ANO 28 – 1983 – O ano do aperto
Por Leandro Resende
Na manhã de 15 de março de 1983, Iris Rezende subiu a rampa do Palácio das Esmeraldas diante de uma multidão. Era o primeiro governador goiano eleito pelo voto direto em quase duas décadas e assumia no pior momento possível. O Brasil vivia o ano mais duro da crise da dívida externa. A inflação passou dos 200%, a recessão fechava fábricas, o desemprego crescia nas cidades e o País negociava com o Fundo Monetário Internacional (FMI) um acordo que mandava apertar o cinto de todos. Nas ruas, começava a nascer o movimento que pediria eleições diretas para presidente.


Em Goiás, porém, havia um amortecedor: a agricultura. Enquanto a indústria nacional encolhia, o Cerrado Goiano seguia produzindo. Soja, arroz, milho e o rebanho bovino sustentavam a economia do Estado, que, na prática, ainda exportava grãos e importava manufaturados. O Feicom, fundo de incentivo criado em 1975, pouco havia destravado. A industrialização, naquele momento, contava muito com obras das cooperativas: a Comigo, em Rio Verde, já esmagava a soja que antes viajava in natura para outros Estados.
Na sede da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCG, que hoje é chamada de OCB/GO), o presidente Jales Rodrigues Naves, com o vice Paulo Roberto Cunha ao lado, atravessava o último ano cheio do triênio iniciado em 1981. Foi um ano de defesa: garantir crédito rural num País sem dinheiro, manter as cooperativas de consumo funcionando com a inflação corroendo as prateleiras e sustentar o diálogo com o novo governo estadual. A estrutura montada desde 1956 passava por uma nova prova de fogo (e resistia).
Nos bastidores da OCG, outra movimentação: o triênio terminava em 1984, e o sistema começava a preparar a renovação de seu comando.

ANO 29 – 1984 – OCB/GO troca de comando em um ano de fundações
Se no âmbito federal, o Congresso havia derrubado a emenda das Diretas Já, em 25 de abril de 1984, o País engolia a decepção, mas seguia em frente. Apenas duas semanas depois, em Goiânia, o cooperativismo goiano realizava sua eleição, essa, sim, concluída.
Em 8 de maio de 1984, a assembleia da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCG, hoje OCB/GO) elegeu Paulo Roberto Cunha presidente. O advogado que servira como vice de Jales Rodrigues Naves assumia o comando do sistema. Naves entregava a casa em ordem, depois de atravessar a pior recessão em décadas, e Cunha recebia a liderança, diante de um Estado em plena mudança.

E 1984 prometia. Em Goiás, foi um ano de fundações. Em 19 de julho, o governador Iris Rezende sancionou a Lei nº 9.489, criando o Fomentar, o fundo que financiava 70% do ICM (que se tornariam ICMS nos anos seguintes) devido pelas indústrias que se instalassem no Estado. Nascia ali a tese que guiaria Goiás por 40 anos: melhor ficar com 30% de algo do que com 100% de nada.
Para a Comigo, cooperativa agroindustrial, que já esmagava soja e beneficiava grãos, o recado era claro: a industrialização virava projeto de Estado. E, em 20 de agosto, em Rio Verde, veio a fundação que fechava um ciclo de quase três décadas. Nascia a Credi-Comigo, cooperativa de crédito ligada à Comigo, tendo Eduardo Rodrigues Lima como primeiro presidente.
Décadas antes, na segunda assembleia da então UCEG (primeiro nome da OCB/GO), em novembro de 1956, Geraldo Rodrigues dos Santos defendera que o crédito para o campo goiano viesse por meio das próprias cooperativas. Vinte e oito anos depois, o sonho dos pioneiros ganhava CNPJ no Sudoeste Goiano: o produtor passava a financiar o produtor. Era o começo de um sistema de crédito cooperativo que se espalharia por todos o Estado, sendo, em poucas décadas, um dos segmentos fortes do cooperativismo em Goiás.
Sob o comando de Paulo Roberto Cunha, o cooperativismo goiano fechava o ciclo do regime militar com crédito próprio, indústria em construção e assento na mesa onde se desenhava o novo Goiás.














