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Perfil: Adriano Pinheiro

“Eu aprendia trompete de ouvido. Era analfabeto musical, não entendia partitura. Quando a orquestra começou a tocar, eu não sabia ler aquilo. Levei uma bronca do maestro”

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
julho 4, 2026
em Perfil
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Perfil: Adriano Pinheiro

Fotos: Arquivo pessoal

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Por Rafael Mesquita

A ópera frequentemente é vista como uma arte distante, própria de grandes teatros europeus. No entanto, para o tenor lírico goiano Adriano Pinheiro, ela sempre foi uma ferramenta de conexão e transformação social. Por trás dos agudos precisos que já ecoaram em palcos de 12 Países, existe a história de um homem que dedica a vida a democratizar o ensino da música.

Cruzar o Atlântico, apresentar-se sob a regência de grandes maestros e ser visto por renomados artistas foi marcante para a sua trajetória. Em uma dessas apresentações, tinha apenas 29 anos quando cantou para o tenor que popularizou a ópera mundialmente, Luciano Pavarotti. Foi em uma audição na Itália, durante um festival. “Fiquei muito nervoso. Ele me aconselhou a relaxar e, no final das contas, gostou muito e elogiou. Disse que eu estava no caminho certo”, recorda.      Contudo, o impacto de sua história não o envaidece e está justamente no caminho de volta para casa. Adriano escolheu retornar às suas raízes goianas para plantar sementes na terra que o viu nascer. 

Caçula de cinco filhos, ele nasceu em Goiânia , em 1973. Na infância, era autodidata para a música. Aprendeu a tocar flauta e violão com sete anos de idade. Depois, foi para o trompete na fanfarra do colégio onde estudava. Com 12 anos, já tocava em eventos espíritas que participava, época em que foi convidado a integrar a Orquestra Filarmônica de Goiás, regida pelo renomado maestro Joaquim Jayme.  

A falta de conhecimento teórico quase atrapalhou esse início. “Eu aprendia trompete de ouvido. Era analfabeto musical, não entendia partitura. Quando a orquestra começou a tocar, eu não sabia ler aquilo. Levei uma bronca do maestro”, recorda. Adriano explicou para Jayme que precisava ouvir a música antes para tocar. Resultado: um dia depois, realizou a sua primeira apresentação com a orquestra. 

Ao concluir o ginásio, veio um baque que poderia ter encerrado a carreira musical do talento. Ele teria que mudar de escola e, sendo assim, não integraria mais a fanfarra do antigo colégio e teria que devolver o trompete. “Meu pai não tinha dinheiro para comprar o instrumento, então abandonei a música naquele momento”, explica.

Adriano fez o curso de Eletrotécnica na antiga Escola Técnica de Goiás. Na época, jogava vôlei e integrava a seleção goiana da modalidade. Nem pensava mais em seguir na música. Até que uma hérnia de disco o tirou do esporte. “Para ser dispensado da educação física, eu teria que integrar a banda ou o coral”, afirma. 

A irmã, Karina, já ensaiava com o coral. Decidiu, então, participar de uma audição para ingressar no grupo. “Me acovardei e fugi das duas primeiras tentativas”, brinca. Percebendo a timidez do jovem, certo dia, o maestro o convidou para ajudá-lo a cantar uma música. Ao ouvir Adriano soltando a voz, ele se surpreendeu: “você é um tenor”. O jovem talento retornava, então, à música. 

Na época do vestibular, estava dividido entre três cursos: Engenharia Elétrica, Ciência da Computação e Música. O pai, seu Brasil, aprovou as duas primeiras opções. A última foi motivo de bronca. “Ele me perguntou que músico tinha uma vida financeira sólida. Eu respondi o Pavarotti. Me falou pra citar outro e eu não soube dizer”, conta. 

Mas o coração prevaleceu. Na inscrição para o vestibular da UFG, optou pelo curso de Música como primeira opção e Ciência da Computação como segunda. O pai só soube da escolha no dia em que foi anunciada a aprovação do filho em segundo lugar. “Ele ficou muito bravo e queria me expulsar de casa. Minha mãe disse que estava orgulhosa e não deixou”, afirma. 

A aprovação paterna só aconteceu alguns anos depois, quando Adriano ainda fazia faculdade e foi convidado para uma audição em Goiânia com professores de Barcelona, na Espanha. Seu Brasil havia visto na televisão que o filho iria se apresentar e decidiu ir. “Quando comecei a cantar, olhei para a plateia e ele estava chorando. Aquilo foi um baque para mim”, emociona-se. A partir daí, o pai passou a ter orgulho do talento do filho. “Era só o que eu precisava dele”, conta. 

Recém-formado, Adriano já era professor do Colégio Marista, em Goiânia. Depois, convidado para ser tenor no Theatro Municipal de São Paulo. Teria que deixar Goiânia e lutar para sobreviver na maior capital do País. “Foi um choque de realidade. Nem eu acreditava que estava no meio daquilo”, destaca. 

As dificuldades começaram quando o salário, pago pela Prefeitura de São Paulo, atrasou por seis meses. “Passei dificuldades financeiras. Morava em um apartamento alugado, tinha apenas um colchão e um filtro”, explica. Foram 11 anos vivendo na capital, período em que, devido às dificuldades financeiras, chegou a se apresentar em mais de 30 casamentos por mês. 

Mesmo com a falta de dinheiro, conseguiu estabelecer bons contatos e se apresentar, por exemplo, para o papa João Paulo II, no Vaticano, por meio da orquestra Brasilessência, regida pelo maestro Victor Gabriel. Posteriormente, teve a experiência de cantar para mais dois papas Bento XVI, em São Paulo, e Francisco, no Vaticano. 

Resolvida a questão do atraso salarial, em uma das vindas a Goiás para aproveitar as férias, um passeio despertou uma paixão na vida do artista que estava escondida no passado. 

A companheira de uma vida

Parece história de filme. Adriano estava com um primo em Rio Quente, no interior de Goiás, quando viu Flávia Lançoni. Ele tinha certeza de que a conhecia, mas não se lembrava de onde. Comentou com um parente: “é a mulher da minha vida e será a mãe dos meus filhos”.

Claro que Adriano a conhecia. Ela era Flávia, que frequentava a Federação Espírita e participava com ele da Campanha da Fraternidade. Os dois tinham nove anos de idade e, apesar de tanto tempo ter se passado, lembraram-se um do outro.

Poderia começar ali uma linda história de amor. Mas não foi bem assim. Flávia estava casada na época, o que foi um “balde de água fria” para Adriano. Mesmo assim, o trabalho beneficente ainda aproximou os dois por um tempo, e Flávia ajudou a organizar um evento de arrecadação de alimentos em Goiatuba, no interior do Estado, em que o tenor iria se apresentar gratuitamente. “Conseguimos arrecadar um bom dinheiro para doação, mas, quando acabou a apresentação, me deu uma tristeza, porque não a veria mais”, explica. 

Vida que segue. Tempos depois, ainda em São Paulo, Adriano recebe uma ligação do irmão de Flávia dizendo que ela havia se separado do marido. “Estava caminhando na rua e até parei de emoção”, brinca. Inicialmente, o tenor a chamou para assistir a um espetáculo dele no Theatro. Ela não aceitou. “Eu disse que, se um dia quisesse conversar, me procurasse”, recorda. 

Flávia o procurou, um mês depois. A troca de mensagens durou três meses, até que o artista decidiu mandar passagem de avião, hotel e ingresso de um espetáculo da Broadway que seria apresentado na capital paulista. Inicialmente, ela ligou brava e reclamou do convite, mas depois mudou de ideia. Assistiram a peça, depois outra. Até que o momento tão esperado aconteceu. Um beijo na plateia do teatro, como em uma cena de filme. “Se não fosse por ela, eu estaria trabalhando no exterior, cantando pela Europa. Mas a Flávia transformou a minha vida”, conta, apaixonado. Da relação que já dura 20 anos, o casal tem a filha, Ana Laura Lançoni Pinheiro, 12 anos . 

O retorno

Adriano só decidiu voltar a viver e trabalhar em Goiânia pelo desejo de estar junto da esposa e da filha Ana Laura. Quando deixou o Theatro Municipal de São Paulo para se casar em 2007, se viu em um dilema. Como progredir na carreira vivendo em Goiânia? A solução seria tentar ingressar na Faculdade de Música da UFG. Para isso, a necessidade de se graduar. Com um curso de mestrado concluído em São Paulo, resolveu fazer doutorado na segunda maior escola de canto lírico do mundo, em Manhattan, nos Estados Unidos. 

Foram dois anos de distância da esposa Flávia. Eram 17 horas por dia de trabalho e estudos. O casal se encontrava apenas nas férias. Adriano poderia ter seguido a carreira nos palcos americanos, mas, após se apresentar em um grande concerto, estava decidido. “Terminei o espetáculo, casa lotada, e não tinha uma pessoa para conversar. Estava muito sozinho, precisava retornar ao Brasil”, recorda. 

A aprovação em um concurso na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) o deixou a apenas três horas de voo da família em Goiânia. Os encontros aconteciam a cada 15 dias. A situação se agravou com o nascimento da filha Ana Laura. “Após a licença paternidade, quando tive que voltar, enlouqueci. Chorei bastante”, afirma. Mas, na quinta tentativa de uma transferência para a UFG, Adriano finalmente conseguiu o que queria e, em 2017, retornou definitivamente a Goiânia.          

Professor de canto do curso de Música da UFG, ele usa toda a experiência adquirida em 30 anos de profissão para oferecer as ferramentas que os estudantes precisam para vencer. “Desde o aspecto técnico da voz até a técnica que aprendi com outros professores”, afirma. Mas ressalta: “o aluno tem que ter disciplina e resiliência para vencer”. 

São 14 turmas orientadas pelo professor. Ao longo dos nove anos em que está na instituição, são vários perfis de estudantes que se inspiram no mestre. “Tenho alunos que, em determinado momento, quiseram disputar comigo quem é melhor, o que acho bom, porque os incentiva a melhorar.  Outros acham que a minha realidade é muito distante, mas procuro mostrar que é possível”, explica. Adriano se recorda das estrelas do canto lírico que via nos tempos de doutorado na Manhattan School of Music, em Nova York. “Vi que são humanos igual a todos. Basta se dedicar, estudar. Saí de Goiás e consegui sucesso lá fora. Outros também podem”, avalia.  

Em busca de democratizar essa arte e demonstrar que é possível, ele está desenvolvendo o concurso internacional de canto lírico Adriano Pinheiro. A intenção é selecionar os melhores cantores do Brasil. Os 20 escolhidos receberão prêmios e serão encaminhados para óperas, tendo visibilidade e recebendo cachês pelas apresentações. “Os vencedores estarão com a Orquestra Sinfônica UFG e no segundo Festival Internacional de Ópera de Goiânia. Vai ser um divisor de águas na ópera no Brasil, principalmente fora do ambiente profissional”, acredita. O edital está pronto, o projeto será realizado por meio da Lei Rouanet e aguarda apenas a assinatura da reitoria da Universidade para ser lançado. 

O tenor critica o cenário local. Para ele, uma realidade muito diferente até de outros estados no Brasil em que trabalhou. “Em Goiás, o canto lírico ainda encontra muitas dificuldades, porque as mesmas pessoas controlam o cenário há anos e não deixam os novos surgirem”, avalia. Para ele, é preciso uma renovação urgente do meio cultural goiano. “Caso contrário, teremos sempre apenas o sertanejo dominando, com uma ou outra manifestação surgindo esporadicamente”, acredita.

Fica claro que as barreiras ao gênero musical não estão relacionadas ao público goiano, muito pelo contrário. Adriano vive isso como regente do coro sinfônico UFG, formado por bolsistas , alunos e professores. “Nos apresentamos em teatros lotados em Goiânia, as pessoas amam assim como em outros Países. Quando encerramos o espetáculo, elas aplaudem e vibram, parece a comemoração de um gol”, destaca. Mesmo com todo o sucesso , Adriano reforça: “precisamos de mais apoio e subsídio para que a continuidade do projeto não seja ameaçada”.

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