Rafael Vaz
Para muitos empresários, o fim do expediente não representa exatamente uma pausa. Longe das salas de reunião, das planilhas e das negociações, eles encontram em hobbies, esportes e atividades pessoais uma forma de renovar as ideias, aliviar a pressão da rotina e desenvolver habilidades que acabam refletindo diretamente na gestão dos negócios. O tempo livre, cada vez mais escasso, tornou-se também um espaço de aprendizado, criatividade e observação.
Enquanto alguns encontram esse equilíbrio sobre duas rodas, percorrendo estradas e cidades, outros mergulham em livros, pesquisas e produção intelectual. Em comum, todos compartilham a certeza de que investir em interesses pessoais não significa se desconectar da empresa, mas ampliar a capacidade de enxergar oportunidades, compreender pessoas e tomar melhores decisões.
A Leitura Estratégica conversou com empresários de diferentes segmentos para descobrir o que fazem quando não estão trabalhando e como essas atividades influenciam sua forma de liderar.

Em meio à intensa rotina à frente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), André Rocha faz da corrida um momento para desacelerar. Praticada ao ar livre, a atividade tornou-se um dos principais hábitos de sua rotina, ajudando a aliviar a pressão do dia a dia e a reorganizar as ideias.
“A corrida é a atividade que eu consigo fazer com mais tranquilidade, sem interrupção. Quando saio para correr, fico cerca de uma hora e consigo realmente descansar a cabeça”, revela.
Embora também tenha na leitura, no cinema e no convívio com a família importantes momentos de lazer, é a corrida que hoje está mais presente em sua agenda. Segundo ele, o esporte permite desligar das demandas profissionais e recuperar o equilíbrio necessário para enfrentar novos desafios.
Para o presidente da Fieg, reservar um tempo para si é também uma forma de aprimorar a atuação profissional. “A gente precisa, de vez em quando, tentar desligar um pouco para depois ajudar a pensar no dia a dia e fazer e refazer estratégias”, afirma.
Pai de quatro filhos, André Rocha destaca ainda que busca aproveitar o tempo livre ao lado da família, especialmente diante da rotina intensa de compromissos. Entre o trabalho e as responsabilidades pessoais, encontrou na corrida uma aliada para manter o bem-estar e a mente preparada para as decisões do cotidiano.

Para Marcos Freitas, a expressão “tempo livre” tem um significado bastante particular. Quando não está em reuniões ou à frente das empresas que fundou, ele dedica horas ao estudo, à leitura e à escrita — atividades que considera seu principal hobby e que alimentam, diariamente, sua atuação como gestor.
Economista de formação, Marcos mantém uma rotina intensa de aprendizado. Aos fins de semana, reserva as manhãs para a leitura e, ao longo da semana, aproveita qualquer intervalo para aprofundar conhecimentos em economia, filosofia, sociologia, antropologia e política. Atualmente, conclui um doutorado em Turismo, no México, depois de sete anos de pesquisa, além de acumular outras especializações acadêmicas.
O hábito de escrever também ganhou força nos últimos anos. Autor de quatro livros técnicos, coautor de outras publicações e de diversos artigos científicos, ele prepara novos títulos para lançamento. A produção intelectual, no entanto, não faz parte de sua atividade profissional. É, segundo ele, uma forma de organizar ideias, refletir sobre a sociedade e compartilhar sua visão de mundo.
Essa busca permanente por conhecimento influencia diretamente sua forma de administrar. Marcos acredita que compreender aspectos econômicos, sociais e políticos amplia a capacidade de análise e fortalece o processo de tomada de decisões dentro das empresas. Nos últimos anos, afirma que a inteligência artificial passou a integrar essa rotina, acelerando pesquisas e permitindo análises mais amplas e aprofundadas sobre diferentes cenários.

Depois de uma rotina intensa atendendo pacientes de diferentes partes do país — entre eles artistas, atletas e influenciadores —, Rildo Lasmar encontra sobre duas rodas o seu momento de descontração.
Há cerca de 30 anos, o motociclismo faz parte de sua vida. Mais do que um hobby, tornou-se uma oportunidade para percorrer cidades, observar transformações urbanas e identificar tendências de desenvolvimento.
Segundo ele, cada viagem permite enxergar o crescimento das regiões por onde passa e compreender melhor as necessidades do mercado. Uma experiência que, naturalmente, amplia sua percepção sobre oportunidades e mudanças que também impactam sua atuação profissional.

Entre números, relatórios e decisões estratégicas, Shirley Leal reserva espaço para atividades que ajudam a desacelerar. Apaixonada por cinema, ela faz dos filmes um dos principais momentos de lazer, seja nas salas de exibição ou em casa, pelas plataformas de streaming. “Acho que é uma coisa que relaxa. Você se envolve naquele filme, gosta da história. São momentos que me fazem relaxar”, afirma.
Além do cinema, a atividade física e a música também fazem parte de sua rotina. Para a executiva, esses momentos ajudam a aliviar a intensidade do dia a dia e contribuem para manter o equilíbrio necessário para enfrentar os desafios da gestão.

Viajar é uma das atividades que Rubens Fileti mais aprecia quando está longe da rotina de trabalho. Presidente da ACIEG, ele divide esse tempo entre missões institucionais e viagens em família, ao lado da esposa, Suzana, e dos filhos, Isabella e Igor. “O que se vive fora do escritório é o que dá lastro ao que se decide dentro dele”, explica.
Ao longo dos anos, as viagens passaram a fazer parte de sua rotina à medida que sua atuação empresarial e institucional se ampliou. Mais do que conhecer novos destinos, Fileti aproveita cada experiência para observar mercados, culturas empresariais e diferentes formas de solucionar problemas.
Segundo ele, muitas ideias aplicadas na empresa surgiram justamente dessas experiências. “Muita coisa que aplicamos hoje na empresa nasceu de uma observação feita fora do Brasil, de um modelo de atendimento, de uma organização de processos, de uma leitura de mercado”, afirma.
Para o empresário, viajar amplia o repertório e contribui para uma visão mais estratégica dos negócios. “Viagem sem leitura vira turismo; leitura sem viagem vira teoria. Juntas, formam critério para decidir”, resume.

O triatlo se tornou um dos principais desafios pessoais de Eurípedes Júnior fora do ambiente de trabalho. Diretor da AHL Agro, ele iniciou na modalidade em 2018 e encontrou no esporte muito mais do que uma atividade física: uma escola de disciplina, foco e perseverança. “O triatlo me ensinou que, com treino, disciplina e foco, podemos chegar ao nosso objetivo. Aprendi a curtir o caminho para chegar à meta.”
Embora mantenha uma rotina de exercícios há mais de 20 anos, incluindo musculação e, mais recentemente, yoga e pilates, foi no triatlo que Eurípedes encontrou uma atividade capaz de transformar sua forma de encarar desafios.
Para o empresário, os aprendizados adquiridos durante os treinos ultrapassam o esporte e acompanham sua atuação profissional. A busca por resultados, segundo ele, exige constância, planejamento e dedicação, mas também a capacidade de valorizar cada etapa do processo, e não apenas a linha de chegada.

Para Marina Zuppani, o tempo longe da empresa tem um destino certo: os filhos. À frente da Zuppani Industrial, ela afirma que, nesta fase da vida, não cultiva um hobby específico nem pratica um esporte regularmente. Sempre que a agenda permite, a prioridade é estar com a família.
“Hoje, eu não tenho tempo para muitas outras coisas. Com o tempo que eu tenho, eu gosto de passar com os meus filhos. É isso que me alimenta para continuar produzindo, crescer e fazer a empresa crescer”, explica.
Desde o nascimento da primeira filha, em 2011, a maternidade passou a ocupar o centro de sua rotina. Mãe de dois filhos, Marina reconhece os desafios de conciliar a liderança de uma empresa com a vida familiar e acredita que esse ainda é um dos maiores obstáculos para o crescimento da carreira de muitas mulheres.
Com o passar dos anos, ela viu a culpa dar lugar ao orgulho. Hoje, conta que os filhos acompanham sua trajetória e comemoram as conquistas da empresa, reconhecendo o trabalho que existe por trás de cada resultado. “Eles são a razão por trás de tudo. Não só financeiramente, mas também em questão de legado”, afirma.
Sucessora da segunda geração da Zuppani Industrial, Marina diz que seu maior desejo é construir uma empresa cada vez mais sólida para que ela continue atravessando gerações, preservando a história da família e inspirando o futuro dos filhos.












