,9% do PIB, pouco diante do que se deixa de arrecadar: gastos tributários somam 7,2% do PIB em 2025 (FGV Ibre/Manoel Pires), acima dos 6% do Ministério da Fazenda; a sonegação empresarial soma R$ 508,5 bilhões/ano, 9,9% da arrecadação (IBPT, 2025), não 10% do PIB como se costuma repetir.
Sobre o patrimônio: aeronaves e embarcações eram isentas de IPVA por jurisprudência do STF (RE 379.572); a Reforma Tributária já autoriza os Estados a tributá-las, mas a regulamentação segue incompleta, e o Imposto sobre Grandes Fortunas, previsto desde 1988, segue sem regulamentação. Nas bets, o apostador paga 15% sobre o prêmio líquido, com isenção até R$ 28.467,20/ano, contra 30% sem isenção da Mega-Sena — paga menos, mas o ponto está nas operadoras: recolhem só 12% sobre o GGR, subindo a 15% só em 2028, além da cesta padrão de IRPJ/CSLL/PIS/Cofins. A Caixa, estatal, destina por lei quase metade da arrecadação bruta a prêmios e fins públicos. Proporcionalmente, as bets entregam ao Estado bem menos do que a loteria repassa à sociedade.
Por que o ajuste recai sobre a despesa, quase nunca sobre a receita perdida? A resposta está no capitalismo financeirizado: esse regime busca acumulação financeira e, para isso, o maior devedor do sistema, o Governo, precisa concentrar esforços no pagamento da dívida, receita dos investidores do outro lado do balanço – diferente do gasto social, que gira na economia real sem alimentar diretamente essa acumulação. O corte de Mendes libera excedente para juros, sem tocar na receita.
Se o ajuste viesse pela arrecadação, sobrariam menos recursos privados para aplicação financeira e mais para despesa pública e investimento. O editorial pediu que se pergunte “o que você vai fazer, como, com quem e com que dinheiro?” antes de escolher lado. Por que o ajuste recai sobre quem depende do gasto social, e raramente sobre quem se beneficia da renúncia fiscal, da sonegação e da subtributação do patrimônio e das bets? Não é pergunta de esquerda ou direita, é pergunta sobre que Brasil queremos construir.

Marcos Freitas, empresário, economista, mestre e doutorando.














